MUNDO CÃO – Afinal a “saída da crise” já encalhou – por José Goulão e Pilar Camacho, Bruxelas

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Peter Schrank (The Economist)

Altos funcionários da Comissão Europeia não escondem sorrisos quando convidados a comentar, em privado, a onda de discursos contraditórios trocados entre o ainda presidente Durão Barroso e a chanceler alemã Angela Merkel. “A política europeia é assim, às vezes uma versão ainda mais baixa do que algumas políticas nacionais”, segundo uma funcionária dos gabinetes do comissário Joaquín Almunia.
“Eleições europeias são a causa próxima”, diagnostica-se nos bastidores das instituições europeias sem se valorizar muito uma “polémica que vai e vem e se acendeu agora porque os últimos índices económicos põem em xeque a propaganda montada em torno da mentira da saída da crise”. No essencial, “Barroso e Merkel estão de acordo à volta da austeridade, são os seus gestores e ela é para continuar, com um retoque aqui e ali porque é a política dos mecanismos financeiros”, diz a funcionária do vice-presidente e comissário da Concorrência. “Porque razão afinal se fala tanto nos mercados no discurso oficial das comunidades?”, pergunta.
Os últimos dados europeus sobre a situação económica são “um balde de água fria” para o Partido Popular Europeu (PPE), reconhece um assessor de um deputado da direita europeia. “Vêm na pior altura porque apesar de os socialistas serem tão responsáveis pela política de austeridade – basta fazer um apanhado das votações no Parlamento Europeu para se perceber isso – eles agora não deixarão de aproveitar para tentar distanciar-se e dar gás à candidatura do alemão Martin Schulz”.
A austeridade, principalmente em tempo de eleições, é a tal coisa que existe e, pelos vistos, ninguém a fez. É o regime da finança – mas a finança precisa dos políticos para estender a toda a sociedade o regime de salários baixos, liquidação gradual do sistema de segurança social, eliminação de direitos laborais no mercado de trabalho.
“José Manuel Barroso ainda é presente, mas já é passado como presidente da Comissão”, afirma a funcionária dos gabinetes de Almunia. “Para a senhora Merkel, Jean Claude Juncker é passado e é também futuro como candidato do PPE à Comissão Europeia. Não faz mal apontar o dedo a Barroso, mesmo sendo do PPE, se for para desanuviar o ambiente austeritário à volta de Juncker, o que também tem alguma justiça porque quando foi presidente da Zona Euro chegou a fazer críticas à austeridade. Se um dia for preciso voltar a fazer campanha por Barroso, nem que seja para um cargo em Portugal, a senhora Merkel ou alguém por ela não hesitarão em dizer o contrário para fazer dele um herói europeu”.
Do lado dos socialistas, os índices económicos “vêm demonstrar que temos razão quando criticamos a política de austeridade”, diz Ambrosius Ransonnet durante as suas tarefas de campanha eleitoral num departamento do PS francófono em Bruxelas. Questionado sobre o facto de o partido do candidato dos socialistas à Comissão Europeia ser aliado da senhora Merkel no governo alemão e de os socialistas de Hollande pouco se diferenciarem, em França, da gestão de Sarkozy,
Ransonnet afirma que “existem situações distintas e casos, como o francês, em que ainda não houve tempo para obter resultados da estratégia seguida”.
Os índices que estão na base da polémica revelam que o crescimento económico da Zona Euro voltou a ser negativo no primeiro trimestre deste ano – já está assim há seis trimestres – expondo a maior recessão da história da moeda única europeia. E os chamados “motores” da União, a França e a Alemanha, estão pior do que há um ano por esta altura.
“Apesar das declarações optimistas dos dirigentes da Grécia, Espanha, Irlanda, Portugal, esperem pelo que lhes vai acontecer neste contexto”, comentou a funcionária do gabinete do comissário espanhol da Concorrência. “A saída da crise não passa de propaganda: ainda não começou a navegar e já encalhou”.
Em termos de fundo, segundo uma opinião corrente nos gabinetes das Comunidades, as declarações da chanceler Merkel pondo em causa a austeridade e Durão Barroso não podem ser desligadas da eterna discussão sobre a ortodoxia alemã em torno do estatuto e funcionamento do Banco Central Europeu.
“Claro que a chanceler alemã tem de encontrar bodes expiatórios em todo o lado, seja Barroso ou qualquer outro que calhe conforme o momento”, diz um funcionário superior do Conselho Europeu. “A austeridade é a política resultante do Banco Central Europeu tal como existe, como instrumento ao serviço dos grandes bancos europeus”, acrescenta. “Isto é a austeridade, e os políticos que decidem no espaço europeu são todos responsáveis por ela porque fazem o que o BCE determina”.
O nosso interlocutor é um funcionário veterano da instituições europeias, agora colocado nos serviços presidência de Van Rompuy.
“Houve tempos em que acreditei nisso a que chamam o ideal europeu, mas esses tempos há muito que já lá vão. Repare-se: a Alemanha conseguiu que finalmente que o défice conjunto da União esteja à volta dos mágicos 3,5% estabelecidos na génese do euro. E depois, qual é o resultado prático? Uma economia europeia em cacos, sem competir em nome da competitividade, albergando tragédias sociais que há muito não existiam. Posso ter muitas dúvidas, mas esta certeza ninguém me tira: não foi para isto que foi criada a Comunidade Económica Europeia”.

José Goulão e Pilar Camacho, Bruxelas

1 Comment

  1. “… a Alemanha conseguiu que finalmente que o défice conjunto da União esteja à volta dos mágicos 3,5% estabelecidos na génese do euro. E depois, qual é o resultado prático? Uma economia europeia em cacos, sem competir em nome da competitividade, albergando tragédias sociais que há muito não existiam. Posso ter muitas dúvidas, mas esta certeza ninguém me tira: não foi para isto que foi criada a Comunidade Económica Europeia”.
    Ah!Foi para isto foi!
    A política europeia e as políticas nacionais estão eivadas de feroz darwinismo social. Os possidónios que que se autointitulam de “elite governante” acreditam na sobrevivência do mais forte aplicada à sociedade e à economia, A provar o que digo está a impunidade do sistema financeiro e a imolação das pessoas aos desígnios dessa finança – o que acha que são as swap e as ppp?
    Já que estamos em época de discussão política sob a égide de mais eleições europeias, que façamos as perguntas certas – é um repto aos jornalistas.

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