CARTA DE VENEZA – 80 – por Sílvio Castro

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Depois de quinze anos, o cinema italiano volta a vencer o Oscar para melhor filme estrangeiro

 

                Depois de 15 anos, a 86ª edição da Academy Awards faz retornar ao cinema italiano, neste 2014, o Prêmio Oscar para “O melhor film estrangeiro“, com A grande bellezza, de Paolo Sorrentino.

                A última vitória fora obtida por Roberto Benigni com o seu admirável La vita è bella, produto cinematográfico completamente diverso do atual de Sorrentino.

                A história do Prêmio para diretores italianos é grande e importante, tanto pelos nomes daqueles premiados, como pelas grandes ausências, como a do mestre Mario Municelli. Tal história tem início em 1947, quando foi premiado Sciuscià, de Vittorio de Sica, sucesso logo depois, em 1950, repetido com outro trabalho de De Sica, Ladri di biciclettte. Aliás, grande é o amor de Hollywood por Vittorio De Sica, pois a ele também são concedidos os Oscars de melhor film estrangeiro em 1965, com o renovador Ieri, Oggi e Domani, bem como ao melancólico Il giardino dei Finzi Contini, de 1971.

                Somente Fellini merece tantas preferências exaltantes de um momento particularmente mágico do cinema italiano. De Federico Fellini, são premiados com o Oscar como melhor film estrangeiro dos respectivos anos: em 1957, La Strada; em 1958, Le notti di Cabiria; 1963, Otto e mezzo; em 1974, Amacord.

                Ao cinema italiano vem dedicado igualmente o Oscar para o melhor film estrangeiro a vários outros produtos que traduzem a riqueza do cinema sempre praticado na Itália, tanto nos seus melhores momentos sócio-econômicos, bem como naqueles de períodos menos significativos. Em 1970, vence um film muito especial, Indagini su un cittadino al di sopra di ogni sospetto, de Elio Petri; 1990, Nuovo cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore; em 1992, Mediterraneo, de Gabriele Salvatores. Depois do qual, o film de Benigni que obriga o cinema italiano a esperar por longos 15 anos para um novo Oscar especial, chamando a atenção para um film muito distinto de todos esses antigos vencedores, a não ser alguns pontos de contatos com o De Sica de “Os jardins dos Finzi Contini”.

                Numerosos críticos compararam o novo filme de Sorrentino, tradução de uma Roma decadente, mas ao mesmo tempo muito moderna, à linha estética de Fellini; mas aquela era uma diversa maneira de traduzir la dolce vita romana. Mais do que com o autor de Amacord, La grande belllezza tem um diretor que possui muito do cinema de Vittorio De Sica, em particular com aquele admirável vencedor do Oscar de 1971 para o melhor filme estrangeiro, Il giardino dei Finzi Contini. Forteé a melancolia que percorre o filme nascido do romance de Bassani. A difusa melancolia que percorre o desenrolar de “A grande beleza”, centralizada no seu personagem principal, Jep Gambardella – magistral intepretação de Toni Servillo – um jornalista e críitico teatral de valor que convive com Roma como se quisesse recuperar o tempo passado, agora feito mais que tempo, névoa, ainda que uma névoa tulmultuada e sempre viva. A fotografia de Luca Bigazzi corporifica eficazmente todo essa atmosfera de sonhos.

                Sempre vivo, mesmo na exaltação do passado, é o filme vencedor de Paolo Sorrentino. Trata-se de um novo Oscar para o melhor filme estrangeiro que demonstra quanto rico seja sempre o cinema italiano. Aquele mesmo cinem que se espelha na fala final do personagem de Servillo: “Il futuro è meraviglioso”.

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