CONTOS & CRÓNICAS – “Um piscar de olhos” – por Catarina Pereira

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O acaso nos empurrou para o cruzamento entre os laticínios e a oferta da semana – caixas e caixas de bombons no limite da validade. O choque e as desculpas mútuas foram inevitáveis.

Ele desviou o carrinho e desapareceu no corredor dos enlatados, panturrilhas robustas, pés em displicentes havaianas marinho, a bunda chata incapaz de rechear a bermuda cargo.   Nos últimos meses tenho observado os homens com maior, digamos, dedicação. As bundas, principalmente. Não sei por que, de repente estou fascinada por bundas masculinas.

Atentando para elas em todo lugar. Praia, posto de gasolina, shopping. Um espírito em busca de aventura.

Afinal, aos quarenta e oito anos, três filhos, marido, trabalho, excitação é, quase sempre, sinônimo de madrugadas insones à espera de adolescentes perdidos na “

night”.

Ao fim das compras, o vi sentado no café. Não é meu ideal de diversão tomar café num supermercado. Mas. Encostei o carrinho, pedi um expresso e um pão de chocolate.

Ele acenou com a cabeça. Devolvi um sorriso recatado. Voltei ao meu expresso. Ajeitei  a cadeira. Cruzei as pernas. Estiquei as costas. Inclinei levemente o pescoço, prendi os cabelos atrás das orelhas. Dei uma olhadela. Xícara a meio caminho da boca, ele me observava.

Nesse momento, bem perto de mim, uma bandeja de plástico despencou do balcão, espargindo café e arremessando bolinhos no granito limpíssimo. O acaso, de novo. Ele sorriu. E então, sem acreditar no que estava fazendo, eu pisquei para ele.

Uma piscadinha de nada. Só um reconhecimento. Nós dois estávamos ali, víamos um certo humor naquela cena, já tínhamos uma espécie de conexão, frágil que fosse.

Suficiente.

Contornando a confusão de panos e baldes, ele alcançou minha mesa em quatro passos determinados, levantando as sobrancelhas em interrogação muda. Mostrei-lhe a cadeira vazia a meu lado.

Ele me perguntou se o tal café não havia me sujado, eu disse nada grave, um ou dois pingos no jeans, quis saber se eu morava por perto, se aceitava mais alguma coisa. Não, eu morava em outro bairro (graças aos céus não mencionei a consulta com o ginecologista) e sim, eu precisava, quer dizer, eu aceitaria uma água com gás.

Ele me disse que era músico, eu lhe disse que era escritora. E ainda que fôssemos afinador de piano e bibliotecária, o pequeno tufo de cabelos brancos, pretos e cinza continuaria tentandoescapar pela gola da camiseta laranja; eu continuaria sorrindo, exibindo as covinhas congeladas nas bochechas.

Não tenho queixas do meu marido, ao contrário, é gentil, atencioso, sexy. Lavar cuecas durante o banho com meu sabonete Natura Ekos só revela a alma sensível dentro dele.

Acontece que lá pelos quarenta e tantos o mundo espera que você esteja sob controle. Seus filhos são quase adultos, seus pais voltam a ser crianças. Você entre eles, ao mesmo tempo indispensável e invisível. Vida assentada, prazeres mornos. A própria imagem da meia-idade.

Apoiados nos cotovelos, debruçados sobre a mesa, deixei-o trocar de assunto sem interrupção, minha porção matraca distraída pelas rugas delicadas nos cantos dos olhos, pela barba rala no rosto magro.

Pouco mais de meia hora depois, no intervalo de segundos entre Almodóvar e Caetano, ele pegou minha mão de leve, e a mão dele era quente, os braços cabeludos e morenos iguais aos do meu marido, em quem eu tentava obstinadamente não pensar, como tentava ignorar as alianças douradas fulgurando nos nossos dedos. Se bem que nossos compromissos, gravados naquelas argolas, eram quase álibis. Não se tratava de conquista. Era um exercício, apenas. Uma espécie de exercício de visibilidade.

Adrenalina pura, capaz de detonar um sem-fim de ações e lucubrações em meio às quais você pode perder o juízo. Observar bundas masculinas é um esporte radical em que pensar muito é arriscadíssimo.

Ninguém me obriga a praticá-lo, está certo. Posso amansar a meia-idade com Prozac e botox.

Ou atazanar a família entre rugas, lamúrias e cabelos brancos. Impossível é escapar das armadilhas do livre-arbítrio.

Mais do que atrasada, eu não conseguia desmanchar o sorriso, soltar suas mãos, deixar de ouvir os elogios sobre as minhas mãos macias. Foi ele a tomar a iniciativa. Pagamos as compras em caixas vazios de meio de tarde.

Ele colocou nossas sacolas num único carrinho e o manobrou elevador adentro. Apertou o botão do estacionamento. Mal a porta se fechou, deslizou-o para um canto e passeou os olhos em mim.

Corei até as pontas das orelhas. Uma onda de calor torrou meu corpo, senti meus lábios quentes e inchados. Péssima hora para o primeiro fogacho.

Antes da porta do elevador se abrir novamente, estávamos colados num beijo. Em bocas e línguas diferentes. Toques e gostos diferentes. E um tesão incrivelmente real. Quilômetros distante de um fogacho.

Joelhos bambos, pernas vibrando como um diapasão, me arrastei até meu carro que (deus existe), estava próximo, decentemente limpo, sem sacos de batatas fritas amassados e esquecidos no banco do carona.

Ele me ajudou com as sacolas – três (nem metade da minha lista). Falou de um sarau na noite seguinte, um amigo iria tocar flauta, eu disse que sentia muito, amanhã seria impossível, ele sorriu, beijou meu rosto, me agradeceu.

De dentro do carro, as mãos suadas espremendo o volante, observei-o se afastar sem olhar para trás, a bundinha murcha parecendo mais alegre. Liguei o motor, quando minhas pernas recobraram os sentidos. Perto da rampa de saída do estacionamento, ele reapareceu. Meio corpo dentro do portamalas, acabava de acomodar as compras ao lado de um amplificador enorme.

Parei, o motor ronronando, a dois passos de suas costas, no mesmo instante em que ele batia a tampa do porta-malas.

O beliscão arremessou-o bons centímetros à frente.

Voltei num pulo para o carro. Definitivamente, em poucas horas eu havia extrapolado em anos a crise da meia-idade. Acelerei. E freei alguns metros adiante, ao lado da garota, braço estendido em direção à minha janela, à espera do maldito tíquete do estacionamento, um papelzinho misturado a tantos outros, no fundo da bolsa.

Dois séculos depois, ela apertou o botão e liberou a passagem, a rampa em frente um objetivo tantálico e eu, sem coragem de ao menos virar a cabeça, agarrada ao volante como a uma tábua de salvação.

Quando a cancela finalmente se abriu, ao iniciar a descida, procurei-o pelo retrovisor.

Obviamente esperando por isso, ele estava justo ao alcance do meu olhar. Sem sair do lugar, sorriu e piscou para mim.

Desci a rampa devagar pensando em voltar no dia seguinte, comprar, quem sabe, umas dez caixas daqueles bombons. Só a dose extra de chocolate poderia me recompor nas próximas semanas. Antes de chegar à esquina, desisti. Limites de validade me deixam muito, muito ansiosa.

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