Poema de Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 28-29)Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 297, 24-Set-2010)
Como penso que a matéria
é só construção das almas
tenho eu que a examinar
com atenção e nas calmas
guiado por quem a sabe
com precisão matemática
lhe conhece o que é seguro
e o que é audácia temática
e como espero que a ciência
tenha sempre um atractivo
o de não dar do que existe
conceito definitivo
não só irei prosseguindo
em a saber mais e mais
me esforçarei por que todos
me possam ser como iguais
passarei com todo o gosto
por bom materialista
e em tudo que digam espírito
lhe procurarei a pista
incitarei a comer
incitarei a dormir
incitarei a morar
e às doenças resistir
goze cada qual matéria
até dela se enjoar
e solte as asas depois
se seu gosto for voar
que eu voarei por meu lado
no céu que os outros fizerem
quando depois de ter tudo
nem migalhas mais quiserem
irei calmo como sempre
pois nada me precipita
só depois de ser da física
passarei à metafísica
e bailarei com as almas
que quiserem vir comigo
feliz de serem felizes
as que ficaram consigo.
Teria passado a vida
Poema de Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 123) Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 298, 01-Out-2010)
Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho
umas vezes são de noite
outras em pleno de sol c
om relâmpagos saltados
ou vagar de caracol
quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.
Três votos fará aquele
Poema de Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 124) Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 298, 01-Out-2010)