Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
L’infantilisme occidental
Blog LeBonDosage – 6 de Março de 2014
Assim pois, a história parece nunca querer terminar-se. Em relação ao problema ucraniano, como não nos rirmos das ideias de Francis Fukuyama que nos anunciava o fim da história nos anos 90, exactamente no momento em que a Rússia parecia juntar-se ao clube das democracias liberais do Ocidente. Emmanuel Todd ele próprio tinha ridicularizado largamente esta visão da História mesmo se finalmente ele próprio se tivesse juntado à ideia, conferindo um sentido à História movida pelo aumento progressivo do nível escolar que assumiria assim o papel de motor da História. Este aumento do nível escolar deveria de acordo com Todd fazer convergir em parte as nações fazendo aumentar o individualismo e a importância das liberdades individuais. Isto era depois do livro “Depois do Império ”. Obra essencial de Todd, mas que é ela falsa sobre muitos planos. Todd não tinha previsto que a Europa ocidental se desmoronaria por sua vez no maelström do liberalismo total. O declínio do império referia-se finalmente também à velha Europa. Enquanto que Todd via na época confrontar-se a potência em declínio que eram os EUA com uma Europa que em certa medida iria substituir este último país. Entretanto o que Todd não pensava que iria acontecer, aconteceu. Pode-se hoje descrever provavelmente o Ocidente como um sistema oligárquico desigual e violento que desencadeia múltiplos conflitos através do mundo para manter as suas pretensões e os seus equilíbrios internos. Os EUA, longe de terem enfraquecido, antes pelo contrário, tomaram totalmente o controlo do continente europeu pela mediação da sua máquina de corrupção. O facto é que a França, outrora nação independente, hoje tem-se até agora emudecido em subalternidade face aos EUA. E a mutação é total dado que o alinhamento geopolítico agravou-se mesmo com a substituição de Sarkozy, o americano, por Hollande, ainda mais atlantista que o anterior Presidente francês.
Esta mutação que vê a UE transformar-se em extensão do poder imperial EUA não é contudo uma grande surpresa para todos aqueles que ligeiramente se interessam pela história da construção europeia. Mas é mesmo assim surpreendente ver até que ponto os países da UE estão unidos no abandono total de qualquer forma de soberania. As elites europeias comportam-se como se finalmente seja infinitamente mais interessante para elas não ter nenhum poder único do que ter de o exercer. Todd via a atracção do modelo da desigualdade na América sobre as elites do mundo como um dos efeitos do bloqueio dos níveis escolares dos estratos superiores. As elites escolares bloqueadas em cerca de 20 a 30 % da população reintroduzindo a noção de desigualdade aí onde a instrução básica generalizada tinha deixado uma sociedade sobretudo igualitária. De facto, a América dos anos 2000 tinha-se tornado o país campeão da desigualdade cujo modelo devia ser imitado não pelo seu sucesso económico, muito relativo, mas pelas suas capacidades em gerar desigualdades. Nesta perspectiva a França e a sua doutrina republicana igualitária apenas podiam ser rejeitadas pelas elites, incluindo as nossas. Se a explicação é sedutora e responde em parte à estranha orientação para a desigualdade dos povos avançada onde, por todo o lado, se degrada a democracia, isso não explica contudo porque é que se assiste a uma decomposição do poder político mais do que a um regresso ao regime antigo. E é a oposição com a Rússia que demonstra em parte esta decomposição.
A decadência de homoeconomicus, que procura o prazer imediato e colectivamente irresponsável
Devo admitir que a relação entre crescimento do nível escolar e o aumento do individualismo sempre me pareceu pouco fiável mesmo se se trata de uma das bases da teoria de Todd. Sempre vi mais o individualismo como o axioma das civilizações de ocidentes que como o resultado do aumento do nível escolar. De facto, não me parece que o aumento do nível escolar tenha realmente desencadeado o aumento do nacionalismo japonês. Não, da mesma forma não me parece que o tenha feito na Coreia do Sul país de nível escolar extremamente elevado e muito pouco individualista[1]. Não falarei da China onde a sombra de uma redução do nível de nacionalismo não é mesmo visível apesar de uma prodigiosa ascensão do nível escolar. De facto, parece-me que muitos povos e países parecem resistentes à decadência liberal ocidental, países onde, no entanto, a transição demográfica e escolar é também muito mais avançada que nós. Há certamente a explicação das estruturas familiares, mas isso também não me convence como não me convence também o automatismo que haveria supostamente entre aumento do nível escolar e aumento do individualismo. Vejo bem o efeito cultural da influência dos modos de consumo. Sem estar a falar do efeito a longo prazo do próprio pensamento cartesiano, que segmenta e compartimente a realidade no espírito dos indivíduos.
Como no-lo dizia Keynes, nunca se deve subestimar os efeitos das ideias mesmo anódinas a longo prazo, elas podem reestruturar sociedades inteiras à imagem do cristianismo sob o Império romano. O liberalismo leva a sua própria vida e não ver na dominação desta ideologia senão o simples efeito do aumento dos níveis escolares não me parece realmente relevante. De qualquer modo, o facto é que, qualquer que seja a origem da explosão do individualismo, este tem efectivamente um efeito político e macroeconómico no Ocidente.
Frequentemente falei sobre este blog dos efeitos nefastos sobre o plano macroeconómico. O principal problema sendo a incapacidade dos indivíduos em pensar a sociedade como um mecanismo colectivo no qual cada um é ao mesmo tempo beneficiário e criador do bem comum. O individualismo empurra pelo contrário a população a comportar-se como se todas as suas próprias acções, os seus próprios ganhos, se devam apenas ao seu próprio trabalho e ao seu próprio talento. Uma das consequências é a multiplicação dos discursos populistas que tratam este ou aquele grupo como responsável de todos os males, dos funcionários aos imigrantes, passando pelos jovens, pelos velhos, as mulheres, etc. O indivíduo ocidental sabe efectivamente rentabilizar os seus próprios méritos, mas ignora perfeitamente tudo aquilo que deve aos outros. Poder-se-ia aqui aproximar este comportamento económico ligado à cultura liberal, dos comportamentos sobre o plano afectivo. Da mesma maneira que o indivíduo liberal se torna irresponsável sobre o plano social e económico, ele torna-se igualmente irresponsável de um ponto de vista familiar. Preferindo o seu próprio prazer ao esforço de se vergar à exigência que necessita toda a vida colectiva. A instabilidade das famílias modernas é um exemplo impressionante desta evolução cultural. Do celibato generalizado aos divórcios múltiplos, passando pelas crianças-reis a quem falta singularmente a autoridade parental. O indivíduo-rei do mundo ocidental moderno não deixa de vir a sofrer das consequências colectivas desastrosas. Pode-se falar aqui de uma cultura literalmente mortífera dado que esta destrói a própria capacidade da sociedade em transmitir os valores que lhe permite perpetuar-se. Julga-se frequentemente a França como um avião sem piloto, mas é igualmente o caso de todos os grandes países do Ocidente incluindo neles a Alemanha. Mas a origem deste fenómeno não está no capital, ou na corrupção, é confundir, na minha opinião, os sintomas do mal com a sua causa. A origem deste fenómeno está ligada essencialmente à cultura profundamente individualista que destrói a nossa população e as nossas elites.
A Rússia reveladora da fraqueza ocidental
Quase que se poderia dizer do Ocidente que este é hoje uma civilização em ruinas, em perdição, um barco de bêbados que navega no meio das ondas sem estar a saber para onde vai. Esta realidade significa que uma dada cultura atingiu o seu ponto de expressão máximo, é o alcançar da integralidade de uma cultura que nega toda e qualquer forma de relação colectiva e de relação social. Uma civilização que desde há dois séculos não cessou de andar a rir e a desacreditar qualquer forma de constrangimento que se aplique ao indivíduo. Obviamente, esta cultura liberal levou tempo para eliminar as antigas formas de pensamento. O espírito de grupo resultante da fé religiosa, nacional, ou outra, durante muito tempo tem impedido a chegada à realização integral do projecto liberal. E o homoeconomicus foi durante muito tempo apenas uma lucubração fantasmagórica. Mas é-se forçado a verificar que chegamos finalmente ao fim da corrida e que a cultura liberal agora triunfou realmente sobre todas as resistências. O indivíduo é um todo, a sociedade não é nada, tal é o novo credo. Infelizmente, os primeiros efeitos parecem confirmar a não-viabilidade desta nova cultura ocidental. A crise económica é a aparência material desta crise mental que destrói as nossas sociedades, todas, tal como a adulação da desigualdade. Mas é no plano geopolítico que o individualismo ocidental parece bem ter dado toda a sua força auto-destrutiva.
O problema ucraniano tem isto de particular que é o facto dele se encontrar na encruzilhada de vários campos de crise e ao mesmo tempo. Por um lado a crise económica da Europa do Oeste que não deixa de praticar políticas económicas contrárias ao bom senso colectivo mais elementar. Preocupando-se em pilhar mais ainda os países mais fracos de acordo com o princípio inversor da solidariedade de que deve primeiro ajudar o mais fraco. Assim a UE que assume o absurdo de defender e manter o absurdo incomensurável de manter uma moeda também ela absurda e ideológica, acrescenta à sua dificuldade os efeitos deletérios de uma prática que consiste em destruir os mais fracos em vez de os ajudar a saírem das suas extremas dificuldades. Vê-se na Grécia e na Espanha os estranhos efeitos da solidariedade pela pilhagem generalizada. Este comportamento não choca, no entanto, absolutamente ninguém nas altas esferas do poder e, no entanto, ajudar os países a empobrecerem a sua população em nome de critérios abstractos é um oximoro evidente. Mas os nossos tecnocratas estão à altura da sua imagem no que se refere seu comportamento altamente individualista, para eles os pobres são pobres simplesmente porque o merecem. E os ricos são ricos apenas pelo seu talento. Trata-se nesta matéria de um dos pilares da cultura liberal, depois de tudo. Porquê ficarmos surpreendidos pela sua resultante colectiva? É em parte a ajuda envenenada da UE que produz os seus efeitos secundários em Ucrânia. O enfraquecimento da posição do Ocidente neste país e a divisão da sua população sobre a orientação ou não para o Ocidente, deve-se em grande parte ao malogro constante das políticas económicas do Oeste e à sua visão liberal da economia. Uma parte dos ucranianos tem provavelmente medo “de ser ajudado” pela UE como os Gregos o foram. Não se pode estar a culpá-los de os ver ainda a hesitarem em tomar as poções amargas do Ocidente que transformam países desenvolvidos em países do terceiro mundo. Neste sentido, é ainda surpreendente ver ucranianos querer entrar na UE. Da mesma maneira que é surpreendente ver ainda outros povos a quererem aderir a este glacis macroeconómico.
O outro campo de crise da Ucrânia é o constrangimento energético. Sabemo-lo, as energias fósseis esgotam-se. Trata-se aqui mesmo do grande constrangimento que vai pesar sobre os negócios do mundo para os 20 próximos anos. Ora, acontece que se a Ucrânia não tem recursos ela é todavia a passagem obrigatória do gás russo. A interdependência evidente dos interesses da Europa do Oeste com a Rússia é negada por um raciocínio completamente desarticulado. Os individualistas dirigentes da Europa esquecem este ligeiro detalhe na sua grande inconsequência de provocar o papão Russo. E as ameaças económicas são verdadeiramente engraçadas, o corte do gás teria efeitos bem mais imediatos que as retorsões económicas europeias. Tanto mais quanto a Rússia poderá sempre apoiar-se sobre a única superpotência industrial real a saber, a China. A falta de responsabilidade sobre as questões energéticas é de resto largamente demonstrativa do pouco interesse que têm as nossas elites sobre o futuro colectivo do seu e nosso país. Haverá ao menos uma pessoa que seja nos nossos ministérios para lhes perguntarmos como funcionarão os nossos exércitos sem petróleo? Sobre estas perguntas como sobre todos as outras é o interesse individual que ganha. Falar-se-á de ecologia para salvar o planeta porque isso agrada ao público. Dir-se-á estupidamente que se vai acabar com a energia nuclear mesmo que isso seja totalmente irresponsável, mas é isso que agrada à imprensa. E ignorar-se-á totalmente as alternativas reais, porque todos se estão nas tintas.. Sobre as questões energéticas assim como sobre a ecologia, o discurso público é reduzido ao simples diktat da comunicação e ao interesse pessoal das elites individualistas do Ocidente.
Por fim, o último campo de crise, o campo cultural. Estamos em face de um choque de culturas entre a Rússia e o Ocidente. Um choque que vai bem para além da simples disputa geopolítica. Depois das disputas que há sempre e haverá ainda. Mas aqui este choque é caracterizado pela ausência total de reflexão colectiva pela parte ocidental, seja ela europeia ou americana. Tem-se a impressão que os Russos estão sós. Literalmente, sós. O Ocidente passa o seu tempo a lançar ameaças sem pés nem cabeça enquanto a Rússia faz uma demonstração de força física. Acontece que por um estranho conjunto de circunstâncias a velha Rússia é hoje o último bastião na Europa da grande política, a que praticávamos nós mesmos até há algumas décadas apenas. Uma política que pode obviamente ser criticada, falsa, cínica, mas uma política coerente e pensada. Em face disto, o Ocidente parece estar a agir sem nenhuma espécie de inteligência, sem a menor parcela de pensamento colectivo. Isto é válido igualmente para os EUA, a potência drogada pela impressão monetária e de que a sua economia mais parece ser um casino gigante a viver a crédito no que diz respeito ao exterior. Os Ocidentais fazem agora a geopolítica como fazem a economia, por uma acumulação de medidas incoerentes cujo único fio condutor é o interesse a curto prazo dos próprios dirigentes políticos.
Compreende-se de imediato porque é que Putin incomoda. Angela Merkel teve esta estranha reflexão dizendo do presidente russo que ele vivia num outro mundo. Que ele tinha perdido todos o sentido das realidades, mas de que realidade fala ela, a chanceler alemã ? Desta realidade que faz que a Alemanha destrói comercialmente os seus vizinhos e que organiza a sua própria extinção demográfica sem que isso pareça preocupar minimamente as elites do país? Uma Alemanha que faz uma corrida ao excedente comercial sem se estar a incomodar das consequências macroeconómicas? Devemos, isso sim, interrogarmo-nos efectivamente em que mundo vivem as elites do Ocidente. E, efectivamente, ver um dirigente político não agir por outras considerações que não sejam as da sua própria reeleição e para a sua imagem mediática deveria obrigatoriamente chocar um espírito meramente liberal e individualista. Com efeito a Rússia vem dar um choque do real às nossas elites. Estas elites parecem entrever o declínio das sociedades nas quais vivem sem realmente estar a compreender que disso são fortemente responsáveis. Mas tranquilizemo-nos, rapidamente elas irão voltar às suas ocupações tão importantes como o casamento gay ou aos atrasos ou incapacidades devidas ao arcaísmo do sistema social francês. De resto, a Comissão Europeia acaba de colocar sob vigilância a França. Esta gasta de mais e não faz bastantes esforços para resolver os seus grandes desequilíbrios. E então, para quando a poção grega para a França? Enquanto espera, a Rússia continuará a melhorar a sua situação económica e a fazer a grande política enquanto as nossas elites continuarão a destruir a sua nação para salvar os seus postos políticos e os seus pequenos interesses particulares. Quem ri por último, ri melhor. Com a possibilidade de dentro de alguns anos os tanques russos virem até Paris e não terá provavelmente muita gente para se lhe opor…
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[1] Deixem-me como tradutor contar aqui uma pequena história que cito de memória. A secretária de Raymond Barre, jovem golden-girl da bolsa de Paris contava a seguinte história: num grande liceu de Tóquio fez-se a seguinte experiência. Numa sala fechada estavam os filhos dos diplomatas ocidentais. Noutra, estavam crianças japonesas da mesma faixa de rendimentos. Ambas as salas estavam viradas para um pátio, onde estava um saco de arroz, imaginemos, com 75 Kgs. Pedia-se a cada aluno que fosse ao pátio e deslocasse o saco. Naturalmente ninguém isoladamente era capaz. Começou-se pelas crianças japonesas. A primeira foi para o pátio e uma vez deslocado ou não o saco, regressaria mas a uma outra sala. Nenhuma criança japonesa fez isso. Cada uma veio chamar um colega e arrastavam o saco. Depois voltavam para a sala que lhes estava indicada. A experiência com os filhos dos diplomatas deu o seguinte: nenhum deslocou o saco, nenhum chamou ninguém, o saco nunca se mexeu. Conclusão de Gilberte Beaux, a nossa golden-girl: o Japão era uma sociedade conservadora, o Ocidente era uma sociedade progressista, pois claramente mais individualista. A conclusão não é minha…
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