Concluímos com a nova série de textos o nosso estudo sobre as questões que a Ucrânia nos levantou. Não são elas poucas e tanto é assim que muitas delas estarão presentes nas políticas europeias a partir de agora e não só, estarão igualmente presentes nas próximas décadas. Tudo isto, mais que justifica que da Ucrânia continuemos a falar e relembremos que o nosso interesse pelo problema que é a Ucrânia surgiu da pergunta que as manifestações violentas em Kiev nos levantaram de imediato: ninguém morre por um acordo comercial, mas então morreu-se em nome de quê, em Kiev? Hoje, sabemos que por detrás dessas movimentações estão muitas e complexas razões mas no país talvez o mais pobre da Europa estão igualmente as mãos do Ocidente e por elas foram despejados muitos milhões de dólares. Exagero da minha parte? Com esta afirmação estou apenas a querer apenas interpretar as afirmações de Victoria Nuland em que esta afirmou no National Press Club, a 13 de Dezembro de 2013 : “Since the declaration of Ukrainian independence in 1991, the United States supported the Ukrainians in the development of democratic institutions and skills in promoting civil society and a good form of government – all that is necessary to achieve the objectives of Ukraine’s European. We have invested more than 5 billion dollars to help Ukraine to achieve these and other goals. ” and United States will continue to “promote Ukraine to the future it deserves”. Nessa pobreza, na Ucrânia, há então também uma razão imediata, primária, para se morrer, a luta pelos dólares, ou melhor, há também uma razão imediata para se matar, em nome desses dólares que é preciso ganhar e tudo depois justificado em nome da Democracia. Mas mesmo assim, isso não chega, porque é também preciso perceber as razões porque os biliões de dólares aí caem. À procura de respostas não imediatas, que nunca as há, aqui apresentamos a nossa última série de textos sobre a questão ucraniana, sobre a problemática europeia.
Pois bem, como assinala Jacques Sapir, por razões que quase deveríamos considerar do domínio do anedótico, “confrontamo-nos com o regresso ao mundo das nações”. Terminou desta forma estúpida os sonhos dos grandes espaços integrados como o da Europa até aos Urais e, pior ainda, reavivou-se um clima de guerra fria e de desconfiança entre os supostos grandes blocos que dão pelo nome de Rússia, Estados Unidos e China. E a Europa, onde está ela? Esta, nem sequer tem dinheiro para poder disparar tiros de pólvora seca quanto mais para manusear, por conta própria, grandes armadas, grandes exércitos, grandes esquadras aéreas, a Europa dirigida por Durão Barroso e pelo poeta dos haikus, o seu Presidente, anda a dar tiros nos pés, com a diferença de que quem sofre com eles somos todos os europeus. Mas de tiros nos pés também nos fala um texto publicado em ZeroHedge, onde Jim Rodgers, analista financeiro e co-fundador do famoso fundo financeiro de nome Quantum Fund, afirma numa entrevista dada à Voice of Russia, que as sanções aplicadas ou aplicáveis à Rússia serão um verdadeiro tiro nos pés até porque (…) estas serão mais prejudiciais a quem as aplica.
Se com isso nós estamos perante um regresso ao mundo das Nações, se com isso estamos a abandonar o mundo unipolar que se estilhaça sob os pés de Barack Obama que incapaz de vencer internamente os Tea Party se pretende lançar a querer ser o patrão do mundo e assim está a fazer reviver o clima de guerra fria, se com isso a União Europeia nos deu mostras ou de uma incapacidade total ou de então de um cinismo do mais absoluto que é imaginável, o certo e como consequência de tudo isto, é que estamos a transferir o centro do mundo para lá de Moscovo, para uma possível entente entre Pequim e Moscovo. O mundo bipolar, portanto, mas agora a poder ser bem mais perigoso.
Com Paul Craig Roberts e outros pode-se adiantar ainda uma outra leitura para o conflito, a de que Putin desde a sua chegada ao poder pretende impor ordem no imenso espaço russo que com Boris Ieltsine estava à disposição dos hold-hups das grandes multinacionais e que o seu forte apoio popular tem assentando numa política muito menos inigualitária da repartição do rendimento que aquela que é prosseguida no Ocidente.
Um dos textos apresentados nesta série diz-nos:
Primeiro sobre o plano económico. Afinal, que fez Putin desde há 15 anos, concretamente? O poder de compra dos Russos: duplicou. A inflação: passado de 100% a quase nada. A balança comercial: largamente recuperada e agora está já excedentária. A taxa de emprego: em muito forte aumento. A dívida pública: passou de 90% do PIB à 0%. A pobreza: dividida por 2. Resumidamente, os números falam por eles mesmos: um malogro lamentável.
Sobre a desigualdade de rendimentos, sobre a pobreza vejamos dois gráficos recentes, um sobre a economia americana quanto á evolução relativa dos rendimentos dos mais ricos, mesmo com exclusão dos rendimentos de capital, e o outro sobre os candidatos à sopa dos pobres nos Estados Unidos.
Os 10 por cento dos assalariados de rendimentos superiores estão a alcançar os 50 por cento dos rendimentos globais enquanto os 0,1 por cento dois rendimentos mais elevados superiores estão quase nos 10 por cento do rendimento global. Para nos situarmos historicamente, considere-se que os 0,1 por cento estão agora a ter uma proporção maior do rendimento do que a proporção que auferia os 1 por cento nos anos 80 e os 1 por cento estão a ganhar agora quase tanto quanto os 5 por cento de rendimentos mais elevados para o mesmo período. Tenha-se em conta que destes rendimentos excluídos os ganhos de capital, as mais-valias – pois que se estes rendimentos fossem incluídos no global a distribuir todas estas parcelas seriam bem mais elevadas.
Num mundo em crise com a margem de manobra extremamente reduzida de Obama exactamente por causa dos Tea Party e não só, vejamos a evolução dos candidatos à sopa dos pobres nos Estados Unidos, os seus programas de ajuda alimentar:
No meio de tudo, aquele que para nós era a única figura política actual capaz de merecer o respeito do mundo inteiro pela dignidade de Estado que imprimia aos seus projectos, aos seus actos, à dimensão e à temática dos seus discursos, Barack Obama, este, descobrimo-lo agora, e com muita pena nossa, que na política externa está ao nível de um Bush filho, o Presidente que destruiu o Iraque porque o incomodava pensar que Saddam Hussein tinha insultado o papá Bush. Com efeito, Barack Obama, o actual Presidente, não se sente insultado como George W. Bush, sente-se antes irritado porque apanhado em falso no seu comprometimento com o golpe de Estado fabricado em Kiev, a dar atenção às palavras de Nuland nunca desmentidas nem ela demitida sequer e que agora nos quer convencer da legalidade do poder em Kiev e da ilegalidade do poder na Crimeia[1]. Na mesma linha se entende a União Europeia ao firmar um acordo com um governo que tem o poder que as armas que a extrema-direita nazi utilizou em Kiev a esse governo conferiu e que, agora, ao validá-lo vem Bruxelas clamar pela violação do direito internacional na Crimeia enquanto assina um “ Acordo de Associação” com este governo. Inimaginável a visão tão unilateral do direito como esta que é clamada por Bruxelas e por Washington[2].
Entre Bush filho e Obama vejamos o que nos diz um texto publicado por ZeroHedge que, por opção, deixamos em inglês:
“President Obama tried his hand at stand up comedy. Here’s the punchline:
Russia has pointed to America’s decision to go into Iraq as an example of Western hypocrisy. Now, it is true that the Iraq war was a subject of vigorous debate, not just around the world but in the United States, as well. I participated in that debate, and I opposed our military intervention there.
But even in Iraq, America sought to work within the international system. We did not claim or annex Iraq’s territory. We did not grab its resources for our own gain. Instead, we ended our war and left Iraq to its people in a fully sovereign Iraqi state that can make decisions about its own future.
We get the joke … For example, we know that:
• While Russia’s annexation of Crimea is probably legal (and see this), the U.S. invasion of Iraq was blatantly illegal
• The U.S. thwarted the United Nations at every possible opportunity
• The protests against the Iraq war were the largest protests in history, and yet the politicians plowed ahead with the disastrous war and refused to listen to the facts … or the will of the people
• War crimes – in the form of a torture program specifically aimed at producing false confessions to justify the war, and chemical weapons attacks against civilians (which greatly increased the rate of birth defects), and the use of depleted uranium, which can cause cancer and birth defects for decades (see this,this, this, this, this and this), and one of the main US creators of the death squads in El Salvador being sent to Iraq to set up paramilitary death squads and torture centers – were all ordered by top American leaders
• Iraqis are worse off now than before the Iraq war. There was no Al Qaeda in Iraq until the U.S. invaded in 2003 (“so what?”). And minorities – such as Christians – are more widely persecuted now than under Saddam Hussein.
• The U.S. doesn’t need to annex a country to control its resources.
We get it … the whole satirical opposite-of-reality comedy schtick. It’s just not very funny.
So – other than a few polite claps by his secret service escorts – Obama’s stand up act is getting no applause”
(continua)
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[1] Aqui somos levados a questionar o que quer dizer o Washington Post quando afirma: “Large presidential failures cannot be hermetically sealed; they permeate a presidency. Putin’s contribution to the miniaturization of Obama comes in the context of Obama’s self-inflicted wound — Obamacare, which simultaneously shattered belief in his competence and honesty, and may linger as ruinously for Obama as the Iranian hostage crisis did for Carter.” Ou ainda: “Mr. Obama is not responsible for their misbehavior. But he does, or could, play a leading role in structuring the costs and benefits they must consider before acting”. (Washington Post, 3 de Março de 2014.) Mas a ser assim quem é que é responsável neste nosso mundo governado pelos neoliberais e com outros a fazerem-lhe o serviço? A acreditar no Washington Post, não sendo então o Presidente da República o responsável, caberá essa responsabilidade ao Pentágono, à CIA ou ao NSA?
[2]Diz-se que Iulia Timochenko seria a linha da frente dos apoios americanos e da União Europeia, igualmente. Boa conhecedora da lógica dos paraísos fiscais, boa conhecedora de Chipre, (que ironia!) é considerada uma das mais corruptas personagens políticas da Ucrânia, e há muitas naquela região. Segundo Iulia Timochenko: “É tempo de pegarmos nas nossas armas e de ir dar cabo desses malditos russos assim como do seu Presidente”. Um bom exemplo dos dirigentes belicistas e corruptos fabricados e apoiados pelo Ocidente.
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