“Celebrando Agostinho da Silva” – 13 – por Álvaro José Ferreira

(Conclusão)

Nota prévia:

Para ouvir os poemas e outros textos de Agostinho da Silva, bem como as “Conversas Vadias”,Imagem1

há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.com/2014/04/celebrando-agostinho-da-silva.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

O professor como mestre

Texto de Agostinho da Silva (de “Projecto de um Mestre”, in “Considerações”, Famalicão: Ed. do Autor, 1944, “Considerações e Outros Textos”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 41-43; “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 103-104) Lido por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 300, 15-Out-2010)

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro. A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário. Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.

Compreender e unir

Texto de Agostinho da Silva (de “Por um Fim de Batalha”, in “Considerações”, Famalicão: Ed. do Autor, 1944, “Considerações e Outros Textos”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 59-60; “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 116-117) Lido por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 300, 15-Out-2010)

Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento. Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia. Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita. Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.

A seguir, apresenta-se a integral das “Conversas Vadias” (treze episódios), originalmente transmitidas pela RTP-1 no ano de 1990. Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 1 – Maria Elisa Domingues (jornalista) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 2 – Adelino Gomes (jornalista) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 3 – Joaquim Letria (jornalista) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 4 – Isabel Barreno (escritora) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 5 – Baptista-Bastos (jornalista e escritor) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 6 – Alice Cruz (locutora e apresentadora de televisão) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 7 – Cáceres Monteiro (jornalista) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 8 – Fernando Alves (jornalista de rádio) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 9 – Vasco Ramalho e João Carlos (estudantes) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 10 – Herman José (humorista) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 11 – Miguel Esteves Cardoso (jornalista e escritor) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 12 – Manuel António Pina (poeta e escritor) Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 13 – Joaquim Vieira (jornalista e investigador)

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