No dia 3 de Maio, pelas 16 horas inaugura na Galeria Quadrado Azul no Porto, a mais recente exposição individual de José de Guimarães: Tatuagens – Obras recentes.
José de Guimarães | Tatuagens
Nuno Faria
A tatuagem é uma prática simbólica ambígua: é distintiva, em alguns casos, e segregadora, noutros. José de Guimarães tem integrado este elemento amiúde no seu trabalho enquanto símbolo de pertença comunitária e traço de resistência cultural, em particular nos últimos anos com a extensa série de monotipias, “Negreiros”, que agora se vê expandida e reforçada num intenso diálogo de negro sobre negro, de positivo/ negativo e de cópia/ original.
Agora, partindo e intervindo sobre um célebre artigo de jornal do historiador José Pacheco Pereira, o artista comenta a actualidade trazendo, de forma mais explícita, a tatuagem para o plano político. Note-se que os níveis semânticos são sub-cutâneos, indo mais em profundidade do que a temática, visualmente impactante, deixaria antever. Para além do comentário político, em primeiro plano, José de Guimarães labora ao nível da formação e reprodução da imagem, usando o meio extensivamente, além da própria visualidade, num plano meta-linguístico que se detém nas potencialidades da transferência da imagem realizada por contacto.
Contacto, um conceito operativo na obra de José de Guimarães – como foi possível testemunhar na exposição antológica dedicada aos processos de transferência da imagem no seu trabalho, patente de Janeiro a Abril no CIAJG, em Guimarães -, estabelece o mote desta exposição. Nela, José de Guimarães reforça uma prática intensamente baseada na apropriação de elementos de outras culturas, com as quais mantemos contactos multi-seculares, prosseguindo um trabalho esteticamente poroso, mestiço e antropofágico.
Neste retorno às exposições individuais no contexto galerístico em Portugal, após um longo período de ausência, José de Guimarães traz-nos uma exposição interventiva e questionadora, atenta ao contexto socio-político, que talvez surpreenda aqueles que nunca se detiveram nesse pulsar inquietante, palpável à superfície dos seus objectos.
José de Guimarães nasceu em 1939 em Guimarães, Portugal. Vive e trabalha entre Lisboa e Paris.
O trabalho de José de Guimarães propõe um cruzamento com a arte das civilizações africanas, chinesas e mesoamericanas, numa procura interminável de relações não-verbais, o que também se reflecte na prática como coleccionador, à qual tem dedicado a sua atenção há várias décadas.
Uma estadia em Angola, durante as décadas de sessenta e setenta, viria a tornar-se um vector determinante na definição do seu vocabulário artístico, impulsionado por um esforço em criar uma osmose entre duas formas de expressão visual, a europeia e a africana. No entanto, se a primeira década da produção artística foi baseada em África, os seus mais de quarenta anos de trabalho revelam séries inteiramente focadas nas culturas chinesa e japonesa, na arte de Rubens, na literatura de Camões e na concepção mexicana de morte. Nos últimos anos, o seu percurso tem reflectido uma tendência cosmopolita de formas e de figuras.
A sua expressão visual tem privilegiado a luz de néons e LEDs, especialmente nas caixas de madeira, que propõem um exterior austero em contraste com o cenário do espaço interior. Este é preparado com os traços luminosos dos néons e LED’s, e com pintura, colagens e objectos desviados do sentido conferido pela sua função tradicional.
Tendo realizado um vasto número de exposições em vários países, foi também sujeito de diversas exposições antológicas e retrospectivas em Portugal, Espanha, Bélgica, Alemanha, Suíça, Itália, Brasil, Angola, China e Japão.
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