Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
3.Porque é que estamos numa nova era dourada
Sobre o livro Capital in the Twenty-First Century, de Thomas Piketty
Paul Krugman
Introdução
Thomas Piketty, professor na Escola de Economia de Paris, não é um nome muito familiar, embora isto possa vir a mudar com a publicação em língua inglesa da sua espantosa, longa e arrebatadora reflexão sobre a desigualdade, publicada com o título Capital in the Twenty-First Century. De imediato o que se pode já dizer é que a sua influência se expande de forma rápida e profunda . Transformou-se num lugar comum dizer que nós estamos a viver uma segunda Belle Époque ou, como Piketty gosta de o dizer, uma época definida pelo incrível aumento da riqueza dos “um por cento.” Mas tornou-se basicamente um lugar comum graças ao trabalho de Piketty. Em particular, ele e alguns dos seus colegas (em especial Anthony Atkinson em Oxford e Emmanuel Saez em Berkeley) abriram caminho a técnicas estatísticas que tornam possível seguir a concentração de rendimento e de riqueza até muito longe no passado, a partir do início do século XX para a América e Grã-Bretanha, enquanto que para a França se consegue ir até ao final do século XVIII.
O resultado foi uma revolução na nossa compreensão de tendências de longo prazo quanto à desigualdade. Antes dessa revolução, a maioria das discussões sobre a disparidade económica mais ou menos ignorava os muito ricos. Alguns economistas (para não desde já mencionar os políticos) tentaram liquidar toda e qualquer referência à ideia de desigualdade: “sobre as tendências que são mais prejudiciais para que a economia funcione bem , a mais sedutora e na minha opinião a mais venenosa, é a de nos concentrarmos sobre as questões de distribuição,” declarou Robert Lucas Jr, da Universidade de Chicago, o mais influente macroeconomista da sua geração, em 2004. Mas mesmo aqueles que estão dispostos a discutir a desigualdade centram-se geralmente ou sobre as diferenças entre os pobres ou entre a classe trabalhadora e os simplesmente abastados, não se questionando sobre os verdadeiramente ricos — diplomados pelas Universidades e cujo salário ganho ultrapassou aqueles dos trabalhadores de menor nível de formação ou ainda, na comparação da boa sorte do quinto superior da população com os quatro quintos de rendimentos mais baixos, não na rápida subida de rendimento dos executivos e banqueiros.
Por conseguinte, o livro aparece como uma revelação quando Piketty e os seus colegas mostram que os rendimentos dos agora famosos “1%” e de grupos ainda mais restritos, são na verdade as grandes figuras na história da crescente desigualdade. E esta descoberta aparece em conjunto com uma segunda revelação: fala de uma segunda idade dourada, que pode ser vista apenas de forma hiperbólica porque ainda não tem nada de real. Nos Estados Unidos em particular a parte do rendimento nacional, que vai para o grupo dos 1% mais ricos tem evoluído em forma de um grande U. Antes da primeira guerra mundial os 1% obtiveram cerca um quinto do total do rendimento, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos. Por volta de 1950 esta percentagem têm-se reduzido para menos de metade . Mas, desde 1980, os 1% têm visto a parte relativa e absoluta dos seus rendimentos a disparar — e nos Estados Unidos já regressou ao que eram os valores de há um século atrás.
Mais ainda, a elite económica de hoje é muito diferente daquela que existia no século XIX, não é assim? Voltemos atrás, a grande riqueza tende a ser herdada; não são as elites económicas de hoje que ganharam esta sua posição? Bem, Piketty diz-nos que isto não é tão verdade como o pensamos e que, de toda a maneira, o estado dos negócios pode mostrar que isso não é mais duradouro do que a sociedade da classe média que floresceu numa geração após a segunda guerra mundial. A grande ideia de Capital in the Twenty-First Century é que nós não regressámos apenas ao passado, não regressámos somente aos níveis do século XIX quanto à desigualdade de rendimento, nós estamos igualmente numa trajectória de regresso “ao capitalismo patrimonial,” no qual as rédeas de comando da economia não são controladas pela gente talentosa mas por dinastias da família.
É uma notável reivindicação – e precisamente porque é tão notável, precisa de ser examinada com cuidado e criticamente. Antes de o fazermos, contudo, deixem-me dizer imediatamente que Piketty escreveu um livro verdadeiramente magnífico. É um trabalho que percorre um enorme arco de tempo histórico – quando é que foi a última vez que ouviu um economista invocar Jane Austen e ou Balzac? — com uma análise cuidadosa de dados. E mesmo que Piketty zombe da profissão de economista, pela sua “paixão infantil pelas matemáticas” , subjacente à sua discussão está uma incursão altamente conseguida, uma verdadeira façanha mesmo, na modelização económica, uma abordagem, uma metodologia, que integra a análise do crescimento económico com a análise da distribuição de rendimento e da riqueza. Este é um livro que vai fazer com que mude quer a maneira como nós pensamos sobre a sociedade quer a maneira como nós fazemos política económica.
http://www.nybooks.com/articles/archives/2014/may/08/thomas-piketty-new-gilded-age/

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