Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 111)
UM HOMEM EXTRA-ORDINÁRIO
Parece fácil falar de Agostinho da Silva. Em fim de vida e graças à televisão, a sua figura, o seu pensar em directo e em voz alta para milhões de pessoas, como se tivesse conseguido unir milagrosamente a unidade do seu ser à sua aparência de Sócrates familiar, missionário sem mais missão que a de inculcar que todos somos naturalmente sábios e filósofos, Agostinho da Silva era a encarnação perfeita de uma existência transparente. No sentido original do termo, uma existência não-hipócrita. O mínimo de comédia de que precisamos para representar no palco da vida era-lhe estranho. Com razão, esta ausência de pose, que em outros podia passar pela mais refinada das poses, fascinava aqueles que assistiam, nem sempre convencidos, a este exemplo, mais do que raro, de um homem em que era impossível separar o verbo da acção por ele enunciada, como se fosse o acto mais óbvio e simples do mundo.
Podíamos atenuar este espanto que já não o era, catalogando Agostinho da Silva na categoria já sem surpresas, mas sempre surpreendente, do místico. É uma roupagem que lhe assenta bem e nem se vê outra que melhor defina o estilo de existência que nele se encarnou ou ele encarnou. Acontece apenas que a imagem do «místico» arrasta consigo um certo número de referências, evoca uma atmosfera eclesial e sobretudo, entre nós, uma tradição, por assim dizer, homologada oficialmente por uma autoridade institucional ou institucionalizada. E como era visível, nada estava mais distante de Agostinho da Silva do que esta inscrição do autor de Aproximações ao círculo da mística cristã tal como vulgarmente se entende e é exemplificada desde S. João da Cruz a Santa Teresa, ou mesmo pelo tão evocado S. Francisco de Assis. Claro que todos os «místicos», ou aquilo que assim chamam aqueles que o não são, mesmo os mais teologicamente insuspeitos, relevam do excepcional e da excepção. A esse título, Agostinho da Silva não destoaria na ilustre e canónica companhia. Digamos que pode figurar na mais rara espécie de homens que são os «místicos» se lhe acrescentarmos uma dose suplementar de «extravagância» ou, se se prefere, de excentricidade.
Não em meros termos de comportamento exterior, de total desprezo pelas regras, costumes ou ritos mundanos, que fazem parte do folclore da mais inequívoca santidade, mas da íntima e irredutível ex-centricidade. Agostinho da Silva não tendeu, graças a qualquer tipo de ascese, para uma experiência inefável do que se convenciona designar por Absoluto, transcendência mais ou menos heterogénea à essência humana. Agostinho da Silva, se foi «místico», foi-o de um misticismo «sulfuroso» pela natureza naturalista da sua visão do mundo e da vida. Não se instalou na excepção, pregou e viveu no combate à ideia de excepção, em todos os domínios, numa espécie de anarquismo profético e radioso, no fundo mais próximo de Rousseau que de qualquer figura clássica da família «mística». O misticismo de Agostinho da Silva — se assim se lhe pode chamar — é um misticismo por defeito, por intencional desconsideração daquilo que, em todas as ordens, desde a do pensamento, da imaginação, da vontade, mas também da acção, se apresenta como exemplar. Foi, com uma naturalidade quase provocante, um marginal, mas não da marginalidade maldita, sacrificial, infeliz, que tanto agrada aos «mártires» da liberdade, da criação ou da acção. Se não fosse de essência provocatória, quase demoníaca, o seu utopismo, o seu optimismo voluntarista, a sua aparente ou realíssima recusa do trágico, seriam quase intoleráveis. É possível imaginar que neste grau, a sua aposta, diametralmente antagónica da de Pascal, releva, em qualquer desvão, de não sei que paradoxal ressentimento. Há em Agostinho da Silva um tão extremado gosto pela «estaca zero» do humano, uma tão intensa denegação de tudo o que signifique ou pretenda, a que título for, ser tido como «distinto», como «valioso» no sentido de se arrogar assim como signo de qualidade ou mérito, que só em termos de ressentimento parecem explicáveis. E, todavia, precisamente, a imagem que ele deu a quem o conheceu ou teve ocasião de o ver quando, cândida e desarmadamente, se ofereceu ao juízo público, parece incompatível com esse reflexo, característica de alguém secretamente ferido, como precisamente, mas também dando a impressão oposta, o foi Jean Jacques Rousseau.
Estamos a anos-luz daquela imagem-mito que não só nos últimos anos, mas penso, sempre, se colou ao homem e à figura de Agostinho da Silva, como exemplo de existência clara, sem sombra de sombra, vida activamente inserida na sua «pregação profética» sem hiato com a sua vida. Não foi um vagabundo irónico como Sócrates, nem um provocador cénico, mais em actos do que em palavras, como Diógenes, mas de um e outro exemplificou, aparentemente sem suscitar nem fundado espanto, nem desconfiança, junto daqueles que, incapazes de medir o alcance da sua palavra intrinsecamente subversiva, mais inclinados estavam — ou estão — a compará-lo a uma figura como S. Francisco de Assis.
Obrigada pelo teu texto que nos reaviva a memória de pessoas que caíram no esquecimento, mas que são extraordinárias