OS MEUS DOMINGOS – TRÊS HISTÓRIAS – por ANDRÉ BRUN

Imagem1

 

1881 - 1926
1881 – 1926

 

I

Certa noite, tinham acabado de soar numa torre distante as onze badaladas das vinte e três horas e achavam-se reunidos três indivíduos do sexo masculino em torno duma mesa sobre a qual havia os restos duma ceia. Considerando que era cedo para recolherem a casa, deliberaram contar histórias a fim de matarem o tempo.

Um era americano, o segundo era holandês, o terceiro era diabético. Para se entenderem, apesar de nacionalidades tão diversas, falavam esperanto e T.S.F.

O americano principiou e contou o seguinte:

– Nesse tempo era eu “cowboy” e vivia no Far-West, que os senhores conhecem como os seus dedos por o terem visto nos “films” em episódios dos cinemas desta capital de distrito.

Uma bela manhã, apeou-se dum fogoso cavalo um cavalheiro, chamado Manchester ou Apolinário, já me não lembro bem…

Manchester percorreu a cidade de barracas onde vivíamos, viu as que estavam com escritos por os donos terem sido recentemente enforcados e, escolhendo a melhor, mandou pintar e pôr à porta uma tabuleta onde, em letras cor de pinhão sobre um fundo amarelo canário, se liam estas simples palavras:

MANCHESTER

Combates de galos

Todas as tardes às 5 horas

No dia seguinte toda a rapaziada do sítio se encontrava aglomerada em volta da pista onde deviam travar-se os combates. Vários dos circunstantes tinham trazido os seus galos e miravam com curiosidade os campeões do amigo Manchester, que se alinhavam junto da pista em várias capoeiras.

Entre eles havia um que dava nas vistas. Era um galo que, não desfazendo, parecia um avestruz. Tinha um bico formidável e, evidentemente, não havia na localidade adversário que se pudesse opor àquele bico tremendo. Tremendo estavam, pois, todos os circunstantes pelo resultado das brigas, quando a porta se abriu e Samwell Coktail, que exercia no lugar as altas funções de carrasco, entrou tranquilamente e, chegando à primeira fila, pôs no meio da minúscula arena um galo, que trazia debaixo do casaco. Era um galo como qualquer de nós, de dimensões regulares e de aspecto pacatíssimo.

Manchester, por seu turno, foi buscar o seu galo terrível e, com um sorrido de ironia, exclamou:

– Façam as suas apostas!

Escusado será dizer que todos apostaram contra o galo de Samwell, excepto este, o qual, por honra da firma, supúnhamos nós, manteve todas as apostas.

Finalmente Manchester largou a sua fera e, durante dez minutos, não se viu senão um confuso turbilhão de penas voando para todos os lados e não se ouviu senão o ruído de bicadas formidáveis. De súbito um dos adversários caiu extenuado e, com pasmo de nós todos, verificámos que era o campeão de Manchester. O galo de Samwell mantinha-se fresco e calmo, como se nada tivesse ocorrido. Houve um delírio de aplausos ao vencedor.

O seu dono recolheu tranquilamente o resultado das apostas e saiu, acompanhado de uma multidão entusiasta que o aclamava. Chegado à praça grande, Samwell cortou um pouco caminho e, antes de recolher a casa, foi pôr no seu lugar na torre da igreja o galo de lata do campanário, pois devo explicar que era, apesar de carrasco, uma pessoa de bem, incapaz de se apropriar de qualquer coisa, quanto mais dum catavento que havia custado dólar e meio à municipalidade e tinha sido pintado de novo na semana anterior

28 de Janeiro de 1923

1 Comment

Leave a Reply