A CANETA MÁGICA – POESIA NEO-REALISTA OU NEO-REALISMO NA POESIA? – por Carlos Loures

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Lembro-me de nos anos 50, nos redutos surrealizantes de Lisboa, nomeadamente no grupo do Gelo, o neo-realismo ser considerado uma disfunção da razão estética, uma deformidade insanável do espírito literário; recordo também quando, na Pastelaria Coimbra, da Alexandre Herculano, o Romeu Correia ao apresentar-me num grupo onde Fernando Namora pontificava, me rotulou de poeta surrealista, a súbita eclosão de sorrisos. Mas no Gelo respeitava-se e valorizava-se a posição política dos neo-realistas. Luiz Pacheco tinha uma admiração muito grande pelos que resistiam ao fascismo. De um emblemático intelectual de esquerda o ouvi dizer, por estas ou por outras palavras – “como escritor, é uma besta, mas é um cidadão exemplar». Cesariny desvalorizava a luta política – quem puxasse a corda do sino a Estaline, nada valia para ele. Diferença que veio a redundar na adesão de Pacheco ao PCP e de Cesariny ao PPD.PSD.

Embora haja críticos e historiadores da literatura que consideram que o neo-realismo em Portugal se caracteriza essencialmente pelo discurso ficcional. Houve mesmo quem,como Mário Sacramento, fosse da opinião de que não existe uma poesia neo-realista. É uma questão de perspectiva. Caso se esteja a falar numa forma tipicamente neo-realista de fazer poesia, então talvez essa forma não exista. Mas há outros aspectos a considerar para elém da forma e não é na forma que palpita o coração do neo-realismo não reside na forma. A denúncia da injustiça social e da repressão política contituíram e constituem o tema dilecto do movimento, tema plasmado na dicotomia fascismo-marxismo, que no final dos anos 30 assumia contornos trágicos. No plano histórico, o movimento  representa, como salientou Óscar Lopes, um fenómeno similar ao da Geração de 70 –  as épocas de grandes clivagens políticas e sociais, dão lugar a novas formas literárias e artísticas. A Geração de 70 foi um eco da grande crise europeia gerada pela guerra franco-prussiana e pela Comuna de Paris. Nas suas formulações, os escritores dessa geração, ultrapassando o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, revolucionaram várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do Realismo. Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins e outros, desencadeando a sua luta com o confronto com os ultra românticos do “Bom senso e do Bom gosto”, reflectiram nas suas obras o transpor desse limiar que deixava para trás o Romantismo e punha o escritor e o artista face à luz de uma nova realidade. Na sua conferência do Casino, Eça em «A Literatura Nova – O Realismo como nova expressão de arte», colocou a sua tese dentro do espírito revolucionário, concluindo-a com a condenação do Romantismo, acusando-o de atraiçoar a revolução e de corromper os costumes. «Ou se há-de tornar realista ou irá até à extinção completa».

Ferreira de Castro com Emigrantes (1926) e A Selva (1930), as obras iniciais de Jorge Amado, bem como as de Graciliano Ramos ou Lins do Rego, constituem como que uma proto-história do movimento. Fernando Namora, Joaquim Namorado, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, nas suas primeiras obras, Mário Dionísio e Manuel da Fonseca, são os seus pioneiros. A revista coimbrã Vértice, cuja publicação se iniciou em 1942, é associada à matriz do movimento, embora se reconheça que outros contributos vieram, nomeadamente da Seara Nova. Como diz Eduardo Lourenço: «É a esta revista dos anos 40, à Vértice que lenta, mas firmemente – até por ausência de competidores – se descobre e se propõe como “compagnon de route” (expressão pouco conhecida então) de um “neo-realismo” que era sua referência». Na poesia, pode considerar-se Álvaro Feijó (1916-1941) como um precursor da poesia neo-realista. Porém, a utopia socialista está sempre presente na poesia dos poetas neo-realistas; quando denunciam o cinzento quotidiano vivido sob a ditadura, pois sob essa escrita, como num palimsesto, pode ler-se a cor viva do futuro sonhado. Existe, quanto a mim, uma poesia neo-realista que se define pela temática. Formalmente, é multiforme. Se a obra poética de Manuel da Fonseca constitui um paradigma, vê-se que ela é subsidiária de muitos contributos, empréstimos por assim dizer, do surrealismo e, inclusive, do ponto em que o gongorismo de Federico García Lorca e o surrealismo se encontram. A poesia de Manuel da Fonseca, embora pela sua temática se integre na filosofia do movimento, usa uma linguagem rica, muito próxima da de Federico García Lorca que, como se sabe, era rica, ornada de metáforas. A lírica de Manuel da Fonseca (e a sua novelística também) rompe com o despojamento formal que constituía uma das imagens de marca do neo-realismo, um movimento que por esse mundo fora era designado por realismo-socialista.

Fernando Namora, outro dos pioneiros da poesia do movimento com os poemas de As Frias Madrugadas (1938), parece, apesar de tudo, estar mais próximo da estética e dos cânones. Carlos de Oliveira é outro dos escritores que, do ponto de vista formal, se afasta da «norma». A existência de um «estilo literário neo-realista» não é visível, senão talvez em epígonos e em escritores menores a quem a crítica rotulou de «neo-realistas», não raramente dando ao termo um sentido pejorativo. Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Joaquim Namorado, José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, era gente, toda ela com um universo e um estilo próprios. Todos irmanados no objectivo de denunciar as injustiças sociais, a repressão política, todos diferentes na forma de o fazer. Detendo-nos no poema de Manuel da Fonseca, “Domingo”, entre os três primeiros versos – “Quando chega o domingo,/faço tenção de todas as coisas mais belas/que um homem pode fazer na vida.”, e os três últimos – “Domingo que vem,/eu vou fazer as coisas mais belas/que um homem pode fazer na vida!”, existe todo um universo de frustrações, oportunismos, sujeições, exploração – o mundo capitalista descrito cruamente:”Há mais amargura nisto/ que em toda a História das Guerras./Partindo deste princípio,/que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,/eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo”. Por isso, o círculo aparentemente vicioso que, com estes seis versos se abre e se fecha sobre uma realidade monótona vestindo uma sociedade injusta e mesmo antropofágica, pode também ter uma leitura optimista – no futuro tudo será diferente. Os amanhãs que cantam, expressão com que se tem querido ridicularizar a esperança no futuro, representam a convicção de que o homem haverá de superar a sua condição animal e de se transformar num ser humano. Coisa que acontecerá amanhã. Daqui a mil, a dez mil anos – amanhã.

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