1. A história da desigualdade , segundo PIKETTY, em seis gráficos
JOHN CASSIDY, (New Yorker)
Parte I
Na revista desta semana, escrevi uma longa peça sobre “Capital in the Twenty-first Century,” um novo livro sobre a desigualdade crescente escrito por Thomas Piketty, um economista francês, que está a provocar imensos comentários e gerar mesmo debates. (Brad DeLong publicou mesmo um resumo muito útil de alguns dos comentários iniciais). Eu penso ir mais longe noutros textos para discussão no futuro mas, para já, pensei que primeiro seria útil retratar a essência da história do Piketty utilizando para isso uma série de gráficos.
Os gráficos não são simplesmente ilustrativos: eles são uma parte essencial da contribuição de Piketty. Há quinze ou vinte anos atrás, os debates sobre a desigualdade tendiam a ser expressos através de gráficos inteligentes mas complicados, tais como o coeficiente de Gini e o índice de entropia de Theil, que tentava reduzir a distribuição de rendimento total num só número. Uma coisa que Piketty e os seus colegas Emmanuel Saez e Anthony Atkinson tem feito é o de popularizarem o uso de gráficos simples que são de mais fácil compreensão. Em particular, eles apresentam gráficos em que se mostra a repartição do rendimento global e assim como da riqueza de um país por vários grupos ao longo do tempo, incluindo o decil superior da distribuição do rendimento e o percentil superior (respectivamente, os dez por cento superior e aqueles a que chamamos de “os um por cento”).
O grupo de Piketty não inventou esta maneira de ver as coisas. Outros economistas, tais como Ed Wolff, da Universidade de Nova York e Jared Bernstein e Larry Mishel, os criadores da série de valor incalculável State of Working America têm utilizado tabelas e gráficos semelhantes nas suas publicações. Mas em parte por terem utilizado novas fontes de dados, tais como o registo individual de impostos e em parte por expandir a pesquisa a outros países, Piketty e os seus colegas desenvolveram os seus gráficos para reformular o debate sobre a desigualdade por muitos países.
Durante muito tempo, o debate centrou-se quase inteiramente sobre o que estava a acontecer ao rendimento mediano. O que, inevitavelmente, levou a discussões sobre a globalização e sobre o enviesamento provocado pelo progresso técnico a favor do trabalho especializado assim como a debates centrados na educação e sobre as novas formação técnicas, sobre os novos saberes. Agora, graças a Piketty et al., os enormes ganhos daqueles que estão no topo da escala das remunerações não podem ser escamoteados. E isto significa que as questões da política e da redistribuição do rendimento não podem ser evitadas também.
O primeiro gráfico é muito simples e diz respeito apenas aos Estados Unidos. Ele regista a parte do rendimento global que é apropriado pelas dez por cento das famílias de topo da escala de remunerações, a partir de 1910 a 2010. Em termos gerais, esta evolução da repartição assume a forma de U. A desigualdade subiu abruptamente nos ruidosos anos 20 do século passado, Roaring Twenties, e depois caiu bruscamente na década e meia após o grande Crash de Outubro de 1929. Desde os meados dos anos quarenta até aos meados dos anos setenta, esta distribuição permaneceu bastante estável e, a partir daí, passou a subir e atingiu ou superou mesmo o nível de 1928 em 2007. (O gráfico mostra a parte do decil superior a recuar um pouco após a crise financeira de 2007 a 2008. Novos gráficos para 2012 de Saez, que foram publicados demasiado tarde para serem incluídos no livro do Piketty, mostram a linha a alcançar um outro novo valor mais alto, de mais de cinquenta por cento).
O segundo gráfico mostra a proporção de rendimento que é tomada pelos um por cento no mesmo período, e a linha verde-azulado, que inclui os rendimentos de todos os tipos, tem a mesma forma em U. (Mais uma vez, os números de 2012, que não estão incluídos, mostram um outro avanço). O percentil superior não tem tomado uma grande parte do rendimento total desde 1928. Curiosamente, o recente aumento na sua parcela de rendimento é um pouco menos dramático quando a análise se limita aos rendimentos salariais. A diferença entre a linha de baixo (rendimento salarial) e a linha mais alta (rendimento total) é contabilizada com os rendimentos do capital — os pagamentos de juros, dividendos e ganhos em capital, ou seja, as mais valias financeiras. Porque eles possuem muita riqueza, os chamados um-por-cento recebem muito do seu rendimento nesta forma.
O gráfico 3 expressa a análise de que Piketty chama de outros “países anglo-saxónicos” — Austrália, Canadá e Reino Unido — e confirma que a crescente desigualdade é um fenómeno global. Desde 1980, a percentagem de rendimento global que vai para os um por cento aumentou acentuadamente nessas três nações, também. No entanto, os Estados Unidos ainda aparecem como o vencedor da corrida da desigualdade. Isto talvez não seja muito de surpreender : tendemos a pensar nos EUA como um país onde a desigualdade na repartição é muito grande, mas é interessante notar que esta percepção nem sempre é precisa. O gráfico mostra que, há noventa anos atrás, os Estados Unidos e o Canadá tinham aproximadamente o mesmo nível de desigualdade, de acordo com esta medida, enquanto o Reino Unido era um lugar consideravelmente menos equitativo. Hoje, porém, os EUA tem poucos rivais. Mesmo em termos de rendimento gerado pelo trabalho, sublinha Piketty, o nível de desigualdade nos Estados Unidos é “provavelmente maior do que em qualquer outra sociedade em qualquer momento no passado e em todo o mundo”.
(continua)
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Ler a conclusão deste artigo de John Cassidy amanhã, à mesma hora, em A Viagem dos Argonautas.





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