TRECHOS DO ENSAIO “A POESIA E O LIVRE MERCADO”, de OCTAVIO PAZ

Imagem1

 

   Desde a era do romantismo, os leitores de poemas têm sido figuras solitárias e dissidentes, assim como os próprios poetas, aliás. São poetas e leitores burgueses, sim, mas revoltados contra seu passado, sua classe social e a ética de seu mundo.

   Com exceção de meia dúzia de aristocratas, todos os poetas modernos pertenceram e pertencem à classe média. Todos eles cursaram faculdade. Alguns foram advogados, jornalistas, médicos, professores e diplomatas, outros foram executivos de publicidade ou relações públicas, banqueiros, empresários, burocratas importantes ou não tão importantes. Alguns poucos, como Verlaine e Rimbaud, foram parasitas fugitivos da lei. Mas Verlaine tinha uma pequena renda de investimentos e Rimbaud era originário da burguesia provincial.

   Estamos vivendo uma mudança dos tempos: não uma revolução, mas, no sentido mais profundo e duradoura da palavra, uma revolta – uma volta à origem, um retorno ao início. Estamos testemunhando não o fim da história, como afirmou um certo professor universitário nos Estados Unidos, mas um reinício.

   Hoje em dia a literatura e as artes estão expostas a um perigo diferente: estão sendo ameaçadas não por uma doutrina ou um partido político mas por um processo econômico sem  rosto, sem alma e sem direção. O mercado é circular, impessoal, imparcial, inflexível.  Alguns me dirão que está certo, que é assim mesmo que deveria ser. Talvez. Mas o mercado, cego e surdo, não gosta de literatura, não aprecia riscos, não sabe como escolher.

   Num mundo governado pela lógica do mercado, ou pelo planejamento estatal nos países comunistas, a poesia é uma atividade que não traz retorno algum. Seus produtos são praticamente invendáveis e quase inteiramente inúteis. Para a mente moderna, embora ela não admita isto para si própria, a poesia é energia, tempo e talento voltados a objetos supérfluos. No entanto, contrariando toda a lógica, a poesia circula e é lida. Rejeitando o mercado, custando quase nada, ela passa de boca a boca, como o ar e a água. Seu valor e sua utilidade não podem ser medidos; um homem rico em poesia pode ser um mendigo. E os poemas não podem ser economizados para formar uma poupança: eles têm de ser gastos. 

1 Comment

  1. Caro João Machado,

    devo esclarecer que embora esse belo trecho de um ensaio de Octavio Paz tenha aparecido, por escolha do saudoso editor Massao Ohno, como badana do meu primeiro livro de poemas, COMIGOS DE MIM, (São Paulo,SP 1995), a tradução não é minha. E,infelizmente, ignoro de quem seja. O ensaio também não consta dos livros de Paz que possuo.
    Quem dera que algum dos nossos leitores pudesse nos revelar o nome do tradutor.

    abraço da
    Rachel Gutiérrez

Leave a Reply