GERMANO ALMEIDA E O ACORDO ORTOGRÁFICO: “a língua é tanto dos portugueses como minha”

Imagem1 (2)Germano Almeida é porventura o mais conhecido escritor cabo-verdiano, autor de04 uma obra notável onde avulta o romance – «O testamento do sr. Nepomuceno da Silva Araújo» (1991). Numa entrevista concedida há tempos à revista portuguesa Pessoa, entre outros temas, abordou a questão do Acordo Ortográfico.

Perguntou-lhe o entrevistador se o Acordo iria ajudar o intercâmbio entre as literaturas dos oito países? A resposta foi: «Não acredito que o acordo ortográfico em si vá ajudar o intercâmbio. Não era a falta do acordo ortográfico que nos impedia de ler autores brasileiros. É evidente que é uma forma diferente de ler: quando encontro “fato” sem “c” e estou habituado a “facto”, com “c”. Do mesmo modo, quando encontro “terno” como se fosse “fato” me causa estranheza, mas isso são pormenores a que nós nos devemos habituar. Do mesmo modo, que quando escrevo em português uso imensas expressões e palavras do crioulo. Penso que o acordo ortográfico será mais uma pequena chatice. Mas acho que é necessário. Não devemos correr o risco de ter oito línguas diferentes a partir do português. Na medida em que é possível preservar esse instrumento que serve para expressar a cultura dos nossos países, isso é positivo. Penso que deve haver cedências para que haja um acordo de forma a não nos desviarmos demasiadamente uns dos outros. Dizer que me agrade particularmente, não. Aliás, eu vou continuar a escrever do mesmo modo que estou habituado, porque sei que alguém vai corrigir-me».

Sendo –lhe lembrado que alguns brasileiros dizem que os portugueses se acham “donos” da língua, concordou: «Penso que essa afirmação é verdadeira. Os portugueses acham que são donos da língua, e isto é muito mau. Os portugueses precisam entender que a língua portuguesa é tanto deles como nossa. A língua foi deles, agora dividimos a língua. Temos que aceitar essa realidade. Aliás, afirmo orgulhosamente que a língua é tanto dos portugueses como minha língua, e não quero desfazer-me dela».

Leave a Reply