A IDEIA – “DUAS NOTAS SOBRE MÁRIO BOTAS E PEDRO DE SOUSA” – por João Freire

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Não me sinto com competência mínima para escrever sobre a obra destes artistas plásticos, nem mesmo sobre as suas pessoas. E é apenas para corresponder ao pedido do director d’Ideia e organizador deste dossiê que aqui insiro estas breves notas memoriais.

Tenho uma vaga recordação de que terá sido o fotógrafo João Freire Oliveira quem, no início dos anos 80, me falou do António Inverno, artista gráfico grande especialista em   serigrafia que, entre outros, editava pinturas do Mário Botas. Ou talvez fosse este que me indicou aquele. Mas, em qualquer caso, julgo ter sido no atelier do primeiro, na Rua da Emenda, que nos encontrámos pela primeira vez.

Conversámos sobre  Ideia, que inaugurara há pouco um grafismo muito marcado  pelo Vasco Rosa – mas onde também inserimos uma capa da Ilda David, por   diligências do Miguel Serras Pereira – e que claramente procurava então abrir-se a  outras perspectivas culturais, fazendo permutas e contactos pessoais com revistas propriamente literárias e artísticas como a Sema, a Arta ou, já mais       antecedentes, como  a  Fenda, de Coimbra. Desse encontro saiu a oferta do Mário Botas de realizar  ma serigrafia para ser vendida a benefício financeiro da revista, o que veio a concretizar-se talvez por volta do 10º aniversário da sua existência, em 1984 (o ano em que fomos celebrar o Orwell a Veneza).

Foi nessa altura que tive mais contactos pessoais com o pintor, que trabalhava e   residia num apartamento situado no Bairro de Santos, a dois passos do ISCTE onde eu   ensinava. Várias vezes ali me desloquei e pude ter com ele conversas, divagantes, sem objectivo preciso. Falámos decerto sobre o anarquismo, e sobretudo sobre as relações do anarquismo com as correntes artísticas modernas, a pregnância do  realismo (sofrido ou heróico) no meio social do militantismo operário e as rupturas, para eles mais difíceis de entender, da arte abstracta e do surrealismo. Discutimos sobre a   melhor capacidade de apreensão popular da literatura e do teatro, relativamente às artes plásticas, à música e mesmo ao cinema. E, provavelmente, mais alguns temas ligados à vida, à medicina, ao prazer, ao dever e à dor.

Já nessa altura, porém, ele tinha discussões (certamente mais intensas) com o Carvalho Ferreira, que me referia como interessantes e surpreendentes. E também daí surgiram ligações com os arquitectos Raul Veríssimo e Clara Vieira, meus amigos, que fizeram o risco de uma Casa-Museu que, na Nazaré, deveria perpetuar a sua obra e  constituir um fórum aberto a outras actividades culturais, projecto esse que foi, após a sua morte, o grande empenho de seu pai, infelizmente nunca concretizado.

  A notícia correu depressa entre os amigos. O Mário tinha ido a Nova Iorque tentar um transplante de medula de última esperança, que não veio a resultar. Nunca falei com ele sobre esse assunto. As visitas interromperam-se e só recomeçaram após a morte com os seus progenitores.

Do seu desenho e da sua pintura não sei falar. Só dou por mim a reagir sensitivamente ao impacto, às cores e formas, ao pormenor incrível, às associações de  ideias que podem desencadear a cada um que as observa. Tal qual como a pintura, a gravura ou a pena do Pedro de Sousa.  Este, conheci-o bem, como amigo e comungante de brincadeiras infantis quando já tínhamos mais de trinta anos de idade. Dele não vou escrever aqui, nem sei se em mais alguma ocasião. A sua partida, tão sem-tempo e inesperada, ainda pesa para tal.

Mas não queria deixar de evocar o seu nome quando referisse a obra de Mário Botas e a sua ligação a esta revista. Pois o Pedro de Sousa fez o mesmo. Fez mais; mais vezes. Com mais conhecimento, consciência e amizade. E, para um leigo como eu, as   suas técnicas de expressão estética sobre o plano, branco, parecem-me em mais de    um ponto semelhantes, com idêntico traço da tinta-de-Nankim, e aquelas formas          estranhas e perturbantes.   Mais não sei dizer.

 

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