DE NOVO A UCRÂNIA – DA ECONOMIA À GEOPOLÍTICA – EYES WIDE SHUT – AS MENTIRAS E AS VERDADES SOBRE A UCRÂNIA, por ANDRÉ BOYER

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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5. Eyes Wide Shut– As mentiras e as verdades sobre a Ucrânia

André Boyer

22 de Março de 2014

No dia 21 de Novembro de 2013, o Presidente Ianoukovitch, sob a pressão da Rússia, rejeitou o acordo de associação com a União Europeia. Quatro meses depois, ele foi deposto do poder pelo poder da rua. Menos de um mês depois, a Criméia, ocupada por tropas russas de Sebastopol, pediu a sua ligação à Rússia, que lha concedeu, anexando-a.

 Maiden-Kiev

O que se passou ?

Aqui estão as explicações fornecidas pelos nossos meios de comunicação, uma miscelânea que a opinião pública tem andado a engolir a digerir e a vomitar sem problemas :

O Presidente Ianoukovitch era um corrupto e um ditador, ele mandou disparar sobre a multidão, matando mais de 100 pessoas, e em seguida fugiu. Um novo chefe de estado foi nomeado pelo Parlamento da Ucrânia depois da multidão ucraniana ter ouvido e aplaudido um discurso proferido por Yuliya Tymoshenko, finalmente livre. Dentro de poucas semanas, haverá uma nova eleição presidencial, avançada em relação á data anteriormente estabelecida para eleger democraticamente um novo Presidente.

A Europa e os Estados Unidos alegraram-se com este progresso democrático na Ucrânia, com quem eles assinam um acordo de cooperação política, ao mesmo tempo que condenam com a maior firmeza a organização ilegal de um referendo na Crimeia. Estão em curso a determinação de justas sanções pela parte dos Estados Unidos e da Europa, embora alguns temam que eles não estarão à altura da imperdoável violação do direito internacional cometida por Putin.

Eis pois uma outra versão dos acontecimentos :

Não sei se Ianoukovitch presidente era corrupto ou não, mas sei que Ioula Tymoshenko (ver meu blog “Sainte Youlia Timoshenko, martyre “) é a mais corrupta de todos os políticos ucranianos, de que a Europa, no entanto, exigiu a libertação para assinar um acordo económico com a Ucrânia. Há, portanto, para a Europa os bons e os maus corruptos.

O Presidente Ianoukovitch não era um ditador: ele foi democraticamente eleito em Janeiro de 2010, por 51,5% dos votos na segunda volta. O seu mandato termina em Janeiro de 2015.

 Na Praça da independência, em Kiev, houve 80 mortos por bala, incluindo 13 policias. De acordo com as testemunhas, os atiradores abriram fogo tanto sobre a polícia como também sobre os manifestantes. Hoje, a coligação no poder recusou-se a abrir uma investigação sobre a identidade dos atiradores.

O presidente interino foi nomeado pelo Parlamento ucraniano, o Rada, depois da maioria parlamentar ter sido mudada abruptamente a seguir à fuga do Presidente Ianoukovitch. É realmente uma das prerrogativas do Presidente do Rada, em caso de ausência do Presidente da República Ucraniana (renúncia, doença, morte do Presidente) tornar-se presidente interino da Ucrânia e convocar a eleição presidencial antecipada. O problema é que o Presidente Ianoukovitch não está nem morto, nem doente nem demissionário e que ele fugiu da Ucrânia sob a ameaça de grupos armados, como muitos membros da sua maioria, e assim o poder actual na Ucrânia não tem base constitucional (ver o meu blog ” Coup d’État de l’UE à Kiev”). No entanto, nem a UE nem os Estados Unidos tiveram qualquer problema legal ou moral para reconhecer imediatamente como legal este novo poder.

. Olexandre Tourtchinov, o presidente interino é um homem curioso, pastor e autor de novelas de ficção científica. É fiel seguidor de Ioulia Timochenko, originário como ela de Dnipropetrovsk. Foi igualmente o colaborador de Pavlo Lazarenko, ex-primeiro ministro de Leonid Koutchma, hoje preso nos Estados Unidos por fraude e branqueamento de dinheiro. Olexandre Tourtchinov tornou-se chefe dos serviços secretos ucranianos de que se demite quando o Presidente precedente, Victor Iouchtchenko, líder da revolução cor de laranja, destitui Ioulia Timochenko. De acordo com os documentos publicados por Wikileaks, ele teria nessa época utilizado a sua posição para destruir documentos que ligam a sua aliada Ioulia a um padrinho do crime organizado.

 Portanto espera-se com interesse e suspeita as próximas eleições presidenciais ucranianas entre candidatos “não corruptos”.

Após a resposta da Rússia de Putin ao golpe de estado ucraniano que eles incentivaram ou que terão mesmo provocado, os EUA e Europa condenam com a maior firmeza a organização ilegal de um referendo na Crimeia, que é a cópia exacta do referendo ilegal como os mesmos, Estados Unidos e a União Europeia, organizaram no Kosovo, depois da guerra que estes últimos realizaram contra a Sérvia em violação do direito internacional.

Devemo-nos lembrar também do referendo sobre a autodeterminação do Sul do Sudão, sem que todo o Sudão seja consultado e mais picante ainda para a diplomacia francesa que chora nestes dias em altos gritos contra esta posição de força de Putin, é a decisão da França de organizar em 1974 em Mayotte um referendo especial para separar ilegalmente a ilha de Mayotte do arquipélago das Comores e de a anexar à França. Existem, portanto, de acordo com seus iniciadores, as boas e as más violações do direito internacional…

Estes exemplos recentes devem ser suficientes para nos convencer, a qualquer de nós que queira abrir os olhos, que a invocação da moral, do direito internacional e dos direitos humanos não são mais do que os transparentes floreados da política da força praticada pelos Estados Unidos e pelos seus vassalos europeus em todos os lugares onde eles podem e postos agora em cheque na Crimeia:

« Assim, não podendo fazer o que é justo seja forte , fez-se com o que é forte pareça justo”

Ainsi, ne pouvant faire que ce qui est juste fût fort, on a fait que ce qui est fort fût juste. »

Blaise Pascal (Pensées, Raisons des effets 20/21)

 

André Boyer, Texto disponível em :

http://andreboyer.over-blog.com/article-eyes-wide-shut-123056621.html

 

 

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