Agora, que apareceu de novo o anúncio misógino da SIF, soube-se que a socióloga portuguesa Maria do Mar Pereira recebeu o Prémio Internacional para o Melhor Livro em Investigação Qualitativa (2010-2014) pelo seu livro “Fazendo Género no Recreio: a Negociação do Género em Espaço Escola”( 2012, , Lisboa, ICS – Instituto de Ciências Sociais), que resultou de um estudo sociológico sobre jovens portuguesas/es.
É um prémio que abrange autores espanhóis e portugueses nos últimos 5 anos, considerando-se que teve um importante contributo para o desenvolvimento da investigação qualitativa em todo o mundo. Nem mais!

Esta é a 10ª edição do Congresso Internacional de Investigação Qualitativa, que decorrerá na Universidade de Illinois (EUA) em Maio de 2014 (The Tenth International Congress of Qualitative Inquiry will take place May 21-24, 2014 at the University of Illinois at Urbana-Champaign). Lá se deslocará a autora para o receber, indo de Inglaterra onde vive há sete anos, dando aulas na Universidade de Warwick. O júri que atribui o prémio realçou a “originalidade” e “sofisticação” da obra, a sua inspiradora “imaginação democrática” e o seu “forte compromisso ético com a procura de formas mais abrangentes de divulgar e produzir conhecimento.”
Que terá de especial esta obra, para ser considerado útil mundialmente? A autora quis saber como é que jovens de 8º ano pensam sobre género (as relações entre mulheres e homens) e sexualidade, e como é que usam e negoceiam essas ideias no seu dia-a-dia na escola. Foi numa escola em Lisboa que passou dias e dias, observando “in loco”,num trabalho de campo, o modo como masculinidades e feminilidades são negociadas na interacção, entrando nas «conversas de recreio».
Vamos lá a saber: os rapazes e as raparigas são realmente tão diferentes quanto pensamos? Que sacrifícios é que as/os jovens fazem todos os dias para tentar encaixar nos estereótipos que temos em Portugal sobre o que é um homem e uma mulher “a sério”? Como é que esses sacrifícios afetam a sua saúde física e psicológica, a sua autoconfiança, o seu bem-estar, a sua sexualidade, os seus resultados académicos, ou a suas relações na escola e em casa? Como é que as/os jovens constroem e contestam fronteiras de género?
É natural ter váriosnamorados? Os rapazes si, as raparigas são galdérias . É natural falar sobre os outros? Sim para os rapazes, pois são “curiosos”, mas as raparigas são “coscuvilheiras”. Os rapazes tem que ser “másculos”? Sim, caso contrário serão apelidados de “maricas”.
A autora conclui que, mais do que um traço determinado pela socialização, o género é uma construção diária laboriosa, que produz tanto prazer e união como desconforto e exclusão, e na qual rapazes e raparigas investem de forma activa mas ambivalente.
O livro alia uma sofisticada discussão teórica a uma análise rica e acessível do dia-a-dia das/os jovens, apresentando-se como uma obra de grande utilidade não só para investigadoras/es e estudantes interessadas/os em género, sexualidade, culturas juvenis, educação, e metodologias feministas e etnográficas, mas também para jovens, pais e professoras/es.
Em entrevista ao Público (14.04) afirma Mariado Mar Pereira: “Há mais sexismo nas universidades do que em outras áreas em Portugal”. Analisa também as diferenças de género no mundo do trabalho, não deixando de referir que os homens são visto como tendo mais autoridade ou credibilidade e de alertar para que, em épocas de menos emprego, volta a surgir a ideia de que será bom as mulheres irem para a casa tomar conta das crianças e dos velhos.
