FRATERNIZAR – O que fica do 13 de Maio 2014? – por Mário de Oliveira

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O que fica do 13 de Maio de 2014? O sol não bailou como mentirosamente se diz que aconteceu em Outubro de 1917. Não bailou, mas esturricou sem dó nem piedade os milhares de pessoas que, doentiamente, insistem em fazer de figurantes neste teatro de mau gosto, sempre igual, onde os clérigos, com os bispos à cabeça, todos coroados de mitras de dois bicos, anel no dedo, cruz de pedras preciosas dependurada do pescoço, são reis e senhores, como se ainda estivéssemos em plena Idade Média, e não no início do terceiro milénio. As populações que penam a pé, pelas bermas das estradas, apresentam-se movidas por um ancestral Medo, a que fazem questão de chamar fé, e que as transforma em eternos e desgraçados pagadores de promessas. Já os clérigos católicos que rumam confortavelmente a Fátima sabem bem o que fazem e sabem bem que o que fazem é indigno de seres humanos, ainda que seja próprio de clérigos cristãos, já que para sacrificar as populações é que existe o cristianismo, o eclesiástico e o financeiro. Sabem bem que alimentar uma fé que leva as populações a autoflagelar-se, para cúmulo, em público, é mais um castigo, a acrescentar a tantos outros que elas já estão condenadas a ter de padecer. Melhor fora, então, que as populações não tivessem este tipo de fé, porque, assim, já se não metiam a protagonizar este tipo de actos, com os quais põem em risco a sua saúde e, nalguns casos, a sua própria vida. É que a “mulher” ou “senhora” que os atrai a Fátima é infinitamente menos capaz do que elas.

Na verdade, aquela mulher ou senhora nem sequer sai da sua gaiola dourada para as receber à chegada, e, se, em certos momentos, parece aproximar-se delas, é porque há alguém que se dispõe a carregá-la e a levá-la a arejar na noite do dia 12, por entre muitas velas acesas, e ao meio-dia do dia 13, por entre muitos lenços brancos que multidões anónimas agitam no ar, como quem tenta espantar o Medo e a insegurança com que são tecidos os seus quotidianos. Tão pouco a imagem ouve o que as multidões lhe dizem/sussurram, menos ainda lhes acena, quando elas, desesperadas e em lágrimas, lhe acenam. Cada 13 de Maio é, por isso, uma tragédia nacional e internacional que se arrasta, vai para cem anos. E quantos mais anos, mais tragédia. Porque os problemas das populações do país e do mundo não se resolvem com este tipo de peregrinações, pelo contrário, agravam-se de ano para ano, de geração para geração, e, se não fossem as médicas, os médicos, as enfermeiras, os enfermeiros aplicar-se e dedicar-se às populações, as doenças avançariam por aí fora e matar-nos-iam, como tordos, por mais velas de cera que as populações, desesperadas, comprem e ponham a arder numa fornalha de cheiro nauseabundo e num inferno de fogo que, por mimetismo, acaba por pegar-se às matas do país, na assim chamada “época dos incêndios”, que cada 13 de Maio simbolicamente pré-anuncia.

Para este 13 de Maio 2014, veio presidir o patriarca latino de Jerusalém. Fez uma viagem turística VIP, por conta do santuário, escrevinhou, ou fez outro escrevinhar por ele, umas quantas frases cheias de lugares comum e coisas mais que banais, para outros lerem ao microfone, durante as duas missas a que presidiu, já que não sabe falar português e tão pouco o gestor do santuário optou por uma tradução simultânea que, apesar de tudo, sempre teria algum afecto e marca pessoal, valores que obviamente não se cultivam em Fátima. O bispo de Leiria-Fátima sabe muito bem que as populações que correm para aquela esplanada com tudo de geena e de mar de dores, vão apenas para responder a um ancestral Medo com que andam possessas, como um demónio. Não vão para ouvir prédicas de bispos, de patriarcas ou de papas, muito menos, para cultivar afectos. Vão porque o Medo as faz ir. Como quem cumpre um fado, um destino. Sob pena de morrerem. De Medo.

Fátima, com os seus dois grandes santuários de tortura das populações, e os seus negócios clericais, missionários, conventuais e laicos, é, porventura, a cidade mais inumana e mais anestesiadora do mundo. Todas as frustrações e todos os medos, todas as dores e todos os pedidos que lá vão desaguar, ficam por atender e voltam com as populações, quando elas regressam às suas casas. Até ao próximo 13 de Maio anestesiador do ano seguinte. Aquele altar, que se tem por altar do mundo, é o cúmulo da inumanidade, da alienação. Devora as populações, quando mais parece acolhê-las. Rouba-lhes a dignidade, a auto-estima, o ouro, o dinheiro. É um auto-flagelo público que os pagadores de promessas não dispensam. Os rostos dos auto-flagelados fixos na imagem não enganam. A missa dos clérigos nada lhes diz. As homilias são uma parte do castigo que todos suportam, numa tentativa de aprisionarem o Medo que os acossa e faz andar, andar, andar, não para a liberdade, sempre para mais e mais Medo.

Lugares como Fátima deveriam ser banidos da face da terra. Em nome da Humanidade. São um estímulo à autoflagelação e uma espécie de autoglorificação pública dos flagelados. Fossem banidos, e as populações perceberiam, finalmente, que o Medo que as acossa e as faz correr como quem cumpre um fado, um destino, tem de ser combatido por elas, e não alimentado por elas. O Medo é o inimigo nº 1 da Liberdade, da Autonomia, da Reciprocidade, da Dignidade.

Arrasemos, pois, quanto antes, numa celebração festiva, Fátima e, com ela, todos os altares do mundo erguidos e alimentados pelo Medo. Só então as populações humilhadas e espoliadas perceberão, finalmente, que são elas que têm de tomar os seus destinos e os destinos do planeta nas próprias mãos, em lugar de continuarem a confiá-los a clérigos/pastores de míticas deusas, míticos deuses, e a políticos com fome de poder, que só existem como criação do Medo. Nomeadamente, o Medo de sairmos definitivamente do infantil, da menoridade, para nos assumirmos na história, mão-na-mão uns com os outros, e levarmos a vida que em nós se tornou consciência, à plenitude e à integralidade do Humano. De modo que sejamos mulheres, homens, outros Jesus, terceiro milénio adiante.

https://www.youtube.com/watch?v=TZeG8oqODEg

 

1 Comment

  1. * A sua luta não pára por um outro rumo na Igreja de Jesus .*

    *Simplesmente ,o que diz não traz nada de novo -critica apenas .Afinal quais seriam os caminhos a instaurar?Maria *

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