
MARÍLIA de DIRCEU – Lira III – Terceira parte
Tu não verás, Marilia, cem captivos
Tirarem o cascalho, e a rica terra,
Ou dos cercos dos rios caudelosos,
Ou da minada Serra.
Não verás separar ao habil negro
Do pezado esmeril a grossa arêa;
E já brilharem os granetes de ouro,
No fundo da batêa.
Não verás derrubar os virgens matos,
Queimar as capoeiras inda novas,
Servir de adubo á terra a fertil cinza,
Lançar os grãos nas cóvas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa meza
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-has folhear os grandes livros,
E decidir os pleitos.
Em quanto revolver os meus Consultos,
Tu me farás gostosa companhia
Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
Os Cantos da Poesia.
Lerás em alta Voz a imagem bella;
Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
Gostoso tornarei a lêr de novo
O cansado processo.
Se encontrares louvada huma belleza,
Marilia, não lhe envejes a ventura,
Que tens quem leve á mais remota idade
A tua formosura.
Fui buscar a Lira da Marília de Dirceu acima publicada ao Projecto Gutenberg, iniciativa magnífica que merece grandes apoio e continuidade. Conservei-a tal e qual a encontrei, sem alterar a ortografia. Tem o número III, da terceira parte do poema. Vejam em:
http://www.gutenberg.org/cache/epub/18082/pg18082.html
Devo referir contudo que José Valle Figueiredo, na sua Antologia da Poesia Brasileira, publicada, salvo erro, em 1971, na colecção RTP, nº 24, da Biblioteca Básica Verbo, dá a esta mesma Lira o número XXII, sem mais referências.
Obrigado à Wikipedia onde fui buscar a imagem do poeta.

