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Há, quanto a mim, dois elementos-chave na História da Literatura cabo-verdiana. O primeiro é a obra de Eugénio Tavares (1867-1930) – em português e em crioulo – criando um conceito nunca antes enunciado, de caboverdianidade, a consciência de que, quer se exprimissem de uma ou de outra forma, existia um espaço identitário para os escritores do arquipélago. Espaço que o facto de Cabo Verde ser, até 1975, uma nação sem Estado de modo algum punha em causa. O segundo momento é o aparecimento em 1936 da revista Claridade.
Até então houve livros escritos em Cabo Verde, alguns por cabo-verdianos, mas não se pode falar de uma literatura cabo-verdiana. O primeiro prelo foi introduzido em Cabo Verde no ano de 1842 e em 1856 surge o primeiro romance de um autor cabo-verdiano, O Escravo, de José Evaristo d’Almeida, (…) como diz Pires Laranjeira em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa 1995, «segue-se um longo período (ainda hoje mal conhecido no que respeita ao século XIX), até à publicação do livro de poemas Arquipélago (1935) de Jorge Barbosa, e da revista Claridade (1936), fundada por Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, entre outros, em que se destacam José Lopes e Pedro Cardoso».
Na avaliação das literaturas de língua portuguesa, «Cabo Verde merece consideração à parte. Apesar de circunstâncias também desfavoráveis, como as de nível de vida e a distância a que o português literário se encontra do crioulo falado, a maior proximidade da cultura metropolitana (e sobretudo da brasileira) e certos fermentos mais antigos da vida literária possibilitaram um surto de escritores em torno das revistas Claridade (…) e Certeza», dizem Óscar Lopes e António José Saraiva numa das primeiras edições da sua História da Literatura Portuguesa, destacando depois nomes como os de Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Eugénio Tavares, que designam por «o poeta do crioulo».
Manuel Ferreira, sem dúvida um dos maiores especialistas portugueses em literatura africana, particularmente na de Cabo Verde, considera Eugénio Tavares, sobretudo um poeta e um jornalista «de excelente qualidade», quer exprimindo-se em português, quer em crioulo. O Tenente-Coronel Joaquim Duarte Silva, um dos mais antigos estudiosos da sua obra, é da opinião que o primeiro texto escrito em crioulo, até então exclusivamente usado na forma oral, é da autoria de Eugénio Tavares. Refere-se a uma «transposição» para crioulo do famoso texto de Camões, Endechas a Bárbara Escrava (Aquela cativa/Que me tem cativo…), feita por Eugénio. Diz a versão crioula – Bárbara, bonita escraba… João Augusto Martins em Madeira, Cabo Verde e Guiné, Carlos Parreira e outros autores, consideram-no o maior poeta lírico de Cabo Verde. Corsino Fortes (1933), escritor e ex-embaixador de Cabo Verde em Portugal, designou-o por o «Camões de Cabo Verde». É por muitos considerado o «pai» da literatura de Cabo Verde e, como disse, o criador do próprio conceito de cabo-verdianidade, sem o qual não teria sido possível criar uma literatura.
Nem uma pátria.
