CARTA DO RIO – 2 – por Rachel Gutiérrez

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O ofício de tradutor, apesar de pouco valorizado entre nós, pode proporcionar a quem o exerce emoções e alegrias simplesmente porque “o mundo é mágico”, como afirmou Guimarães Rosa, e García Márquez soube nos revelar tão bem em sua obra.

No período em que estive trabalhando, para a Editora Rocco, na tradução de Sonhos de Sonhos, do italiano Antonio Tabucchi, tive uma experiência que só a estranha força da literatura pode explicar.

Tabucchi, como ele declarou, tendo sido sempre assaltado pelo desejo de conhecer os sonhos dos artistas que amava, imagina nesse livro para vinte de seus ídolos, com delicadeza e surpreendente generosidade, sonhos que ora iluminam suas personalidades, ora os redimem de culpas ou sofrimentos. Para Fernando Pessoa, por exemplo, cria o sonho da véspera do dia 8 de março de 1914, quando os famosos heterônimos, começam a escrever, por intermédio do poeta, suas respectivas obras; para o sonho de Toulouse – Lautrec, imagina o artista num pomar, numa cena em que este colhe de uma árvore bastante alta, graças às suas longas pernas, uma fruta, e a oferece a uma jovem amiga.

Muito me emocionei ao traduzir cada uma das bondosas invenções do grande escritor.

Ocorre que na ocasião, morava próximo do meu prédio, no bairro do Leme, um senhor de quem eu procurava sempre desviar os olhos com medo de ofendê-lo, que possuía sobre o nariz uma protuberância escura, muito feia e grande, talvez um câncer. Via-o com frequência caminhando sempre rápido, cabisbaixo, visivelmente envergonhado.

Pois certa noite tive um sonho em que me encontrava na pracinha do bairro em frente ao mar, numa linda manhã de sol e via caminhar na minha direção, calmo e feliz, o mesmo senhor – com um nariz perfeito.

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