Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
10. Cinco propostas para sair da crise ucraniana
Parte I
Hubert Védrine, em Rue89
Pierre Haski
8 de Março de 2014
Para o ex-ministro dos Negócios estrangeiros, “a inversão da escalada” é ainda possível na Crimeia. Mas Putin não é o único a ter responsabilidades, pois o Ocidente também tem a sua parte de responsabilidade.
O antigo ministro dos Negócios estrangeiros, Hubert Védrine, faz sobre o sítio Rue89 cinco propostas para sair da crise ucraniana. Entre estas, uma Ucrânia federal que atribui uma autonomia quase total à Crimeia, e uma declaração de neutralidade da Ucrânia entre o Ocidente e a Rússia.
A alternativa a esta inversão da escalada, para Hubert Védrine, seria “uma situação inextricável de bloqueio na qual se teria uma paralisia mais ou menos longa de toda a relação entre a Europa e a Rússia, entre os Estados Unidos e a Rússia.
Para o antigo chefe da diplomacia francesa, tanto os Ocidentais como Vladimir Putin tem a sua parte de responsabilidade na crise que atravessamos actualmente nas relações entre a Rússia, a Europa e os Estados Unidos.
A Entrevista.
Hubert Védrine en 2009 (FACELLY/SIPA)
Rue89: A crise ucraniana representa o quê? Um espasmo pós-soviético ou algo mais amplo?
Hubert Védrine: Esta crise tem mesmo assim menos importância do que o que se passa por exemplo entre o Japão e a China, ou que a comparação da evolução dos orçamentos militares americanos ou chineses.
Mas é no entanto muito importante, e ela mostra que tanto quanto a desintegração da União soviética foi muito bem gerida nas antigas pseudo-democracias populares da Europa do Leste, se criou, e assim permaneceu, uma zona incerta nos antigos pedaços da URSS que se desligaram da URSS naquela época [em 1991, nota de redacção].
Vê-se efectivamente que há uma série de situação coxas, com excepção do caso dos países bálticos que está bem resolvido: Bielorússia, Ucrânia, Moldávia, Cáucaso, Ásia central… são sequelas desta época.
Os acontecimentos dos últimos dias mostram que Putin não renunciou a corrigir o que aos seus olhos é uma catástrofe histórica. É evidente sobre a Crimeia, e é sem dúvida também verdadeiro sobre a Ucrânia. Não renunciou, esperava uma ocasião, uma circunstância.
E do lado ocidental, há a persistência de uma visão binária na qual se trata de conduzir a Ucrânia para “o campo ocidental” (ainda que seja suposto não empregar esta expressão) ou em todo caso para que não venha a cair no campo russo.
São estas as atitudes que sobreviveram à guerra fria, que se tornam anti-russas depois de terem sido foi anti-soviéticas. Eles traduzem-se em:
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promessas que foram feitas a Gorbachev e não foram cumpridas como o não-alargamento da NATO;
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Depois as tentativas feitas pela administração Bush para expandir ainda mais a NATO (sem o conseguir)
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os europeus, que colocaram como prioridade e de forma inconsistente, a entrada da Ucrânia na UE, enquanto que nem a Europa nem a Ucrânia estavam prontas para tal.
Isto traduz muita inconsequência e muita ligeireza, de que o elemento comum é o tratar a Rússia como país negligenciável.
Cada um tinha uma necessidade de se vingar ou de fazer uma certa golpada. Sem estar a esquecer o facto de que os Ocidentais tinham desejo de ajustar contas com Putin desde o seu novo mandato e das controvérsias que o acompanharam. E Putin – é um eufemismo – não faz nenhum esforço para se tornar amável.
Poutine le 7 mars 2014 à Sotchi (Alexei Nikolsky/AP/SIPA)
Podemos adicionar alguns elementos óbvios, incluindo o facto de que as populações desses países, na Ucrânia, mas também numa parte da Rússia já não suportarem o post-sovietismo que se resume a corrupção, má gestão, ineficiência e falta de liberdade.
Mas seria errado de reduzir a acção russa apenas a Putin. Isto diz algo quanto à humilhação da Rússia no final da União Soviética (a este respeito houve a sorte, de isso não ter levado a uma situação pior que Putin, tendo em conta o trauma inimaginável para nós em que os russos mergulharam na década de 1990).
Rue89: Como poderia julgar o comportamento de Putin?
A Rússia manteve-se um “poder periférico residual incómodo “, que ela utiliza para bloquear quando se precisa dela, por exemplo, no Conselho de Segurança. Mesmo que isso não é sistemático, pois que ela o deixou fazer na Líbia em 2011…
Rue89: É um argumento utilizado por Putin para mostrar que os ocidentais são pessoas sem nenhuma moral: ele deu o seu acordo para uma “no fly zone” e isto terminou na morte de Kaddafi.
Sim, mesmo se é discutível.
Estiveram também de acordo com as resoluções sobre o Mali, sobre a República Centro Africana. Logo, não é sistemático, mas é evidente que no caso da Síria começou por bloquear.
Querer que a Rússia seja novamente respeitada, o que na sua cabeça deve querer dizer ter medo, passa por bloqueios deste tipo que leva a que os ocidentais os devam levar a sério.
Pensei que Putin procurava transformar isso em algo mais positivo, que talvez se poderia esperar sobre o Irão depois que ter dado à Administração Obama uma saída para a questão das armas químicas na Síria.
Com a actual escalada, não estou seguro que se possa contar a curto prazo com uma atitude construtiva russa.
(continua)


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