Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A UCRÂNIA entre violência, guerra secreta e guerra dos Media: a subserviência da Europa
Michel Lhomme, Revista Metamag, 5 de Maio de 2014
Como ficar conscientemente crítico em termos de política internacional? Multiplicando os olhares e os pontos de vista. Na análise do caso ucraniano, faz-se uma separação entre o que é pró-NATO que necessariamente se consideram ter absoluta razão e o que é pró Rússia que estariam pois do lado do obscurantismo. E cada um em seguida que passe a culpar os neonazis, mesmo que de forma interposta. Mas o que é que desse ponto de vista e relativamente à Ucrânia se passa nos Estados Unidos? Fala-se muito pouco mas o Presidente Obama é atacado por todos os lados pelos republicanos. As invectivas republicanas contra o Presidente são, hoje em dia, particularmente ferozes, procurando empurrá-lo para o ” erro”: a intervenção militar.
Os republicanos acusam-no de ser fraco na sua gestão da crise. Acusam-no de não enfrentar a crise e de não mandar lançar os mísseis! Ora, Barak Obama, que acaba de fazer um verdadeiro espectáculo mediático no tradicional jantar aos correspondentes de imprensa faz exactamente o que qualquer responsável americano no seu lugar teria feito. Lembremo-nos: em 2008, quando as forças russas “invadiram” a antiga República Soviética da Geórgia, o Presidente Bush, contudo muito longe de ser um republicano moderado, tinha reagido quase que com as mesmas palavras e as mesmas acções que as de Obama hoje. Ele não fez nada.
Hoje o antigo candidato mórmon à Presidência, Mitt Romney está nos Estados Unidos entre os mais aguerridos defensores da caminhada para a guerra. Este acusa violentamente o Presidente americano de “não passar de um ingénuo”, “de falta de capacidade de julgamento e de previsão”. Acusa-o de não parar o Presidente russo aquando do referendo da Crimeia. “Não há dúvida que a ingenuidade do Presidente no que diz respeito à Rússia, e o seu mau raciocínio sobre as intenções e os objectivos da Rússia, conduziu a diversos desafios em matéria de política estrangeira com os quais nos confrontamos hoje” (Declaração do antigo governador do Massachusetts, Mitt Romney na CBS na célebre emissão, Face the Nation).
Como se defendem hoje os democratas nos programas de televisão? Durbin, número dois do Partido e senador de Illinois, respondeu que estar a acreditar que as “sanções vão parar um antigo coronel do KGB é precisamente uma ingenuidade. O que o Presidente fez, é primeiro tentar negociar, tentar parar o referendo na Crimeia”, saudando de passagem os esforços diplomáticos do secretário de Estado, de John Kerry e da chanceler alemã, Angela Merkel.
Barak Obama será ele obrigado à intervenção militar na Ucrânia?
Os Alemães travam-no. Mas com efeito, para os Republicanos americanos, a Ucrânia é apenas uma ocasião de política interna, em pleno ano de eleições para o Congresso, para reanimar a base política do partido num anti-obamismo primário e sonhar assim fazer saltar a Casa Branca porque os Republicanos perderam toda e qualquer credibilidade no eleitorado branco depois de terem baixado totalmente a guarda sobre a questão da imigração interna latina.
Na Ucrânia, Barak Obama, com toda a evidência, afasta a opção militar directa. De facto, é a nossa vez agora de não sermos ingénuos! Hoje, para os Estados Unidos, há bem outros meios para fazer a guerra, graça em especial à externalização privada do combate ou graças aos aliados dóceis. (Líbia, Síria, Mali, RCA, Afeganistão). As companhias americanas de segurança de resto já estão distribuídas na Polónia e na Ucrânia. Toda a oligarquia política o sabe em Washington. O senador McCain finge ignorá-lo. Ora John McCain e todos os Republicanos fariam exactamente o que Barak Obama está a fazer na Ucrânia. Porque são as companhias petroleiras que financiam as campanhas presidenciais americanas e que estas são vinculadas por milhares de milhões de dólares aos negócios da Rússia.
Nos Estados Unidos como em França, a diabolização de Putin funciona totalmente como já tinha funcionado bem todo o discurso da NATO durante a guerra fria sobre a ameaça sempre controlada das armas nucleares. Resumidamente, uma bela aldrabice, uma astúcia populista! Putin sabe, como todos os generais da NATO que o conflito permanecerá regional e conduzirá à partição inelutável da Ucrânia.
Barak Obama não quer desta guerra porque hoje, para os Estados Unidos, a Europa já não é mais a sua guerra ou pelo menos, já não se trata mais de fazer a guerra na Europa mas simplesmente de controlar a Europa. Como? Empobrecendo-a e submetendo-a economicamente. E, para isso, a União Europeia e o futuro tratado Transatlântico são o suficiente. Trata-se de estrangular economicamente a Europa lentamente para deslocar os peões militares sobre o novo desafio: o eixo pacífico
Para os Estados Unidos, a Ucrânia é apenas um deplorável incidente internacional, mal calculado pelos serviços secretos, na sequência na janela de tiro de Sotchi. O derrube do regime ucraniano atrasou-se de algumas semanas, tempo demasiado para permitir a Putin cujas forças de segurança estavam então mobilizadas para os Jogos Olímpicos, de as poder deslocar para Kiev. Mas, a Rússia em si-mesma não é uma ameaça real e a divisão da Ucrânia será suficiente para a conter. As ONG americanas e as milícias fizeram o trabalho sujo a derrubar um governo eleito num timing que não foi respeitado. Derrapagens , foi o que se seguiu.
A segunda fase do plano Ucrânia consiste em quebrar a ligação económica entre a Eurásia e a União Europeia ou seja deslocar a economia europeia a Ocidente para o Atlântico a fim de matar ainda no ovo o seu forte rival euro-asiático. Este era na verdade o principal objectivo da operação NSA na Ucrânia: relançar os fascismos locais a fim de cortar as relações entre a Eurásia e a Europa. Havia já, no final de Dezembro, 400 membros da CIA posicionados na Ucrânia. De facto, nunca se introduziram tantos agentes num país. Uma guerra no solo da Ucrânia não estaria à partida nos planos americanos mas um conflito regional não pode afectar em nenhum caso a segurança da América. Portanto, Putin agiu da única maneira que tinha para se proteger de um vizinho que se estava a tornar perigoso. Desde então, os Estados Unidos e a União Europeia julgaram por bem derrubar um governo de maneira não democrática. Dos dois lados, a lavagem ao cérebro não para de trabalhar em pleno. Não é por nada que se celebra este ano o centenário de 14!
A Ucrânia, não poderá viver como um povo e uma nação legítima?
Todas estas posições são torcidas. Os dois, Estados Unidos e UE, trabalham a lavar o cérebro dos cidadãos europeus. No conflito de 2008 na Geórgia, um inquérito suíço independente e um relatório de Human Rights Watch tinha revelado que se tratava com efeito de um acto de agressão da Geórgia sobre os Ossetas do Sul e em que a guerra foi seguidamente essencialmente mediática. A prova: enviou-se para lá o idiota útil, Nicolas Sarkozy.
A opinião francesa não faz mais do que andar a repetir as declarações de CNN, da BBC, de SkyNews onde da Fox. É esta hipocrisia flagrante das opiniões públicas europeias que, finalmente, irrita cada vez mais em toda esta história, com a hipocrisia do direito e a boa fé da moral colocados como bandeiras.
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