
II
Quando o americano acabou de contar a sua história, o holandês acendeu o cachimbo e disse:
– Essa do galo faz-me lembrar a da ostra de Van der Papen, meu amigo e consócio nas grandes plantações de tulipas de oleado impermeável que ainda mantenho nos arredores de Amsterdam…
– Deus te faça um santo, – atalhou o americano, cuidando que o holandês tinha espirrado.
– Van der Papen tinha uma ostra inteligentíssima e amestrada, honra e glória do seu dono, que fora também seu domesticador. Todos os domingos se juntava o poder do mundo em casa do meu amigo para ver trabalhar a ostra, que se chamava Isabel. Entre outras graças, fazia a seguinte: quando alguém apoiava o dedo sobre uma campainha eléctrica, que lhe tinham instalado sobre a casca, ela abria-se de par em par. Era de morrer a rir… Também sabia contar até dez. Escrevia-se um algarismo da primeira dezena numa ardósia, Isabel abria a casca, deitava um olhar rápido para o número inscrito e seguidamente, com um movimento nervoso e sacudido, batia com o tampo da casca no corpo desta tantas vezes quantas unidades o número indicava… Tenho visto ostras inteligentes, mas como aquela confesso que nenhuma.
Uma tarde estávamos reunidos em torno de Isabel, impagável de chiste e graciosidade, quando entrou um cavalheiro, que Van der Papen nos apresentou como seu correspondente na Noruega meridional. Mostrou-lhe a ostra que, como disse, estava nas suas tardes felizes e não falhava uma só das suas habilidades.
– Hein? Que me diz? – perguntou o dono do singular animalejo. – Se soubesse o trabalho que me deu a amestrá-la!…
– Não duvido. É um animal muito inteligente, mas o senhor não tem sabido tirar dele o maior proveito.
– Essa agora! – exclamou Van der Papen, meio apopléctico de furor, pois era a primeira vez que alguém não manifestava uma admiração sem limites perante o talento de Isabel.
– Não, meu caro amigo. E vou mostrar-lhe o melhor que se pode fazer com uma ostra.
Ficámos todos suspensos e o noruego, tendo arregaçado previamente as mangas, tomou delicadamente Isabel com dois dedos da mão direita e, levando-a à boca, chupou-a devagar e delicadamente, com todo o ar duma pessoa entendida, que, em certos casos extremos, dispensa perfeitamente a pimenta e o limão…
28 de Janeiro de 1923
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