EDITORIAL – José Rodrigues dos Santos e José Sócrates.

Imagem2Duas pessoas podem estar em desacordo e uma delas ter razão; também pode acontecer terem razão as duas; e é possível que nenhuma das duas tenha razão. Estas três situações verificam-se em simultâneo no choque entre o pivô da RTP, José Rodrigues dos Santos e o ex-primeiro ministro e actual comentador político do Telejornal, José Sócrates. Tudo depende de quem avalia as razões… Na nossa avaliação, ambos podem ter  as suas razões.

Mas nenhum tem razão.

 

 Na entrevista de há quinze dias, José Rodrigues dos Santos foi aos arquivos recuperar declarações de Sócrates emitidas nos anos de 2010 e 2011, confrontando-o com contradições. Sócrates não gostou. No domingo, a tensão repetiu-se com Sócrates dizendo (em resposta ao argumento de que a missão do jornalista é a de provocar reacções aos entrevistados): – Até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber e não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer numa entrevista – De cenho franzido, o jornalista respondeu: – Fica registado o seu insulto, ao qual não vou responder.

José Rodrigues dos Santos sabe bem que está a cumprir uma tarefa encomendada. Sócrates sabe muito bem que as semelhanças entre o que agora proclama e o que fez enquanto primeiro-ministro, são pura coincidência. O choque entre duas desonestidades, entre a ofensa ao código deontológico do jornalismo e a violação dos interesses da República em favor de interesses privados, produz tensão e algum espectáculo.

Entretanto, ambos vão atingindo os seus objectivos – o espaço deste comentário político inserido no Telejornal de domingo, teve em relação ao anterior, uma subida de 120 mil espectadores. Este domingo o comentário semanal foi visto por 630 mil pessoas. Por seu turno, Sócrates vai relançando a sua carreira política, colmatando com palavras os erros cometidos.

O crime compensa.

 

2 Comments

  1. O único crime que aqui compensa é a destruição do serviço público de rádio e televisão que este Governo, na senda de outros do PSD e com a cumplicidade (ou, pelo menos, a inacção) dos governos “alternantes” do PS, está a consumar, usando os bons serviços de um ex-cervejeiro ignorante, mas atento, servidor e obrigado – que para isso lá foi colocado, com boa tença, à custa dos nossos impostos.
    O “confronto” José Sócrates (JS) vs. José Rodrigues dos Santos (JRS) e respectivo fogo-de-artifício mediático é que merece outras reflexões – menos superficiais e, sobretudo, não “convenientemente” desviadas do que está verdadeiramente em causa -, bem diferentes das que tem suscitado nos “media”, entre os ignorantes e manipuladores de serviço.
    Antes de mais, o que é inaceitável (e, de acordo com o Prof. Nobre-Correia, caso único na Europa) é a comparência semanal, nas televisões, de “comentadores” que são destacados militantes dos partidos políticos do “centrão”, mais uns enfeites colhidos nas adjacências direitinhas. Situação que fere o pluralismo indispensável a uma Democracia, mesmo de serviços mínimos, já condenável nas estações privadas, mas que, nos canais de SP, é absolutamente inadmissível, sobretudo quando as últimas Direcções de Informação da já moribunda ReTdeP, magníficos exemplos de imbecilidade militante, ausência total de deontologia e de sólida incompetência profissional, parecem convencer-se de que, com a opinância semanal de representantes dos dois partidos maioritários (transitoriamente, pois tudo muda neste mundo…) na AR está cumprida uma das suas missões fundamentais – a da garantia do pluralismo, consignada na Constituição. Este é a primeira acção dolosa de quem dirige a informação deste SP, a qual nunca deveria ter sido autorizada, nomeadamente por uma entidade com uma incontida ânsia de auto-anulação, designada por ERC, cuja inoperância é notavelmente conspícua.
    Mas, se passarmos à análise da situação real criada por tais incompetentes, não podemos fazer de conta que o que se passa corresponde ao que “queremos ver”, sendo que há quem se fique pela excitação do “espectáculo do confronto” (espécie de “reality show” assumido pelo SP), ou pela “medição” dos ganhos políticos dos intervenientes.
    Já por aqui se sabe que não gosto do político José Sócrates, cuja governação considero integrar-se na mesma linha neo-liberal dos últimos governos PSD (com ou sem apêndices) e que, ao contrário de muitos dos meus companheiros neste blogue, sempre considerei uma rematada tolice as acusações assacadas ao PCP e ao BE de “colaboração” com a direita no chumbo do PEC-IV, quando o que se passou foi exactamente aquilo de que agora o PS se queixa, quando o PSD clama por “consensos”: o governo de JS pretendia impor aos partidos à sua esquerda, sem qualquer negociação, uma política decidida apenas por si, afinal um “consenso” cuja bondade varia consoante funciona a favor de ou contra quem o invoca…
    Tal, porém, não me impede de reconhecer as qualidades de JS, exímio no debate político.
    E é essa superioridade (reforçada por algum acréscimo de formação intelectual que o famoso “ano sabático” lhe terá acrescentado) neste tipo de confrontos que emerge neste caso, face a um sujeito alcandorado a um nível jornalístico que nunca teve nem, pelos vistos, terá. Talvez seja preciso lembrar a existência de gente como Adelino Gomes, Joaquim Furtado ou, para falarmos da “formação BBC” (onde também há cada vez mais pechisbeque a reluzir, já que não é imune à degradação geral do jornalismo), de Joaquim Letria que, amenamente e sem “confrontos” cretinos, conseguia sacar dos seus entrevistados tudo e mais alguma coisa.
    Assisti, com o distanciamento de quem não aprecia nenhum dos intervenientes, às duas tão badaladas barracadas dominicais, que o novo Director de Informação montou, sem sombra de inocência, recorrendo à ingénua petulância de JRS para, pensa ele (que prima mais pelo chico-espertismo que por especiais qualidades profissionais) favorecer o “seu” Governo, querendo fazer da generalidade dos “telespectadores” os parvos que gostaria que fossem na totalidade…
    E o que vi foi um JRS que não percebeu (ou foi mal informado) que um programa deste tipo não consiste numa entrevista semanal a uma mesma personagem (algo absolutamente aberrante para quem se desse ao trabalho de pensar uns segundos) e, arrogantemente fiado nos papeluchos aparentemente “incómodos” que arrepanhara e nas suas “qualidades” de jornalista de “genealogia BBC”, incapaz – como, infelizmente, se verifica com uma excessiva maioria dos jornalistas actuais, quando em acção entrevistadora (quem não gostar da apreciação que meta a mão na consciência, pois, no meu caso, não faço uso de eufemismos suavizantes) – de ultrapassar a “cábula” previamente elaborada, para ouvir, com a indispensável atenção, os argumentos do entrevistado e questioná-los (não “opor-se” a eles) com pertinência e real conhecimento do tema ou temas agendados. Um JRS convicto, como todos os crentes na sua própria e pressurosamente incensada “superioridade”, de que JS “estava no papo”…
    Mas não foi assim. Vi-me forçado a concordar, no primeiro episódio, com a indignação que impregnou a intervenção de JS, confrontado com um evidente “golpe baixo”, mas não considero que ela tivesse atingido o estatuto de zanga que a maioria dos coleguinhas de JRS corporativamente vislumbrou. JS, que rapidamente se apercebeu das fragilidades do seu “opositor” tirocinante, passou o resto do programa a discorrer, num registo claramente irónico – quando não sarcástico – sobre os “arquivos” agitados algo atarantadamente por JRS, para terminar com uma estocada “assassina”, mas certeira e justificada pela pelintrice intelectual do “ilustre jornalista”. No segundo episódio, JRS, insistindo em pensar que é “o maior”, ofereceu, de mão beijada, a JS, a oportunidade de o humilhar, com uma frase habilmente formulada, baseada na argumentação “exterior ao programa” do próprio JRS, que expunha a inegável incapacidade do seu “opositor” de manter a serenidade e analisar com a inteligência que até, talvez não lhe falte, mas se esquece de usar, o conteúdo do que JS expunha: exactamente o que se exige a um jornalista competente e bem preparado e não apenas vocacionado para emular as inenarráveis actuações “agressivas” de Manuela Moura Guedes… JRS (não “após uns momentos de silêncio”, como já me fartei de ver escrito e dito, mas no final dessa intervenção de JS) lá disse que registava o “insulto” ao qual não iria responder (tradução: não teria o talento necessário para tal), esquecendo de que a verdade nunca é um insulto…
    O cerne da questão reside, antes de mais, no péssimo desempenho profissional de um jornalista, tanto mais reprovável quanto se apresenta como intérprete do que tem de ser, obrigatoriamente, o SP na área do audiovisual; e, não menos importante, no facto de o que é posto em causa ser o próprio jornalismo e as premissas do exercício da profissão, nomeadamente a sua deontologia.
    Ora é nesta “delicada” matéria que parece que ninguém quer tocar, com a honrosa excepção (que eu visse, não excluo outras) do já referido Professor J-M. Nobre-Correia, nas suas habituais crónicas no DN.
    É perniciosa, por deficiente, uma posição do tipo de que “isto é tudo igual”, neste caso descentrando-se da importância fundamental e do papel insubstituível, em Democracia, de um jornalismo sério, culto, sem lacunas de formação e informação básicas (estranhamente menos evidentes com a actual “formação superior” em Comunicação Social), que surge progressivamente mais degradada. Tal como o é a que distingue, como dissociáveis, os desempenhos de quem fabrica a matéria da informação e de quem os transmite, enquanto medianeiro na sua transmissão à generalidade dos cidadãos. Pois este é um dos mais graves problemas da sociedade actual.

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