FRATERNIZAR – Afinal, os pobres, se não se rebelarem, bem podem esperar – por Mário de Oliveira

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Bispo do Porto benze pastas na Avenida dos Aliados

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O Bispo do Porto apareceu, radiante, como um papa menor, no passado domingo, 5 de Maio, na Avenida dos Aliados, vestido de roupas caras como os príncipes, nos respectivos paços da idade média, e armado de um rico báculo na mão, cruz peitoral a condizer, pendente do pescoço, anel no dedo e vistosa mitra de dois bicos na cabeça, pronto para enfrentar os muitos jovens finalistas das universidades que, vá-se lá saber porquê, insistem na praxe académica de querer benzidas por ele as suas pastas. Já deveriam ter percebido e concluído, os jovens finalistas, que tudo o que vem do cristianismo é mau, tanto mais, quanto se apresenta mascarado de bondade, mas, pelos vistos, ainda não se lhes abriram os olhos da mente. O curso universitário e a universidade têm esse terrível condão de lhes cegar os olhos das suas mentes cordiais, os únicos que vêem a realidade, para lá das máscaras e das encenações. Quanto mais mestres e doutores, mais cegos e guias cegos. É só por isso que os mais distintos em cada curso são logo escolhidos para postos-chave, nas grandes empresas transnacionais. E os mais medíocres, são logo direccionados aos partidos políticos e às dioceses cristãs para fazerem carreira, respectivamente, política e eclesiástica, irmãs siamesas uma da outra, semelhantes, ambas, aos espinheiros que só produzem espinhos e abrolhos, nenhum fruto que alimente a vida. O bispo António Francisco parece ter ficado deslumbrado, ao ver a Avenida dos Aliados de negro vestida e em grande reboliço, com o agitar das pastas e respectivas fitas multicores. E percebeu, de repente, que afinal este é o seu mundo e é esta a corte episcopal de que tanto precisa para se poder sentir inchado na sua inutilidade, enquanto clérigo celibatário e enquanto bispo residencial da diocese do Porto, uma função esvaziada de relação, de afecto, de ternura, de intimidade, medonhamente estéril e enfadonha, um tenebroso e contínuo faz-de-conta, de partir a alma ao mais insensível. Mas não a ele, pelo que se vê!…

Os pobres que o cristianismo financeiro está aí a produzir cada vez mais em massa e o cristianismo eclesiástico piamente acompanha com regular distribuição de missas, rezas esteriotipadas, sopa e outras caridades abjectas em que é perito e com as quais ainda ganha dinheiro e fama de bom e de santo, bem podem esperar na cruz, o instrumento de tortura que o cristianismo escolheu como seu símbolo e que anda por aí espalhada em tudo quanto é sítio, até no peito dos próprios bispos. Ou se rebelam politicamente, de dentro para fora, sem outras armas que não seja a sua permanente fome de pão, o da palavra, o da justiça e o da beleza, ou acabam todos mortos antes de tempo, com os respectivos cadáveres na bala comum. Quando, recentemente, entrou com pompa e circunstância, na sé catedral do Porto, vindo da de Aveiro, o Bispo apressou-se a dizer, na homilia da posse, que os pobres não podem esperar. E não podem. Mas se os pobres pensaram, como a generalidade da comunicação social pensou e, por isso, destacou o dito, que o bispo seria uma só carne com eles, ao jeito da parteira, para que eles ocupem, desarmados, os palácios do Poder, os bancos, os supermercados a abarrotar de coisas que faltam nas suas vidas e nas vidas dos seus filhinhos, os paços episcopais e tantas residências paroquiais por aí abandonadas, por falta de párocos, desenganem-se. O bispo António Francisco é todo unha e carne, sim, mas com o Poder, ele próprio o Poder n.º 1 no Porto. Dele e da sua diocese-empresa, os pobres, quando muito, podem esperar migalhas, nunca dignidade, liberdade, protagonismo social e político. Podem esperar rezas, missas e mais missas, homilias e festas de santas e de santos, procissões de velas, peregrinações a santuários de deusas ou nossas senhoras. Não o pão da palavra, da justiça, da beleza, que jamais vem das bandas do Poder. Se o quiserem comer/ digerir, têm de ser os próprios pobres a fazê-lo nascer de dentro deles para fora, como outros tantos filhos, filhas que dão à luz. Sempre uns com os outros ao modo dos vasos comunicantes.

O bispo do Porto, na esteira dos seus antecessores, dos quais se orgulha, não passa de um príncipe da igreja, mais, indigitado e reconhecido pelo papa de Roma. É a ele que tem de escutar, de obedecer, de citar nas suas intervenções públicas, não aos pobres. Cabe-lhe falar dos pobres, sim, mas sempre para os conter, social e politicamente, nunca para se relacionar com eles ao jeito da parteira, até que eles se rebelem, desarmados, e assumam os seus próprios destinos nas mãos. Aliás, nem ele próprio saberá que, por trás de toda aquela máscara com que o bispo de Roma sistematicamente se apresenta perante os seus inúmeros súbditos, sempre está o grande padrinho da máfia que é o estado do Vaticano. Uma coisa, porém, ele sabe e é esta: Sabe que lhe cabe ser no território sob a sua exclusiva jurisdição, o alter ego do papa. Tudo o que não for nesta linha, é depressa impedido e proibido. E, se tiver consciência e ousar obedecer-lhe, em vez de ao padrinho da máfia de Roma, logo verá o seu posto em risco e a sua carreira eclesiástica sabotada. Porque para isso existe em Lisboa um outro bispo, que não o patriarca que foi do Porto pelo barrete de cardeal, mas o da Nunciatura apostólica, que até participa nas reuniões da CEP-Conferência Episcopal Portuguesa. E tem direito a utilizar a mala diplomática, dentro da qual vão todas as informações sobre como cada bispo está a ser ou não alter ego dode Roma.

Não são, pois, os pobres que aquilatam dos comportamentos do bispo do Porto e dos outros bispos de outras dioceses do país, mas sim o núncio apostólico. Os pobres são os nossos juízes, sim, mas apenas à luz da Fé e da Teologia de Jesus, e do próprio Jesus, com as quais e o qual o cristianismo eclesiástico e financeiro e os bispos e demais clérigos não querem nada, que não seja ignorá-las e matá-las, ignorá-lo e matá-lo. Esta missa da bênção das pastas na Av. dos Aliados do Porto é disso cabal e manifesta prova. Os pobres não tiveram lá lugar, a não ser na pessoa de um ou outro mendigo que por lá tentou a sua sorte. Pobres por perto do bispo, nem vê-los! Pelo que, ou ospobres se rebelam politicamente, ou bem podem esperar, a vida inteira. Cada vez mais pobres e cada vez em maior número.

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