Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»- III – por António Gomes Marques

Imagem1Curiosamente, na Constituição de 1933 afirmava-se o respeito pelos direitos e liberdades dos cidadãos, mas logo se acrescentava que estes deveriam estar sempre submetidos aos interesses do Estado.

Entretanto, em 1917 acontece a Revolução Soviética. Passemos a palavra a Bento Gonçalves, na sua obra «Palavras Necessárias»(7): «A Revolução Bolchevique havia criado muita simpatia entre os trabalhadores portugueses e alguns indivíduos mais radicais da pequena burguesia. Esta simpatia não tinha a determiná-la o conhecimento do marxismo. Eram também desconhecidas a estratégia e a táctica do Partido de Lenine. Entretanto, sabia-se que o proletariado russo esmagara a sua burguesia e se apoderara do poder político. Como é óbvio, reinava muita confusão acerca do maior acontecimento histórico da vida da humanidade.»

Outro facto importante acontece em 6 de Março de 1921 – a fundação do Partido Comunista Português. Apelamos de novo ao testemunho de Bento Gonçalves, que escreve no citado livro: «Em princípios de 1921, a ideia da criação dum Partido revolucionário estava mais desenvolvida. De envolta com os proletários havia, agora, muitos indivíduos de profissões liberais que discutiam pelos cafés a possibilidade de criar um Partido.

(…)

Nascimento da Cunha, antigo anarquista, (…). Foi ele quem, iludindo o controlo cegetista, fez inserir nas colunas da «Batalha» um artigo em que preconizava a formação do Partido Comunista. O caso tornou-se muito discutido e a C. G. T.(8) fez imediatamente fogo contra a ideia. Mas, a despeito da discordância cegetista, promoveram-se várias reuniões no Sindicato dos Caixeiros e foi delas a resolução da constituição do Partido Comunista.» (págs. 60/61).

O regime instaurado graças ao golpe de 28 de Maio de 1926 proibe o PCP no final dos anos 20 do século passado, embora as suas sedes já tivessem sido encerradas pelos senhores do poder em 1927, vindo a ser reorganizado a partir de 1929 sob a direcção de Bento Gonçalves, a partir das suas células clandestinas.

Ora é neste ambiente que os jovens que viriam a criar o Movimento Neo-Realista se foram tornando adultos.

Para além dos factos relatados, há que referir que aqueles jovens receberam outras influências, nomeadamente no campo literário. Da Geração de 70, com Antero de Quental, Eça de Queiroz e Oliveira Martins à cabeça, cujo socialismo contestam; Fialho de Almeida, que Alves Redol refere como um dos escritores que o influenciaram, dizendo mesmo «foi decisivo na minha fase inicial»; dos seus contemporâneos como Raúl Brandão, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, no que aos escritores portugueses respeita; a influência, ainda pouco estudada, de autores americanos, como William Faulkner, John Dos Passos, John Steinbeck, Erskine Caldwell e Ernest Hemingway, mas que os neo-realistas conheciam; dos escritores brasileiros como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Armando Fontes e José Lins do Rego, para além da grande literatura russa, com realce para Tolstoi, Dostoievski, Gorki e Tchekhov.

A propósito de Jorge Amado, convém lembrar o que Mário Dionísio escreve, referindo-se às obras «Cacau» e «Suor»: «Até os títulos nos dão   essa noção de panfletarismo, de combate. Ora o romance não deve ser um discurso de parlamento, qualquer coisa como uma grande tirada retórica, salvo as devidas distâncias. Carl (9) expôs justamente a opinião de que quanto mais forçado for o intuito do autor, menos convincente será a obra. E daí a conclusão da superioridade, sob o ponto de vista social, da obra de Balzac sobre a de Zola. Parafraseando, a literatura panfletária parece-nos uma doença infantil da literatura social.» E mais à frente no mesmo artigo, a propósito da linguagem utilizada por Jorge Amado naquelas obras: «Muitas expressões, algumas delas por sinal curiosíssimas, devem ter sido as próprias ouvidas pelo autor aos personagens que nos pinta.

E aqui vemos mais uma vez o inconveniente que pode trazer à obra realista a lamentável confusão entre realismo e realidade (não será o mesmo problema da diferença entre criação e retrato, por exemplo em pintura, de que, e muito bem, se tem falado ultimamente entre nós’).» (10)

Mas não nos adiantemos, voltaremos à questão aqui colocada por Mário Dionísio, fundamental para a definição do que é o Movimento Neo-Realista.

Voltemos às leituras, agora aquelas que me parecem terem contribuído para esta geração de neo-realistas cimentar uma consciência política que os levou ao combate à ditadura fascista em Portugal.

   Apesar da feroz censura, a filosofia marxista não deixa de ser divulgada em Portugal, sobretudo após 1930, graças a intelectuais comprometidos com a luta anti-fascista como José Rodrigues Miguéis, Bento de Jesus Caraça, Álvaro Salema, Vasco Magalhães-Vilhena, Álvaro Cunhal e, o mais jovem destes, Mário Dionísio, um dos criadores do Movimento e, na nossa opinião, o mais rigoroso dos seus teóricos. (11).

Uma especial atenção nos deverão merecer, para além dos textos de Karl Marx, provavelmente em traduções francesas ou castelhanas, outros teóricos russos: Nicolai Bukharine, importante teórico bolchevique(12), Anatoli Lunacharsky, indicado para Comissário para a Educação após a Revolução de 1917, e, talvez o mais estudado pelos neo-realistas, Georges Plekhanov, de que destaco a sua obra «A Arte e a Vida Social». Alves Redol, por exemplo, cita este livro e o seu autor, assim como Bukharine, numa conferência sobre «Arte» que profere, em 17 de Junho de 1936, no Grémio Artístico Vilafranquense.

Leave a Reply