MARÍLIA DE DIRCEU, de TOMÁS ANTÓNIO GONZAGA

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1744 - 1810
1744 – 1810

 

MARÍLIA de DIRCEU – Lira III – Terceira parte

 

 

Tu não verás, Marilia, cem captivos
Tirarem o cascalho, e a rica terra,
Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

 

Não verás separar ao habil negro
Do pezado esmeril a grossa arêa;
E já brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da batêa.

 

Não verás derrubar os virgens matos,
Queimar as capoeiras inda novas,
Servir de adubo á terra a fertil cinza,
    Lançar os grãos nas cóvas.

 

Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

 

Verás em cima da espaçosa meza
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

 

Em quanto revolver os meus Consultos,
Tu me farás gostosa companhia
Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

 

Lerás em alta Voz a imagem bella;
Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
Gostoso tornarei a lêr de novo
    O cansado processo.

 

Se encontrares louvada huma belleza,
Marilia, não lhe envejes a ventura,
Que tens quem leve á mais remota idade
    A tua formosura.

 

 

Fui buscar a Lira da Marília de Dirceu acima publicada ao Projecto Gutenberg, iniciativa magnífica que merece grandes apoio e continuidade. Conservei-a tal e qual a encontrei, sem alterar a ortografia. Tem o número III, da terceira parte do poema. Vejam em:

http://www.gutenberg.org/cache/epub/18082/pg18082.html

Devo referir contudo que José Valle Figueiredo, na sua Antologia da Poesia Brasileira, publicada, salvo erro, em 1971, na colecção RTP, nº 24, da Biblioteca Básica Verbo, dá a esta mesma Lira o número XXII, sem mais referências.

Obrigado à Wikipedia onde fui buscar a imagem do poeta.

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