A URGÊNCIA DA LITERATURA -Literatura e Ensino – II – por Maria Alzira Seixo

Este artigo da Professora Maria Alzira Seixo, dada a sua extensão, foi segmentado em três partes.
Apresentamos hoje a segunda – a terceira e última será publicada amanhã neste mesmo espaço horário

Imagem2Que há então com a Literatura, genericamente apetecida (veja-se a quantidade de livros de criação que regularmente se publicam) mas pedagógica, editorialmente, e politicamente maltratada? E como é que autores talentosos mostram defeitos graves de redacção, construção da frase, até erros de ortografia? Bem, que a ortografia, hoje, não interessa. Vem um revisor, e emenda! Em muitos casos, emenda mal… Mas… para que se há-de ralar um aspirante a escritor, se há correctores ortográficos? Se a máquina substitui o pensamento? Ou antes: se a máquina OBRIGA o pensamento? Hall, o computador de “2001, Odisseia no Espaço”, que nos dava pesadelos só de pensarmos que um dia poderia ser assim, não supunha afinal que iria ter descendentes tão pouco à sua altura.

Que há, pois, com a Literatura, por um lado tão secundarizada que dir-se-ia não merecer vigorar no Ensino, e por outro lado tão ‘acautelada’ que até parece constituir… uma ameaça?

O que há é que a Literatura consiste no uso estético da Linguagem, daí resultando pelo menos 2 consequências:

1ª – a de se tornar um aparelho de sedução, com ideias poéticas que  são simultaneamente críticas, sendo por isso factor de desenvolvimento e actuação intelectual, tomando consciência dos valores do mundo em que o leitor se insere: o aluno, futuro adulto, cidadão do amanhã. Ela não combina com interesses dos aparelhos que  consentem oposições ‘intra-muros’ mas as ejectam, se elas põem em questão o próprio aparelho;

2ª – a de permitir à criança (ao adolescente, ao leitor), de modo insensivel (portanto também ideológico), tornar-se progressivamente um cidadão lúcido, na medida em que se vai munindo de materiais de raciocínio colados à sensibilidade, e por isso mais actuantes, em sectores  humanos e cívicos decisivos.

Ora esses sectores que a Literatura condiciona são os seguintes:

1. A educação estética, que permite, a quem aprende, entender que a Literatura é uma arte e não um mero amontoado de palavras, e por isso difícil, mas estando ao alcance de qualquer um através da tentativa própria – contradição que se anula pela conceptualidade da noção de «prática»;

2. A educação linguística, que familiariza o aluno com os usos da palavra e sua organização na composição do pensamento, sob formas de comunicação que se ligam ao usual quotidiano mas a ele não pertencem, pois induz a concepção dos ‘mundos possíveis’ que a Literatura confabula numa generalizada experiência do mundo e da vida, tanto quanto dos mundos transactos, da História, ou de mundos de suporte criativo original;

3. a educação cívica, política e, em especial, ética e filosófica (e estas últimas podem subsumir a cívica e a política), educação esta que se processa na leitura por efeito mimético de cenas, discursos, práticas, actuações, e até pela sua contra-mimese (em registos do fantasioso: fantástico, feérico,  sobrenatural, supra-mundano, e todos aos quais se alce a imaginação), criando uma experiência de diálogo com o texto e no texto, susceptível de desenvolver a vida em consciência e em convívio, com as suas componentes participativa, crítica e pragmática;

4) a educação retórica, que habilita o aluno (e todo o leitor) a desconstruir os mais variados discursos, nos mais diversos sectores, e lhe permitirá resistir ao uso e abuso que da retórica mundanamente se faz, usualmente em seu prejuízo (em prejuízo dos futuros cidadãos e da orgânica social no seu todo);

5) a educação do raciocínio, do qual, com a Matemática e a  Filosofia, a Literatura lança bases, fazendo de todo o profissional, não um mero ‘executante’, mas um fautor de sucessos, desde o simples passo em equipa ao salto de juízo próprio, consciente do papel da sua integração nas mais vastas comunidades, e consistente em resultados. Isto, a partir da sintaxe interiorizada e do uso de frases logicamente vertebradas, que incorporam segmentos narrativos, da sua própria e singular existência até à ficção, ou vice-versa, criando uma imagística particular que é coadjuvante da forma  mental de estar no mundo: porque poetizar é «pensar com uma imaginação ordenada», não é usar palavras ao acaso – e ele-próprio, acaso, quando usado em Literatura, conhece leis;

e 6)  a educação  histórica, pela observação dos vários tempos e épocas que os livros que se lhe facultam proporcionarão, e que, aliada ao estudo de Línguas Clássicas (o Latim, ao menos, é essencial), dá ao aluno a sua consciência reflectida de ser humano no mundo estratificado em  tempo e não apenas em espaço, o qual espaço se lhe apresenta tendencialmente uno, pese embora a diversidade, até no campo das linguagens; esse é outro tipo de educação, a espacial-geográfica, ainda integrável em Literatura.

Enunciados estes 6 sectores, dos quais o Ensino da Literatura promove a configuração, acrescento que há 3 componentes centrais na constituição da sociedade justa: Saúde, Educação e Ambiente –  as únicas  que NUNCA é possível secundarizar em política, sob pena de a própria noção de política se abastardar, e que mantêm o ser humano em equilíbio consigo mesmo, com os seus semelhantes e com o universo. Se forem asseguradas como necessidades prioritárias, as restantes, que actualmente absorvem atenções e despesa, verão a sua necessidade assaz diminuída. E não é uma questão de meios, mas de prioridades! De entre elas, a que agora nos ocupa, a Educação, tem como trave mestra a ‘Linguagem Em Acção’ (que é uma espécie de vertente pragmática do dizer e do escrever), a qual se encontra figurada nos ‘mundos possíveis’ que a Literatura encena, em especial no romance, teatro, poesia e ensaio. Encontra-se ainda, essa Linguagem Que Age, na interlocução (mental, imagética ou relacional) que o aluno estabelece com a própria Literatura: a qual lhe surge como apelativa, superior, inalcançável, mas lhe traça afinal os intimismos do ser corrente, trivialidades do sucesso costumeiro, tanto como a excepcionalidade heróica e o poder da divindade. Fixando-se nela, o aluno, futuro cidadão, pode constituir a sua ponte comunicativa com os outros e o mundo, e com o Ideal do Eu.

Então, o que é que impede que a Literatura seja o que é: um factor excepcional de Educação? O lugar escasso nos curricula, a concepção desinformada de um papel tido como decorativo, numa sociedade que, mercê da deseducação e da ganância, vive (até nos melhores casos…) para armazenar proventos e proceder a efeitos de visualização: os chamados interesses económicos e mediáticos.

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