Na apresentação de:«Alves Redol. Fotobiografia. Fragmentos autobiográficos»- VII – por António Gomes Marques

Imagem1Não vamos analisar toda a obra de Alves Redol, muito extensa para que a isso me atreva, mesmo na minha qualidade de leitor, mas atrevemo-nos a discorrer um pouco sobre um dos seus romances mais importantes e mais exemplificativos do conceito de arte do Movimento Neo-Realista, «Os Reinegros»; no entanto, antes de desta falarmos, voltemos à que se viria a tornar histórica conferência de Alves Redol, em Vila Franca de Xira, sobre «Arte», e histórica por ter estado na origem de uma outra polémica em que Alves Redol não poderia deixar de ter papel activo, que ficará conhecida como a polémica com os presencistas, em que estes defendiam que a arte não tinha qualquer papel a desempenhar como plataforma para a consciencialização das massas trabalhadoras, eram assim os defensores da arte pela arte, enquanto os neo-realistas, numa época em que a Guerra Civil de Espanha ocupava o dia-a-dia dos jovens neo-realistas que, no testemunho de Mário Dionísio no prefácio aos «Poemas Completos», de Manuel da Fonseca, nos informa de que chegavam a juntar-se sobretudo «Para saber, hora a hora, como iam as coisas em Espanha.», defendiam, nomeadamente, servindo-me das palavras de Alves Redol:

«A arte pela arte é uma ideia tão extravagante em nossos tempos como a de riqueza pela riqueza, ou de ciência pela ciência»;

«Todos os assuntos devem servir em proveito do homem, se não querem ser uma vã e ociosa ocupação; a riqueza existe para que toda a humanidade goze; a ciência para guia do homem; a arte deve servir também para algum proveito essencial e não deve ser apenas um prazer estéril»

«A arte deve contribuir para o desenvolvimento da consciência e para melhorar a ordem social». (17)

Nestas palavras podemos verificar a importância da obra de Georges Plekhanov, «A Arte e a Vida Social», para os neo-realistas e, em particular, para Alves Redol. O autor russo, é, não tenhamos dúvidas, de grande influência. Lembremos que Plekhanov considera que «A tendência à arte pela arte surge e se afirma quando existe divórcio irremediável entre as pessoas que se dedicam à arte e o meio social que as rodeia». (18)

IV – Uma obra de Alves Redol

Para finalizar, falemos um pouco de «Os Reinegros», mas antes direi de novo que tudo o que deixo dito nesta minha comunicação é referido na Fotobiografia que hoje apresentamos, abrindo caminho a qualquer investigação sobre o Movimento Neo-Realista e, sobretudo, ao estudo profundo de toda a vida e obra de Alves Redol, ou seja, trata-se de uma obra que cumpre, de forma exemplar, o seu objectivo.

Não nos é possível, também pela razão de que o texto já vai longo, falar de toda a obra do autor fotobiografado. Passemos então a «Os Reinegros».

Esta obra foi escrita em 1944, portanto entre as 1.ªs edições de «Fanga» (1943) e de «Anúncio» (1945), mas apenas publicada em Novembro de 1972, três anos após a morte do seu autor. Qual a razão? O seu autor não teria ficado contente com o resultado? Nada mais falso. A razão da sua não publicação residia na censura prévia a que as obras de Alves Redol tinham passado a ser sujeitas. Lembremos que o habitual era a publicação da obra e, só depois, acontecia a actuação da polícia política, apreendendo e proibindo assim muitas obras dos autores portugueses. Há quem afirme que Alves Redol foi o único escritor português a ter de apresentar os seus originais à censura prévia, embora eu julgue que o mesmo também terá acontecido a Romeu Correia. As várias tentativas de Redol para o publicar não obtiveram êxito.

O tema é bem diferente dos livros anteriores. Desta vez, o autor desloca ex-camponeses para a cidade de Lisboa, acompanhando-os na sua tomada de consciência política da necessidade da implantação da República, particularmente da sua personagem principal, Alfredo Reinegro, que começa como marçano na mercearia do Sr. Almeida, de onde acaba por se despedir por se sentir ultrajado e depois de uma conversa com um trabalhador que o encoraja. Na rua vai ouvindo falar da República e da necessidade da sua implantação como sendo o único regime que poderia contribuir para a libertação das massas trabalhadoras, conversas que se tornam contínuas no contacto com os colegas de trabalho, na construção civil primeiro e no porto de Lisboa depois. Assiste, como observador interessado, ainda hesitante e, como tal, sem coragem para entrar na luta que, de armas na mão, derrubou a Monarquia.

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