“A IDEIA” – LEMBRANÇA DE ANTÓNIO JOSÉ FORTE – por Fernando J.B. Martinho

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A RUI MARTINIANO,
a cuja Amizade cheguei através de António José Forte  a história pode começar assim, / por ser a dos meninosque, nas páginas abertas, iam a caminho da floresta e se enfronharam / em tanta vegetação mágica, ou a dos meninos que escorregaram por um buraco encantado abaixo / e não conseguiam sair de lá, / nem queriam
Vasco Graça Moura, “biblioteca itinerante”

Quando conheci António José Forte, em Portalegre, em 1961, era ele já autor de um livro, que publicara no ano anterior. Tinha esse livro um título insólito, pela sua invulgar extensão: Quarenta noites de insónia de fogo de dentes numa girândola implacável e outros poemas. Na sua primeira parte, o título reproduzia uma passagem do poema inaugural, e este era um poema em prosa, muito ao jeito de três textos que Forte tinha dado à estampa em 1959 nas páginas do segundo número da revista Pirâmide, sob o título de “Quase três discursos quase veementes”. Percorria o dito texto uma energia carregada de veemência, e o seu modelo de composição, na vertiginosa sucessão de imagens que o constituía, era claramente o da escrita automática dos surrealistas. O efeito rítmico alcançado era notável e o impacto que se colhia da abertura do livro não podia ser mais forte.

Pela nota com que Herberto Helder apresenta o poeta na sua antologia Edoi Lelia Doura, de 1985, ficamos a saber que, antes do pequeno volume de 1960, Forte organizara dois livros “que entretanto destruiu”. Só quando, pois, atingira o timbre que tinha por distintivo da sua voz, dera o poeta por chegado o momento de se apresentar em livro. E fá-lo-ia no âmbito de uma colecção “A Antologia em 1958”, que fora iniciada por um livro de Cesariny, a que se seguiram títulos de outros surrealistas como António Maria Lisboa, Virgílio Martinho e Pedro Oom ou de autores de alguma forma aparentados ao surrealismo como Natália Correia e Luiz Pacheco. Na capa do livro, reproduzia-se uma conhecida legenda de Pedro Oom, muito identificada com a deriva abjeccionista do surrealismo português, e que logo sugeria a atmosfera de revolta e desespero que dominava a colectânea: “O que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos”. Antes da folha de rosto, o leitor deparava-se com um frontispício de João Rodrigues, artista plástico que representava na perfeição, com os seus desenhos de implacável e cruel humor, o espírito de “jovens irados” que era, segundo Helder Macedo, o dos membros do Grupo do Café Gelo, de que António José Forte, como bem se sabe, fazia parte. Mais tarde, em alguns dos seus livros, Forte haveria de encontrar nas ilustrações de Aldina, no traço arranhado dos seus desenhos, um poderoso equivalente da frontal ferocidade de muitos dos seus textos.

Forte viera para Portalegre como Encarregado da Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian, funções que antes tinha desempenhado em Vieira do Minho. Em Parada do Bouro, tinha ele conhecido o obscurantismo desses tempos, na figura de um abade que o acusara, por incrível que pareça, de andar a distribuir livros protestantes. Deste episódio burlesco deu ele conta, numa carta, de fins de Dezembro de 1960, à Direcção do Serviço das Bibliotecas Itinerantes, em que, ao mesmo tempo, proclamava a firmeintenção de não ceder e voltar a fazer o seu trabalho naquela localidade. A referidacarta pode hoje ser lida na 2ª edição aumentada de Uma Faca nos Dentes, de 2003. Ao bizarro incidente se referiu Forte,

por mais de uma vez, aos seus amigos, nas longas passeatas nocturnas pela cidade de Portalegre, não sem perder o acerado sentido de humor que o caracterizava, de mistura com um gosto muito intenso pela vida, que o fazia, por exemplo, evocar o que de bom também conhecera em terras do Baixo Minho, nomeadamente as malguinhas de fresco e reconfortante vinho verde.

Os tempos que viveu em Portalegre não foram também isentos de percalços. Desta feita, os problemas vieram do lado das chamadas forças vivas da cidade, porque ele ousara pôr a nu o esquema do sujeito, familiar de uma figura grada do regime, que se previa vir a ocupar o lugar de Encarregado da Biblioteca Itinerante, depois de iniciado nas tarefas do ofício por António José Forte.

Tinha o sujeito em questão uma ideia peregrina acerca do que seria o seu trabalho: o que, no fundo, pensava fazer era, pura e simplesmente, enviar, em seu lugar, um dos empregados do estabelecimento de que era proprietário, e que se encarregaria de atender os leitores que procurassem a carrinha da Gulbenkian. Sua excelência ficaria na cidade de perna cruzada, e poderia ostentar o título pomposo, em cerimónias oficiais, de uma espécie de representante da Fundação em Portalegre…

Da passagem de António José Forte por Portalegre e a sua zona não foram poucos os que beneficiaram. Em primeiro lugar, a miudagem e os adultos que aguardavam ansiosamente a chegada da carrinha, e que, nele, sem dificuldade, reconheciam o funcionário competente e atencioso, e um bem-humorado e disponível conselheiro de leituras. A sua figura inspirava, de imediato, confiança. O ar afectuoso, a voz pausada, a correcção do português, claro e bem silabado, o sorriso permanente que lhe iluminava os olhos grandes, com um toque de ironia, tudo concorria para que os que o procuravam nele vissem não apenas alguém que levava o seu ofício muito a sério e com amor, mas também um amigo aberto a dois dedos de conversa, a uma história saborosa. Em segundo lugar, do seu convívio beneficiaram os que com ele puderam privar nos serões do Café Facha (entre os quais me incluo), e se deram conta da sua cultura sem alarde, do conhecimento profundo que tinha da literatura portuguesa contemporânea.

Em 1961, tinha Forte 30 anos. Eu andava pelos vinte e poucos. A leitura da poesia da época ocupava muito do tempo que a redacção da tese de licenciatura sobre William Hazlitt, um autor do Romantismo inglês, me deixava disponível. E, na realidade, os fins da década de 50 e princípios do decénio seguinte foram um período em que vieram a público alguns livros que me marcaram fortemente, entre eles, a 3ª série das Líricas Portuguesas, de Jorge de Sena, O Amor em Visita, de Herberto Helder, 35 Poemas, de Cristovam Pavia, O Desequilibrista, de M.S. Lourenço, 40 Noites de Insónia…, de António José Forte, A Colher na Boca, de Herberto, Aquele Grande Rio Eufrates, de Ruy Belo, e o conjunto de plaquettes reunidas em Poesia 61. Ao livro de Forte reservei logo um lugar especial na minha afeição. Havia ali um inconsolável malestar que vinha muito ao encontro do sol negro da melancolia que, então, ensombrava os poemas que eu ia ensaiando, aspirando à libertação imagética que o surrealismo trouxera.

Forte colaborou, com o poema “O Poeta em Lisboa”, numa página de poesia que organizei para o jornal A Rabeca, de Portalegre, em Janeiro de 1962, e em que também foram incluídos textos de, entre outros, José Régio, “Verbo” (mais tarde, inserto no volume póstumo Colheita da Tarde), e Manuel Dias da Fonseca, que era, então, professor de Ciências Físico-Químicas no Liceu da cidade. O texto de   apresentação da página era da autoria de Feliciano Falcão, médico analista, que durante algum tempo teve como assistente no seu laboratório Amélia Forte, então mulher do poeta. Falcão foi o mais constante interlocutor de Régio em Portalegre, e alguém que muito alargou os meus horizontes culturais, dando-me, por exemplo, a conhecer várias das revistas literárias portuguesas do século XX, de que tinha preciosas colecções. Ele era um dos grandes entusiastas de um curso de Inglês que eu ministrava no escritório de dois advogados, Ernesto de Oliveira, igualmente homem de cinema e que fez um notável documentário sobre Régio, e António Teixeira. O curso de Inglês pouco mais era do que um pretexto para se reunirem algumas pessoas que tinham interesses culturais comuns, a que, às vezes, se juntavam um ou outro convidado. De Forte, me lembro de, uma das vezes que lá foi, ter revelado uma faceta da sua personalidade que a maioria desconhecia, a de admirável diseur de poesia.

Dicção impecável, empatia funda com os textos, sem qualquer excesso declamatório.

Tanto quanto me recordo, na mesma sessão esteve Manuel Dias da Fonseca – além de professor de Física no Liceu, homem de grande erudição no domínio da música –, que levou um daqueles gravadores antigos com fita, e nos deu a ouvir uma peça de Pierre Boulez, a qual teve um efeito devastador no hipersensível Régio…

Sobre a poesia de Forte publiquei alguns artigos, no Jornal de Letras e Artes, na Colóquio/ Letras, e na Relâmpago. Para o texto dado a lume nesta última revista, servi-me, em parte, das notas por que me tinha guiado na apresentação que fiz da segunda edição aumentada de Uma Faca nos Dentes, em 2003, no átrio do Teatro da Trindade.

Tive, então, ocasião de medir bem, pela sala repleta de gente, quão amado ele era pelos que o conheciam como poeta e cidadão. Nunca antes eu sentira uma tão funda empatia na homenagem a um autor: o meu sempre lembrado amigo António José Forte.

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