* -Esta biografia de Eugénio Tavares é transcrita, com a devida vénia, do site VIDAS LUSÓFONAS. Devido à sua extensão, será segmentada em cinco posts.
QUANDO TUDO ACONTECEU
1867: Em 18 de Outubro nasce na ilha Brava, no arquipélago de Cabo Verde, Eugénio de Paula Tavares, filho de Francisco de Paula Tavares e de Eugénia Nozolini Roiz Tavares, que morre em consequência do parto. Em 5 de Novembro, é baptizado na Igreja de São João Baptista, em Nova Sintra. 1870: Seu pai falece na Guiné, onde está em serviço do Estado português. Eugénio é acolhido pelo médico José Martins de Vera Cruz e por sua irmã, D. Eugénia da Vera Cruz Medina e Vasconcelos. 1876: É submetido a exame nas disciplinas básicas do ensino, obtendo a classificação de 18 valores. 1882: No Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, é publicado o seu primeiro poema dedicado a sua madrinha. 1887: Casa com D. Guiomar Leça.1888: É colocado como Recebedor da Fazenda Pública no Concelho do Tarrafal. 1890: Regressa à Brava, onde passa a exercer as mesmas funções de Recebedor da Fazenda. 1895: Publica Manidjas (Canções) em crioulo. 1899: Começa a publicar textos na Revista de Cabo Verde, editadaem Lisboa.1900: Em Junho, fugindo à perseguição das autoridades coloniais, exila-se nos Estados Unidos, onde inicia a edição do jornal Alvorada, cuja publicação se manterá até 1917. 1910: Revolta de rendeiros de Ribeirão Manuel, na ilha de Santiago. Proclamada a República em Portugal, Eugénio regressa a Cabo Verde. Inicia a sua colaboração em jornais no Manduco, publicado na ilha do Fogo. Mantém esta colaboração até 1910. 1910/11: Inicia a sua colaboração no Independente da Praia, que se prolongará até ao ano seguinte. Colabora também em O Futuro de Cabo Verde, no Progresso e no Mindelensede São Vicente.1911: Funda o semanário A Voz de Cabo Verde. 1912: Colabora no Correio Português, de New Bedford. 1913: Escreve paraA Tribuna, da Brava.1914: Compõe e publica uma canção dedicada à República. 1915: Publica na Praia as Cartas Caboverdeanas.1916: Edita Amor Que Salva (Santificação do Beijo); neste mesmo ano, sai a público Mal de Amor: Coroa de Espinhos.1920: Morre José Martins de Vera Cruz, pai adoptivo de Eugénio. 1922: Regressa à Brava, pois foi julgado e absolvido. Com um grupo de amigos, cria a Escola Governador Guedes Vaz. Ainda neste ano, funda a Troupe Musical Bravense.1927: O governador-geral da Colónia, Guedes Vaz, realiza uma visita à Brava e apresenta o pedido de desculpa a Eugénio Tavares relativamente às ofensas e sofrimento a que a governação anterior o expusera. 1930: Em 1 de Junho, falece na sua Brava natal, vítima de uma angina de peito. 1932: Em Fevereiro, por iniciativa do escritor português José Osório de Oliveira, amigo de Eugénio, é publicado pela Livraria J. Rodrigues & Cª. de Lisboa, o volume Mornas – Cantigas Crioulas, de acordo com uma selecção e com um prefácio que o autor fizera poucos meses antes da sua morte, em Nova Sintra.1940: No âmbito das comemorações portuguesas do duplo centenário, dos oitocentos anos da Fundação e dos trezentos da Restauração, o Governador de Cabo Verde desloca-se à Brava para inaugurar o mausoléu de Eugénio Tavares. 1969: A Liga dos Amigos de Cabo Verde, em Luanda, publica a 2ª edição de Mornas, com uma Adenda em português.1976: Pelos acordos de Londres e de Argel, Portugal reconhece a independência de Cabo Verde. 1995: Em 6 de Maio, no Palácio Valenças, em Sintra (Portugal), é feito o anúncio público, seguido da leitura de estatutos e da escritura pública, da criação da «Fundação Eugénio Tavares». 2002: Em 24 de Junho, é inaugurado na Praça Eugénio Tavares, da Vila Nova Sintra, na ilha Brava, o monumento ao poeta, «Homenagem da comunidade cabo-verdiana da diáspora e da associação ´Amidjabraba`».
UMA INFÂNCIA TORMENTOSA, MAS FELIZ.
«Aos cinco dias do mês de Novembro de 1867, nesta Igreja Matriz de São João Baptista nesta ilha Brava, baptizei solenemente e pus os santos óleos a Eugênio, filho legítimo de Francisco de Paula Tavares e de Eugénia Roíz Tavares, já falecida e que nasceu a dezoito do mês transacto pela uma hora da manhã. Foram padrinhos Benjamim José da Vera Cruz e D. Maria Medina de Vera Cruz, seu pai, natural do reino de Portugal e sua mãe da Ilha do Fogo1 e para constar fiz este termo que assino. Era ut supra.» Com esta prosa, o cónego vigário Guilherme de Magalhães Menezes, dava o passaporte para a vida àquele que, grande poeta e notável jornalista em crioulo e em língua portuguesa, viria a ser o pai da literatura cabo-verdiana e o primeiro intelectual a pensar em Cabo Verde como entidade cultural autónoma. Eugénio Tavares, é, como Torga em Portugal, um poeta telúrico, escrevendo uma poesia intimamente ligada à terra e às gentes do arquipélago. Francisco de Paula Tavares, um português natural de Santarém, estabelecera-se na Guiné, na região de Cacheu e Geba, transformando-se num rico proprietário. Porém, é grande a instabilidade que se vive no território – sobretudo as lutas tribais que são, por seu turno, reflexo da turbulência política e, sobretudo, social que se vive na Europa e que preanunciam transformações e medidas importantes (tais como, em 1869, a abolição da escravatura em todos os domínios portugueses). Em 1870 deflagra a guerra franco-prussiana. Em Portugal, é o pronunciamento do marechal Saldanha, querendo impor a D. Luís a demissão do governo do duque de Loulé. Este quadro de conflitualidade política e social e a guerra étnica que lavra na Colónia, leva-o, por prudência, a transferir sua mulher e uma filha (a pequena Henriqueta, nascida em Geba) para a ilha do Fogo de onde Eugénia, que está grávida, é oriunda. Henrique, o filho mais velho fica com o pai.
No entanto, na sua ilha natal as melhoras não são significativas e vai para a Brava, onde tem familiares que a acolhem. Para mais, pelas suas condições naturais, a Brava é considerado um local privilegiado de cura e repouso. Tendo, no século XV, sido colonizada sobretudo por algarvios e madeirenses, a sociedade bravense naquela época caracterizava-se por, relativamente às outras ilhas, ali se verificar um ambiente ameno, isento de preconceitos étnicos, havendo um saudável convívio entre os negros, os crioulos e os, relativamente numerosos, colonos europeus. Porém, a tragédia espreita a família do pequeno ser: Eugénia morre ao dá-lo à luz. Sua irmã Henriqueta é acolhida pela família Sena. O recém-nascido Eugénio fica com D. Maria Medina de Vera Cruz que, com seu marido, o médico José Martins de Vera Cruz, acabam por acolher definitivamente a criança quando, em 1870, na Guiné, Francisco de Paula Tavares morre também, em circunstâncias desconhecidas, mas pensa-se que vítima da onda de violência que o território atravessa. O irmão mais velho, Henrique, é levado para Portugal. A pequena Henriqueta fica entregue aos cuidados de um familiar de sua mãe, João José de Sena. Eugénio é tratado como um verdadeiro filho pelo casal Vera Cruz. Pode dizer-se que o pequeno, apesar de órfão, tem uma infância normal, feliz. Cedo, os pais afectivos e os amigos se apercebem da inteligência excepcional daquela criança. Por isso, a formação cultural do jovem não é descurada, pois para além do exame em matérias básicas que vem noticiado no Boletim Oficial de Julho de 1876 (leitura corrente, escrita, subtracção, multiplicação e divisão de números inteiros, gramática e doutrina cristã), recebe lições de Filosofia, Língua Latina e Teologia… – apesar da grande cultura que o escritor virá a adquirir, este é o único diploma oficial que se lhe conhece, pois todo o saber que acumula não será documentalmente oficializado. O contacto com os mais destacados intelectuais da Brava, nomeadamente os poetas Guilherme Dantas, Augusto Barreto, Maria Luísa de Sena Barcelos e José Rodrigues Aleixo, «o filósofo, o pensador da ilha Brava», enriquece culturalmente Eugénio Tavares e vai abrindo caminho para que o caudal do seu talento se converta na torrente criativa que dará lugar à sua polifacetada obra. Como diz o professor brasileiro Genivaldo Rodrigues Sobrinho, «Mesmo não tendo frequentado o Liceu de São Nicolau nem tido oportunidade de estudar em qualquer outro estabelecimento de ensino fora de seu país, Eugénio Tavares era possuidor de uma formação cultural que viria a se refletir em sua produção escrita. Apesar de ser autodidata em sua formação, como jornalista e prosador,» (…) «dominou o cenário cabo-verdiano nas primeiras décadas do século XX»
[1] – A mãe de Eugénio Tavares, D. Eugénia Nosolini Roiz Tavares, descendia de um italiano, André Nazolini que, em 1790 na ilha do Fogo, casou com D. Gertrudes Henriques, uma senhora portuguesa filha do capitão-mór daquela ilha.
Interessantíssimo artigo -obrigada -Maria