CONTOS & CRÓNICAS – “Requiem pelos fiéis defuntos” – (III) – por António Sales

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Catarina desceu à terra aos onze anos com os rins desfeitos. Brincara com bonecas, cantara nos jardins, aprendera na escola as letras do saber. Pouco mais fizera Catarina do que mirar o mundo. Mas os vermes não lhe perdoaram o regalo do corpo. Rasgaram-lhe o vestido branco e desnudaram-lhe o peito penetrando a carne e conspurcando-a com a baba viscosa; roeram-lhe as feições até destaparem as arestas dos ossos do rosto sereno. Chuparam a polpa dos lábios de veludo; penetraram as órbitas com macabra luxúria. Desfaz-se o corpo de Catarina ao sabor das chuvas e dos sóis. Catarina apodrece num campo de Portugal como Duvalier apodrece num jazigo “sagrado” do Haiti.

O comboio que nos conduz aos campos de trabalho da cidade transporta no seu ventre metálico o sono de gerações. Vivos bocejamos! Evadiu-se o tempo dos relógios à desintegração das consciências. Abúlicos e indiferentes não damos conta que avançamos nos corredores da morte.

Ás armas! Grita-nos a voz dos homens de mando que fazem a história por sua conta e nosso risco. Os vampiros do planeta estilhaçam os vidros e voejam sobre as mossas cabeças sedentos por nos beberem o esperma. Por onde começar o ataque sacrílego? Pelos músculos, pelos sexos, pelos cabelos pelos pés, pelos dedos, pela boca, pelo nariz? Os bichos sanguinários descobrem os orifícios dos corpos e penetram-os como verrumas a despedaçarem as vísceras. Pulam às centenas, aos milhares, procurando ganhar o seu espaço no ataque aos despojos da sociedade.

Uma praga cobre-nos os corpos procurando arrancar-nos as entranhas. Que querem eles mais? Que fome insaciável é a sua que se não bastam nos seus domínios? Que religião professam para que nos desventrem?

Os sobreiros, troncudos e escuros, possuem uma grandeza rural decadente. Lançam para o lado as copas largas e espraiam-se, atarracados, por quilómetros e quilómetros de lonjura numa mancha de solidão. São robustos, rugosos, ressequidos e melancólicos como o homem alentejano. Os pinheiros e os eucaliptos chegados como se pertencessem uns aos outros e encontrassem nessa proximidade um certo carácter de grandeza.

Lumelino de Figueiredo adorava os sobreiros. No seu olhar triste liam-se horizontes de desencanto e um tempo de asas decepadas. Lumelino procurava um refúgio fora do turbilhão da existência. Deveria haver uma porta, um raio laser, uma ogiva esquecida, uma passagem secreta que o conduzisse aos segredos cósmicos da alma humana. O mundo não deveria ser uma hecatombe sem sentido. Esta ânsia, esta luta, esta ambição, esta desenfreada l0ucura de poder comportavam, certamente, algum objectivo. Este egoísmo, esta dor, este sofrimento, têm o seu significado no fundo dos tempos. Mas quanto mais Lumelino avançava no conhecimento dos fenómenos, quanto mais buscava uma resposta, menos compreendida era a obra do Senhor.

Os empregados da funerária colocam a tampa do esquife e fecham-no rodando a chave com o gesto preciso de quem está habituado a trabalhar com os restos da vida. São dois os arautos da morte. Movimentam-se com a leveza das borboletas, sem outros ruídos que não os indispensáveis aos rituais que enobrecem a dor mas estragam a digestão da chispalhada comida numa casa em Santa Marta.

Requiem pelos fiéis defuntos (IV)

Belizário Tadeu está selado. O regresso é impossível. Finou-se a esperança. Para quem só conheceu este homem no 0caso da vida, ruído pela doença e trôpego pelos anos, dificilmente o imagina peralta de pescoço curto e cravo na botoeira do casaco cor de pérola. Aventureiro nos negócios, autoritário, nutriu fervorosa simpatia pelos rapazes do Integralismo Lusitano e pela gente do 28 de Maio. Foi um sanguíneo defensor da masmorra e do cacete e quando Franco ganhou a guerra de Espanha reuniu num lupanar de Lisboa seis amigos e sete putas a fim de comemorarem a vitória dos nacionalistas.

Onde se recolherão as almas daninhas cuja fé impede de se deliciarem com os prazeres do Diabo? Ó força que conduzes os homens pelos caminhos da terra! Todos os dias eles desafiam a tua ira e não te mostras; sacrificam os teus filhos e não protestas; conspurcam as tuas leis e não reages; regalam a sua gula e não os condenas; devoram o seu semelhasnte e não os castigas!

Pela Páscoa os crepes nas igrejas antecipam a penitência e a dor. A Paixão de Cristo é um episódio da luta entre Deus e o Demónio. A via-sacra já não é dos romanos mas de outros romanos por eles. O filho de Deus vai em ombros: leva pendão, leva pálio, leva vela, leva terço, leva incenso, leva mirra. Ajoelham-se os crentes e os pecadores à sua passagem. Fica prostrado o rebanho. Conheço cada esgar, cada dor, cada olhar, cada prece. Cantam, benzem-se, rezam, meditam num beato arrependimento. É em angústia que vêm passar o filho de Deus feito homem, aquele que sabe de tudo e de todos e tudo e a todos perdoa. Assim o dizem as sagradas escrituras e assim parece irão ser cumpridos os sagrados mandamentos da Santa Madre Igreja. Todavia, o rebanho busca a fortuna, o prazer, a supremacia. Abatem-se por um nada. Todos os anos perpetuam o ódio, a ambição, o egoísmo e a fé como domínio dos ignorantes.

Lunelino suicidou-se com um tiro na cabeça. Surpreendente num homem como ele! A verdade, porém, é que numa tarde de Dezembro encontraram-no estendido no chão do quarto com uma arma caída ao seu lado. Nada deixou escrito a explicar o gesto desesperado. Eu tenho por mim que se fatigou do esforço de viver todos os dias.

Abrem-se as portas da gare da estação à correria dos passageiros que abandonam o comboio e se precipitam para os caminhos da cidade. Despertos pela luz da manhã dispersamo-nos pelos corredores de paredes vulcânicas onde escorre a humana lava devoradora. As nuvens piram atrás e o céu é transparente. Separamo-nos mas não nos despedimos, cruzamo-nos mas não nos cumprimentamos. Em cada café, em cada esquina, em cada semáforo, em cada folha de jornal, aventuramo-nos sozinhos: nossos lábios estão brancos, nossos olhos vidrados, nossos ouvidos surdos, nossos corpos inertes, nossos crânios vazios. O trabalho exige-nos graníticos.

A morte vigia-nos como uma coruja a sua presa. Paciente aguenta-se à espera das vítimas. Todos seremos vítimas. Mesmo quando alegres e despreocupados, quando pobres e humildes, jovens e esperançados, tiranos e poderosos, violentos e inumanos, seremos vítimas. Nem os lobos da cidade de focinho arisco e dentuça aguçada escaparão. Nixon fez explodir mais uma bomba atómica; um banco apresentou cento e noventa mil contos de lucro; A morte vigia-nos como uma coruja a sua presa.s surdos.precip duas raparigas morreram perante espingardas inglesas postadas em amordaçar a Irlanda. Os lobos farejam os despojos daqueles que saíram dos leitos pela madrugada. Os lobos uivam, um uivo prolongado e apavorador. O rebanho suspende-se aterrorizado.

Dona Constança encolhe-se à ideia de se saber rapada, nas parte mais íntimas e com a sua idade, a fim de se expor aos olhos de um senhor médico qualquer. Nunca suportou os homens: lisos, peludos, inestéticos. Sempre entendeu que os homens contrariam o equilíbrio da natureza patente nas formas femininas. Aos vinte anos já os homens a indispunham com o seu ar de mandões embrutecidos pelos conceitos de sexualidade machista, exigentes, orgulhosos, superiores, autoritários como se fossem os donos do mundo. Estas observações sobre a realidade masculina provocaram a indiferença pelo sexo oposto e mais tarde repugnância. Todavia, dona Constança era uma mulher sensual: pestanas grandes, olhos penetrantes, sobrancelhas fartas, cabelos sedosos, lábios carnudos, braços roliços, seios agressivos, coxas lascivas. O seu corpo projectava-se com altiva elegância e magnetismo erótico. Deste modo os obscuros sentimentos despertados pelo sexo oposto acabaram por encontrar outras compensações. «As mulheres – costumava afirmar – quando se entregam umas às outras são mais voluptuosas e ternas do que os homens». Levando à prática esta filosofia prodigalizou carícias de maneira apaixonada e possessiva. Talvez por isso conheceu poucas amantes mas as que teve esgotou-as, conduzindo-as aos abismos do prazer. Hoje é uma velha tão tragicamente velha que se torna impossível imaginá-la no apogeu da sedução. Secou, mirrou, abandonou aos ventos do tempo os desejos consumidos no corpo mortiço. As pernas estão inchadas de varizes, os seios pendem como bagos murchos, a pele curte-se em rugas, os lábios desaparecem com a falha dos dentes, o cabelo está branco e podre. A juventude é isso, um minuto e quem o gozou, gozou. Quem a seu tempo soube ser contra o patriarcado dos patriarcas; quem foi inconformado e inconformista; quem foi anti pode dormir tranquilo.

Requiem pelos fiéis defuntos (V)

A decadência do corpo humano é uma impressionante manifestação da morte. A destruição dos tecidos, a progressiva perca das faculdades, arruína da carne e a revoltante impotência da velhice constituem um ciclo de tortura que na amarra num espaço tumular. Surpreendemos, então, a corrida que vem dos jogos da infância quando o destino era um campo verde – imenso e verde, batido pelo vento suave acoitado à tranquilidade do sol do meio-dia. Chegamos à porta do juízo final e sentimos o aviso frio do Outono que vem da Escandinávia e nos envolve na sua mortalha. Cortaram-nos o caminho. É impossível regressar, refazer o processo. As respostas dadas encontram-se escritas nos autos.

Minha mãe guardava na gaveta da cómoda o álbum de família. Nas tardes lentas dos Invernos celestes pedia-lho e entretinha-me a observar nos retratos os desastres do tempo. O álbum não me enternecia, antes pelo contrário, causava-me inexplicável tristeza. Um dia, ao mostrar ao meu avô um retrato dos seus quarenta anos descobri na sua resposta o significado da minha angústia: Retrato é epitáfio, menino! E nisso fiquei sempre de acordo com ele.

Retrato é paragem, suspensão imagética. Existimos no instante em que existimos. Cada segundo é sempre ontem e simultaneamente amanhã. Cada palavra que se escreva, gesto que se faça, pensamento que se tenha não nos pertence fora da fracção de tempo. O passado morre em todas as idades. O passado como álbum de família, saudoso e romântico, é fraca forma de provar que se esteve vivo. Viver é participar em cada espaço da existência: possuir a noção exacta do princípio e do fim e a consciência do espaço que medeia entre esses dois pólos.

Hoje, contemplo os campos e digo: por muitos anos ainda a natureza será amante dos meus olhos. Então fico feliz por me imaginar com anos na minha frente para poder compreender muitas coisas, para poder aprender muitas coisas, para poder participar em muitas coisas. É maravilhoso ser novo, digo! A seiva da atmosfera penetra-me o sangue e Rá aquece-me os ossos. Nascido em Touro a sensualidade percorre-me as veias. Tenho anos para sentir e libertar o fogo da minha carne. Recriarei o amor, sei e afirmo! Recriá-lo-ei neste corpo que envelhece e oferecê-lo-ei às mulheres amadas como bandeja de luxúria. Aqui e agora existo! Trabalho, ando, corro, falo, fabrico pensamentos; leio, escrevo, reescrevo, rereescrevo; discuto, aceito contesto com plena consciência dos meus actos. Estou lúcido, digo! Afirmo à Maria Júlia que daqui a três anos por esta altura de Setembro em Florença. Eu acredito, ela acredita porque nos é dado tempo para sonharmos as coisas mais inverosímeis. Nossa filha ilustra-mos a escola, A pele da minha mulher é lisa e os seios são firmes. As minhas mãos são quentes. Condenamos a guerra, a violência, a tirania, a miséria. Agarramos a história que nasce do fundo de nós e procuramos saber como os factos aconteceram como acontecem e como acontecerão. Estamos com a juventude contra os dogmas conservadores dos hábitos conservados; somos pela contestação que liberta as gerações do peso das verdades indiscutíveis. As nossas atitudes são simples e as perguntas singelas. Amamos o que é digno de ser amado. No meu cérebro existem duzentos e setenta e dois livros paraescrever. A vida está connosco, digo! De súbito procuramos imaginar o mundo no ano 2055. E aqui emudecemos, a névoa tolda-nos o pensamento e o desespero instala-se no momento em que procuramos forçar os nossos limites. O ano de 2055 não nos pertence. A morte fixa-se antes com a sua presença concreta. A vida representa-se uma ânsia, uma galopada, uma cegueira, uma fonte, uma paixão, uma febre, uma batalha. E porquê? Porque avançamos acelerados à conquista dos nossos lugares superiores. A morte espera os brutos humanos indefesos.

Perguntemos aos deuses e eles confirmarão do alto do Olimpo. Perguntemos às pitonisas e elas responderão à consulta dos oráculos. Perguntemos aos espíritos ocultos que penitenciam nos infernos e eles mostrarão as cicatrizes. Perguntemos aos horóscopos e eles predizê-la-ão.

Caminhamos suplicantes pelas estradas de fogo. Caminhamos à procura de um rumo, um sinal, uma força. Incapazes de descobrir as nossas potencialidades percorremos a terra com a ansiedade espelhada nos olhos. Todavia, quantos espaços infinitos existem em nós? Quantas incógnitas, distâncias, estaremos prolongando para além de nós? Quantas conquistas estaremos realizando, rumos traçando, hoje e aqui, para os nossos irmãos do século XXI?

E chegados a este ponto de nova tudo forma sentido e tudo surge equilibrado e homogéneo, verdadeiro e real. O mundo, a história, a vida, mesmo a morte somos nós. Nós e só nós! Nós humanos do amor e do ódi0; nós humanos da guerra e da paz; nós humanos da bondade e da tirania: nós humanos da solidariedade e do egoísmo; nós humanos do saber e da ignorância, do sofrimento e da esperança. Em rigor somos nós que lutamos, conquistamos, transformamos e mesmo quando destruímos edificamos.

AlgueirãoSetembro/1973

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