CONTOS & CRÓNICAS – “O despertar de Aurora adormecida” – por Eva Cruz

contos2

O Outono chegou. O sol punha-se mais cedo. Encurtavam os dias. A meio da tarde acendia-se a luz no quarto dela, pintado de cor de rosa, com cortinas brancas floridas.

 Da janela de vidrinhos quadrados via-se o tanque grande coberto de musgo, a nespereira vergada sobre ele como um guarda-chuva verde, resquícios de flores nas sardinheiras e os fetos já aninhados, a recolher-se do frio que se avizinhava. Ao longe a serra muda e queda parecia vestida de luto.

 No lento entardecer quase já não batia o seu coração no peito rosado. Fechou os olhos ao começo da noite.

 Permaneceu em casa, vestida de cinzento como uma pomba. Um véu azul celeste cobria-lhe o rosto de princesa. Nas paredes, os quadros do filho e o D.Quixote da sua fantasia. Ao lado, as suas bonecas e os retratos da família. Apenas um Cristo, o seu Cristo redentor.

Flores brancas e as últimas rosas do jardim, regadas de saudade de filhos e netos e muitas lágrimas de amizade.

De manhã o sol irrompeu pela porta dentro deitando-se no seu colo de amor. Teceu de luz o seu rosto de princesa que pareceu voltar à vida. Uma revoada de pássaros veio à porta entoar um Hossana. A ceifeira de todas as esperanças, despertou-a e levou-a, no Outono, para a Primavera do Infinito.

Na terra, rosinhas de toucar e raquelinhas cor-de-rosa sorriam. Raquelinha, nome de sua mãe. Perdeu-a ao nascer mas acreditava que pela mão da morte a iria conhecer.

No vazio do quarto, a névoa dos seus olhos, as mãos descarnadas, o corpo cor-de-rosa e um cheiro a criança ainda tecem de saudade a candura do seu retrato.

 

Leave a Reply