A CRISE GREGA, de NUNO JÚDICE – tradução italiana de SIMONETTA MASIN

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A crise grega

 

 

Foi nas ilhas gregas que vi o mediterrâneo

completamente azul, sem sombra de transparência. «E

ainda bem que é assim», disse-me a rapariga grega que

servia cafés à beira das rochas. «Conheci alguns que

quiseram rasgar o mar para ver o que ele escondia,

e nunca mais voltaram.» Percebi o que ela queria: que

eu rasgasse a superfície do mar, e descesse os degraus

do abismo que nos prende até à eternidade. «Se vieres

atrás de mim, e me puxares de volta, farei o que

desejas.» Mas ela fingiu que não percebia a minha

língua, embora falássemos num inglês de aeroporto.

 

 

E quando chegámos ao grande anfiteatro, debaixo

das colinas de pinheiros bravos e dos bosques de

ciprestes, o céu estava completamente limpo, como se

os deuses já tivessem deixado de existir. Ainda recitei

um verso em grego antigo, pondo as aves em

debandada. «Viste o que fizeste?», gritou-me a rapariga

grega. «Encheste o céu com uma nuvem de pássaros!»

E ficámos a olhar para eles, à espera de saber para

onde se dirigiam. Mas fazia-se tarde para apanhar

o barco. «As ilhas fazem-me claustrofobia», disse

à rapariga grega. E entrei a correr para o barco que

já tinha os motores a trabalhar, sem lhe pagar o café.

 

 

Nuno Júdice, in Navegação de acaso, Dom Quixote, Lisboa, 2013

 

 

 

 

La crisi greca

 

 

È stato nelle isole greche che ho visto il mediterraneo

completamente azzurro, senza ombra di trasparenza. «E

meno male che è così», mi disse la ragazza greca che

serviva il caffé vicino agli scogli. «Ho conosciuto qualcuno che

voleva strappare il mare per vedere quello che nascondeva,

e non sono più tornati.» Compresi quello che avrebbe voluto: che

strappassi la superficie del mare, e scendessi i gradini

dell’abisso che ci lega fino all’eternità. «Se vieni

dietro di me, e mi spingi al ritorno, farò quello che

desideri.» Ma lei finse di non capire la mia

lingua, benché parlassimo un inglese da aeroporto.

 

 

 

E quando arrivammo al grande anfiteatro, sotto

le colline di pini silvestri e di boschi di

cipressi, il cielo era completamente limpido, come se

gli dei avessero già smesso di esistere. Allora recitai

un verso in greco antico, mettendo gli uccelli in

fuga. «Hai visto che hai fatto?», mi sgridò la ragazza

greca. «Hai riempito il cielo di una nuvola di passeri!»

E rimanemmo a guardarli, in attesa di sapere verso

dove si dirigevano. Ma si faceva tardi per prendere

la barca, «Le isole mi fanno claustrofobia», dissi

alla ragazza greca. E cominciai a correre verso la barca che

aveva già i motori accesi, senza pagarle il caffé.

 

Trad. ita. di Simonetta Masin

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