CARTA DE VITORINO NEMÉSIO AO PINTOR DOMINGOS REBELO – por Clara Castilho

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Imagem1Hoje não falamos de um livro, mas si de um autor – Vitorino Nemésio, o  romancista de Mau Tempo no Canal, o professor da Faculdade de Letras de Lisboa, o excelente comunicador de Se bem me lembro, é evocado por Clara Castilho através de uma carta que Nemésio escreveu a Domingos Rebelo.

Por se ter homenageado Vitorino Nemésio no Dia da Poesia, questionei meu primo Jorge, neto do pintor Domingos Rebelo, sobre se sabia da existência de alguma comunicação entre ambos. Enviou-me um artigo, publicado no Jornal “Correio dos Açores”, em 1924  que partilho convosco:   “É transcrita do nosso colega «A União», de Angra, a carta que abaixo reproduzimos dirigida ao ilustre pintor Domingos Rebelo pelo brilhante escritor Vitorino Nemésio, “a propósito da exposição realisada há pouco n´aquela cidade”:

                                                                                            Meu caro pintor:

 Devo a V., que é um artista deveras, algumas palavras simples acerca da pintura que nos mostrou estes dias. É certo que foi pouca, entremeou-a V. de alguns carvões apressados, aligeirou a exposição do Tennis com aguarelas leves, mas não é menos certo que fez com tudo isto um acto encantador, dos que, pelo inesperado, nos surpreendem e inclinam a bem amar e crer. 

 Começando naquele seu óleo de figura, tão saboroso, que ao tôpo da sala marcava um par de velhos sentados, noto-lhe o fundo esplêndido de casas com suas janelas pequenas, rigorosamente nossas, em que a tinta é um pequeno poema de entardecer ilhéu. E – veja V. bem – se há poetas da pintura, impenitentes vates do óleo e da aguarela, não é V., decerto, um dos que julgo assim. O seu temperamento de pintor é forte e contrastado; em si a côr só vale como valor de paleta; quero dizer, em suma, que os seus processos não pedem nada emprestado ás belas-artes alheias. Entretanto, o fundo do seu quadro eu o achei quasi lirico. Tem o sabor cinzento do mormaço, o tom das casas simples, e sobretudo êsse cheiro indizivel que sai da porta dos pobres, ao mesmo tempo feito de rescaldo do forno e da jubilosa baunilha. Não falarei daquelas figuras que á frente, no quadro de que trato, são documentos bons dos usos da Terceira; vou conservar em branco, nesta  carta, a carapuça que V. pintou com orelhões vermelhos. Mas a exactidão com que enquadra, a fidelidade com que transmite a côr do meio em que trabalha, essa merece-me uma referência pausada, onde vai sem encomenda ou lisonja, a admiração melhor que tenho por V., Domingos Rebêlo – e digo isto como de terceira pessoa – é o pintor completo dos Açores.

 Penso agora em como é notável, e digna de alta estima, esta qualidade sua, tão desejável e urgente, de nos pintar sômente á nossa moda. Aparece em V. um organismo feito para a côr destas ilhas; e, já que um inglês chamou “azorean torpor” ao ar que nos esmalma, eu chamarei côr das ilhas áquela que o Domingos transverte nos seus quadros. Decerto, para que V. desvendasse o bem fechado segredo da nossa côr privativa, em que domina o pardo e o tom de malva, foi preciso que uma celeste madrinha lhe bafezasse o berço;  e eu estou em dizer que os vidros do seu quarto, quando V. nasceu, deixaram passar a Virgem Mãe da Luz sem refracção alguma. Mistérios são estes, contudo, que hão-de ficar vendados. Mas o que V. teria de explicar, se a não soubéssemos obra de talento, era a conservação do perfeito sentido dos nossos valores cromáticos, esse especie de fidelidade conjugal á côr açoriana. Casou V. com ela, e não a traiu. O nó da estola não o lassou mais.

 E, contudo, o Domingos Rebêlo enterneceu-se em Paris, como eu, diante do verde-Veroneso, do branco e preto de certos Grecos trágicos, dos rubros belicosos de Delacroix e de Ingres, como se enterneceu, até ao fundo da alma, defronte das esbatidas tintas da Joconda. Lembra-se? No retrato de Vinci a luz é tão suave, e a gradação é tão fina, que os olhos da mulher  parecem ali postos pelos dedinhos dum pássaro. São duas gotas de inexplicável  luz. E Velásquez, e os butirosos flamengos – heresia! – , tudo ali devia conjugar-se em contra do seu animo.

 Mas não. V. teve artes de sair do Louvre com sua vis intacta, e só assim nos pôde dar agora os quadros tão ilhéus. Foi por isso excelente a sua exposição. Dos retratos, fieis e bem cingidos, distingo dois sómente: o da mãe do dr. Luiz Ribeiro, espiritual de muito serena velhice, e o estudo do pobre Ti´Stulano, que tanta graça tem. Das duas ou três aguarelas, fixo a da portado Páteo dos Estudos e a duma rua de Angra com a sua carroça e um passo. Saíram leves e com ressalto bom.

 Aqui tem V., meu caro Domingos Rebêlo, o que se me oferece dizer da sua exposição bem fazeja, tão oportuna para esta ilha onde faltam lições de boa arte. Quizera falar-lhe tambem daquela exuberancia de motivos pictóricos, tão nossa tentadora, que a Terceira nos mostra como riqueza virgem. Mas o espaço é já curto. Oxalá esta sua improvisada exposição do Tennis, cheia de belas coisas, seja o percurso de outras mais completas e de mais frutoso exemplo. O dia de hoje fica-me assinalado por varias razões afectivas ; e com certeza uma das muito gratas é a razão destas linhas, meu caro Domingos Rebêlo, em que o abraço com admiração e estima.

                                                                                  Vitorino Nemésio”

1924-Angra Heroísmo-fotografia 2 - Cópia (2)

1924 – Quadro da Secretaria Regional da Cultura dos Açores, foto gentilmente cedida pelo Prof. Luiz Fagundes Duarte a Jorge Rebelo

Há obras de Domingos Rebelo no domínio público, para além de museus nos Açores. Em Lisboa, por exemplo, os frescos do altar na Igreja de S. João de Deus, e no salão nobre da Assembleia da República. Seu neto Jorge Rebelo, reúne todos os documentos que encontra e mantem viva a memória do avô (http://domingosrebelo.com/)

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