POESIA AO AMANHECER – 449 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

GILBERTO MENDONÇA TELES

( 1931 )

GERAÇÃO (1)

 

Sou um poeta só, sem geração,

que chegou tarde à “gare” modernista

e entrou num trem qualquer, na contramão,

e vai seguindo sem sair da pista.

 

A de quarenta e cinco me tutela,

me trata como a um filho natural.

Eu chego às vezes tímido à janela

mas vou brincar no fundo do quintal.

 

Na poesia concreta, a retaguarda

é que me vê brincando de arlequim.

Às vezes fujo à rima e lavo um fardo

de roupas sujas, não tão sujo assim…

 

A de sessenta e um foi de proveta,

foi mágica de circo para um só.

Ninguém me viu caçando borboleta

ou pescando escondido o meu lobó.

 

Quem fez letra, cantou e usou bodoque

quem se fez marginal pela cidade,

será que fez poesia ou fez xerox

e apenas tropicou na liberdade?

 

(de “Plural de Nuvens”)

Poeta e ensaísta, a sua obra observa a poetização da existência e assenta numa atenta pesquisa das vanguardas poéticas brasileiras. Da sua imensa obra poética distinguimos “Alvorada” (1955), “Pássaro de pedra” (1962), “A raiz da fala” (1972), “Arte de amar” (1977), “Hora Aberta” (1986, 4ª. ed. aumentada, 2003) e “Plural de Nuvens” (1990).

 

 

 

Leave a Reply