POESIA AO AMANHECER – 436 – por Manuel Simões

poes434		JORGE DE LIMA 			  ( 1895 – 1953 ) 	MISSÃO E PROMISSÃO (X) 	Não a vaga palavra, corrutela 	vã, corrompida folha degradada, 	de raiz deformada, abaixo dela, 	e de vermes, além, sobre a ramada; 	mas, a que é a própria flor arrebatada 	pela fúria dos ventos: mas aquela 	cujo pólen procura a chama iriada, 	- flor de fogo a queimar-se como vela; 	mas aquela dos sopros afligida, 	mas ardente, mas lava, mas inferno, 	mas céu, mas sempre extremos. Esta sim, 	esta é que é a flor das flores mais ardida, 	esta veio do início para o eterno, 	para a árvore da vida que há em mim. 	(de “Invenção de Orfeu”) Médico, romancista, crítico, Jorge de Lima foi sobretudo um grande poeta. A sua obra inspira-se em aspectos sociais da vida dos negros (basta pensar no famosíssimo poema “Essa Negra Fulô” – 1928) mas, ao mesmo tempo, abrande valores universais e até transcendentes (“Invenção de Orfeu”, 1952).  Outros livros: “XIV Alexandrinos” (1914), “Poemas” (1929), “Tempo e eternidade” (1935), “A Túnica Inconsútil” (1938), “A Anunciação e Encontro em Mira-Celi” (1940). iaamanhecer

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

                                                                                                 ( 1902 – 1987 )

            ENTRE O SER E AS COISAS

            Onda e amor, onde amor, ando indagando

            ao largo vento e à rocha imperativa,

            e a tudo me arremesso, nesse quando

            amanhece frescor de coisa viva.

 

            Às almas, não, as almas vão pairando,

            e, esquecendo a lição que já se esquiva,

            tomam amor humor, e vago e brando

            o que é de natureza corrosiva.

 

            N’água e na pedra deixa gravados

            seus hieróglifos e mensagens, suas

            verdades mais secretas e mais nuas.

 

            E nem os elementos encantados

            sabem do amor que os punge e que é, pungindo,

            uma fogueira a arder no dia findo.

 

            (de “Claro Enigma”)

É um dos grandes nomes da moderna poesia brasileira. Inúmeros são os temas da sua poesia, como a solidão do indivíduo, a terra natal (Itabira), o confronto social ou o itinerário amoroso. Da sua vastíssima produção recordamos: “Alguma Poesia” (1930), “Sentimento do Mundo” (1940), “A Rosa do Povo” (1945), “Claro Enigma” (1951), “Impurezas do Branco” (1973), “Amar se aprende amando” (1985) e “Amor Natural” (póstumo, 1992). Alguns poemas são particularmente conhecidos: “Quadrilha”, “No meio do caminho” ou “Os mortos de sobrecasaca”.

 

 

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