Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
3.Porque é que estamos numa nova era dourada
Sobre o livro Capital in the Twenty-First Century, de Thomas Piketty
Paul Krugman
Parte II
(CONTINUAÇÃO)
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Piketty pretende vencer as dificuldades e explorar estes dados, ao dar ao seu livro o impressionante título: Capital in the Twenty-First Century. Estarão ainda os economistas disponíveis para falar como ele?
Não é apenas a alusão óbvia a Marx que faz com que este título assuste tanto. Invocando o capital desde o começo, Piketty rompe com a maioria das análises modernas sobre a desigualdade e aparece disponível para retomar uma tradição bem mais velha.
A presunção geral da maioria dos investigadores sobre a desigualdade tem sido a de que os rendimentos do trabalho, habitualmente os salários, é o que é importante enquanto que os rendimentos do capital não são nem importantes nem interessantes. Piketty mostra, contudo, mesmo hoje que os rendimentos do capital, não as remunerações do trabalho, são predominantes na parte mais alta da distribuição dos rendimentos . O autor mostra igualmente que durante e após a Belle Époque e numa menor extensão, na Idade dourada na América, a desigualdade na posse de activos, e que não eram desigualmente remunerados, constituía o principal motor das disparidades de rendimento criadas.
E argumenta que nós estamos a seguir o caminho que nos leva de regresso a este tipo de sociedade. Por seu lado, não se entenda esta análise como casual especulação . Por tudo isto, Capital in the Twenty-First Century é um trabalho principalmente empírico que é conduzido de modo a querer integrar num quadro teórico a teoria do crescimento económico e a teria da distribuição do rendimento e da riqueza . Basicamente, Piketty vê a história da economia como a história de uma corrida entre a acumulação do capital e os factores que conduzem ao crescimento, principalmente o crescimento demográfico e o progresso tecnológico.
Para termos a certeza, esta é uma corrida que pode não ter nenhum vencedor permanente: sobre o muito longo prazo, o stock de capital e o rendimento total devem crescer aproximadamente à mesma taxa. Mas de um lado ou do outro podem estar a puxar para a frente durante décadas. Na véspera da Primeira Guerra Mundial, a Europa tinha acumulado o valor correspondente a seis ou sete vezes o valor do rendimento nacional. Durante as próximas quatro décadas, contudo, uma combinação de destruição física e da dispersão das poupanças nos esforços da guerra reduziram esta proporção para metade. A acumulação do capital recomeçou depois da segunda guerra mundial, mas este era um período de crescimento económico espectacular: o período dos Trente Glorieuses, ou os trinta gloriosos anos; assim o rácio do capital relativamente ao rendimento permaneceu baixo. Desde os anos 70, contudo, a redução do ritmo do crescimento significou uma subida do rácio do capital, de tal modo que o capital e a riqueza têm tido como estado a regressar firmemente para os níveis anteriores, para os níveis da Belle Époque. E esta acumulação do capital irá eventualmente recriar o estilo da desigualdade existente durante a Belle Epoque, a menos que se lhe contraponha uma tributação progressiva .
Porquê? É tudo à volta da taxa r contra a taxa g – a taxa de rentabilidade do capital contra a taxa de crescimento económico.
Apenas sobre o que nos dizem todos os modelos económicos, que se g cai – o que acontece desde 1970- é que se trata de uma diminuição que é provável que continue a verificar-se devido a um crescimento económico mais lento da população em idade activa e a um progresso tecnológico. A taxa de lucro também cairá. Mas Piketty afirma que r cairá menos do que g. Isto não tem que ser verdade. Contudo, se é suficientemente fácil substituir trabalhadores por máquinas – se, para usar uma expressão do calão técnico dos economistas, a elasticidade da substituição entre o capital e o trabalho for maior do que um- o crescimento lento e o resultante aumento na relação do capital ao rendimento alargará certamente a diferença entre r e g.
Se Piketty tem razão, uma consequência imediata será a redistribuição do rendimento a favor do capital. A sabedoria popular diz-nos e desde há muito tempo que nós não precisamos de nos preocuparmos sobre o que acontece no que se refere a evolução das partes relativas do capital e do trabalho no rendimento total porque a repartição do rendimento é altamente estável ao longo do tempo. Sobre o muito longo prazo, contudo, isto não é verdadeiro. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a parte de capital no rendimento quer sob a forma de lucros das empresas, quer de dividendos, de rendas ou das vendas de propriedade, por exemplo- caíram de cerca de 40 por cento antes da Primeira Guerra Mundial para apenas cerca de 20 por cento por volta dos anos 1970 e depois esta proporção passou a subir agressivamente e encontra-se já a meio caminho entre estas duas taxas . O arco histórico é menos bem definido nos Estados Unidos, mas aqui, também, tem estado subjacente uma redistribuição em favor do factor capital. Em particular, os lucros das empresas têm aumentado desde que começou a crise financeira, enquanto que os salários – incluindo aqui os salários dos quadros altamente especializados que têm estagnado.
Uma partilha crescente a favor do capital, por sua vez, aumenta directamente a desigualdade, porque a posse dos activos de capital está sempre distribuída de forma muito mais desigual do que os rendimentos do trabalho . Mas os efeitos não param aqui, porque quando a taxa de rentabilidade do capital ultrapassa fortemente a taxa de crescimento económico, “o passado tende a devorar o futuro”: a sociedade tende inexoravelmente a ser dominada pela riqueza herdada.
Considere como esta dinâmica terá funcionado durante a Belle Époque na Europa. Nessa altura, os detentores de capital poderiam esperar ganhar 4-5 por cento nos seus investimentos, com uma tributação mínima; entretanto o crescimento económico andaria à volta de apenas um por cento. Os indivíduos muito ricos poderiam facilmente reinvestir uma grande parte dos seus rendimentos para assim poderem assegurar-se de que a sua riqueza e, consequentemente, os seus rendimentos cresceriam mais rapidamente do que a economia, reforçando a sua dominação na economia, mesmo desperdiçando muito dos seus proventos a para viverem ao nível do grande luxo.
E que aconteceu quando estes indivíduos ricos morreram? A sua riqueza foi transferida para os seus herdeiros – de novo com o mínimo de impostos. . O dinheiro passou assim para a geração seguinte e em termos de 20 a 25 por cento do rendimento anual; o grande volume da riqueza, cerca de 90 por cento, resulta mais de heranças do que de rendimentos profissionais. E esta riqueza herdada foi concentrada nas mãos de uma minoria muito pequena: em 1910 os um por cento mais ricos controlavam 60 por cento da riqueza em França; na Grâ Bretanha, 70 por cento.
Não é então de espantar, então, que os escritores do século XIX estivessem obcecados com as heranças. Piketty discute longamente a lição que o sem-vergonha Vautrin dá a Rastignac no livro de Balzac, Père Goriot, cuja ideia é de que uma carreira por mais bem sucedida que seja não poderia possivelmente disponibilizar mais dinheiro do que uma fracção da riqueza que Rastignac poderia adquirir ao casar com a filha de um homem rico. E acontece que Vautrin tinha razão : ser uma pessoa situada nos um por cento dos herdeiros mais ricos no século XIX e simplesmente gozar a vida a partir da sua riqueza herdada dava-lhe a possibilidade de ter um padrão de vida duas e meia o que se poderia conseguir alcançar se fizesse parte dos um por cento de maiores remunerações auferidas na carreira.
Pode-se estar tentado a dizer que a sociedade moderna não é nada como a daquela época. De facto, contudo, quer os rendimentos do capital quer a riqueza herdada, embora menos importantes do que o eram na Belle Époque, são ainda poderosos motores da desigualdade- a e sua importância tem estado a crescer. Em França, como o mostra Piketty, a parte herdada da riqueza total caiu fortemente durante a época das guerras e durante o forte e rápido crescimento do pós-guerra; perto de 1970 representava menos de 50 por cento. Mas agora está já acima dos 70 por cento, e tem tendência a aumentar. Correspondentemente, houve uma descida e uma subida na importância que tem a herança na determinação do estatuto : o nível de vida dos 1 por cento dos herdeiros mais ricos caiu abaixo do que tinha os um por cento mais ricos entre 1910 e 1950, mas depois de 1970 este seu padrão começou de novo a aumentar. Não é toda a maneira um retorno aos níveis havidos nos tempos de Rastignac, mas mais uma vez , isto é em termos gerais, é mais importante ter pais ricos (ou casar-se com gente rica ) do que ter um trabalho bem pago.
E esta situação pode ser apenas o início. A Figura 1 nesta página mostra as estimativas de Piketty sobre as taxa r e a taxa de g globais, em termos de longo prazo, sugerindo que a era da igualização se encontra agora situada bem atrás de nós, e que as condições estão agora maduras para o restabelecimento do capitalismo patrimonial.
Tendo em conta esta imagem, porque é que a riqueza herdada desempenha um papel tão pequeno no discurso público de hoje? Piketty sugere que a dimensão de muitas fortunas herdadas é de uma forma que as torna invisíveis: “A riqueza está de tal forma concentrada que um grande segmento da sociedade praticamente desconhece a sua existência, de tal forma que algumas pessoas imaginam que ela pertence a entidades surreais ou misteriosas.” Este é um ponto muito bom. Mas certamente não é a toda a explicação . O facto é de que o exemplo mais visível da crescente desigualdade no mundo de hoje — o aumento da riqueza nos um por cento mais ricos no mundo anglo-saxónico , especialmente nos Estados Unidos — não tem muito a ver com a acumulação de capital, pelo menos até agora. Tem sobretudo mais a ver com as incrivelmente elevadas compensações e rendimentos.
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