A REVISTA ” A IDEIA” EM PERSPECTIVA – IDEÁRIO E ITINERÁRIO – 6 – por António Cândido Franco

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(Conclusão)

Sobre as continuidades e descontinuidades que passam pela revista não parece haver muito mais a dizer. Elas atravessam as quatro décadas da revista e estão sempre presentes. Por vezes aquilo que faz a continuidade, como o permanente interesse e a constante ligação ao anarquismo, é também aquilo que faz a descontinuidade, pois o anarquismo não tem sempre na revista o mesmo sinal; a princípio por exemplo selecciona a propaganda revolucionária, depois interroga-se, numa posição que tanto tem de reflexiva como de defensiva, sobre os resultados da revolução, sem contudo afastar a necessidade de mutações sociais. Quer dizer, no início do seu percurso a revista entrega-se à propaganda, depois à investigação e ao estudo. Entendem-se assim melhoras alteridades que resultaram do confronto entre o número de 1974 e o de 2012. Será porém enganador encarar tais diferenças à luz de polaridades como reforma e revolução, democracia e anarquia , realidade e utopia, tomando como ponto de viragem o ano de 1989, em que as dessemelhanças se desenharam nítidas. Para bem dizer,A Ideia nasceu com dois cromossomas distintos, um revolucionário, concorde com a mudança que se vivia em Portugal no horóscopo do seu nascimento, a Revolução dos Cravos, e outro menos activista e militante, reflexivo e indagador, aberto à inovação, como logo se vê no primeiro número no texto contra-cultural de Murray Bookchin. Com a mudança da sociedade portuguesa na década de oitenta, seguida logo pelas transformações a leste, este segundo factor acabou por se impor no trajecto da publicação, tornando-se marcante na caracterização de boa parcela do seu itinerário, que não saindo docampo libertário, e até dentro deste da tradição que era a sua, o anarquismo social, se empenhou todavia em questionar as verdades da sua família, procurando segmentos da sua história pouco valorizados – e estão nesse ponto os dois textos de Malastesta, dados a lume em suplemento ao n.º 55, o derradeiro da I série – e não hesitando em dela se afastar quando a natureza dos factos assim o impunha. Neste périplo é possível que alguma coisa nova tenha nascido, substituindo o primitivo anarquismo social da revista, de tradição anarco-sindicalista ou sintetista (F.A.I.), pelo que podemos designar por anarquismo cultural, uma noção própria porventura à vida da publicação, sem tradição entre nós, e que de futuro procuraremos esclarecer melhor.

Se quisermos traçar um balanço destes quase quarenta anos de vida, com mais de setenta números publicados, diríamos que A Ideia foi desde o seu início uma revista libertária inovadora, capaz de discutir com abertura o passado e encarar com criatividade o futuro, sem prisões de dogmas e de verdades indiscutíveis, que se esforçou por dar um contributo sério para a actualização do anarquismo. Não é forçado dizer que a revista está ao nível das melhores publicações mundiais da sua área, ombreando com projectos editoriais de grande qualidade filosófica e social, alguns já desaparecidos, como as revistas Volontá em Itália ou Anarchy em Inglaterra (sobre esta há resenha bibliográfica n’ A Ideia, n.º 26-7, Dezembro de 1982). Nomes como Paul Goodman, Colin Ward, Murray Bookchin, Howard J. Erlich, John Mc Ewan, Ronald Creagh, Nico Berti, chegaram, ou quase, à língua portuguesa por causa d’A Ideia e porventura sem ela ficariam mais longe do público português. Este possante trabalho teve um rosto, João Freire, fundador da revista e seu animador de sempre, isto sem menosprezar o contributo dum vasto grupo de pessoas, a começar pela cooperativa Sementeira, adjuvada pelo embrionário Círculo de Estudos Neno Vasco, fruto do mesmo esforço e que, se não deu outros resultados, veio a ser um dos esteios do Arquivo Histórico-Social, na Biblioteca Nacional (BNP), onde se reúne hoje o mais rico acervo relativo ao anarco-sindicalismo português e donde há pouco saiu o projecto MOSCA, de que em outras partes desta revista se dá ao leitor notícia mais desenvolvida (v. texto de João Freire e Paulo Guimarães e “Arquivo” final).

A Ideia não foi porém uma revista apenas de ideias, isto por muito que se tenha empenhado em divulgar, em investigar, em estudar e em actualizar uma tradição reconhecível de pensamento.

Foi também uma revista voltada para a criação poética e pictórica, onde encontrou uma manifestação natural do seu génio próprio. Em tal campo, que muito cresceu após as mudanças de 1980, a revista reúne um vasto número de colaborações, de Cesariny a Fiama, de Cinatti a João Rui de Sousa, que nada devem ao que de melhor nesse domínio entre nós se publicou na mesma época e que bastam para a justificar como uma das mais assinaláveis publicações das últimas quatro décadas.

Com este número duplo A Ideia sofre novas alterações de formato e novas mexidas na direcção. É cedo porém para dizer se estas correspondem a modificações de orientação. Uma coisa parece segura: o contexto interno e externo em que a revista agora surge não é de modo nenhum aquele em que teve lugar a dissolução da cooperativa Sementeira. A mundialização do mercado, a circulação sem entraves do capital, a deslocação do trabalho para áreas geográficas onde impera a escravatura descarada, as políticas de austeridade, a ganância dos especuladores, as guerras e as intervenções no mundo árabe vieram temperar a euforia de então e mostrar de novo a face negra da democracia associada ao capital financeiro. Mas se isto é seguro, temos outrossim por certo que o valor cultural da revista, o seu anarquismo cultural, já atrás apontado,granjeado pelo seu anterior responsável, é um legado inestimável que será sempre nosso credor e ao qual nos queremos fiéis.

António Cândido Franco

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