PRAÇA DA REVOLTA – “Espanha, aqui ao lado… tão longe” – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

Não é possível relacionar os regimes com o estado de desenvolvimento cultural dos povos por eles tutelados. O regime monárquico, com toda a carga pejorativa que para os republicanos a instituição acarreta, não prevalece apenas em países asiáticos e do Terceiro Mundo – em alguns dos estados mais desenvolvidos da Europa é o sistema vigente – Suécia, Dinamarca, Noruega, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo… e Espanha.

Espanha é um estado que racionalmente não faz sentido. Projecto falhado de unificação peninsular, sonhado por Afonso VII,  que se intitulou Imperator totius Hispaniae, e posto em prática por Isabel de Castela, que só por si, pela maneira ínvia como atingiu o trono, contraria as vantagens que os monárquicos encontram no direito sucessório, e por um rei de Aragão que deve ter suposto que o esplendor cultural do seu estado o impediria de ser absorvido por Castela. Até hoje, bascos, catalães, galegos, andaluzes, conservaram os seus sentimentos nacionalistas e a ameaça da fragmentação nunca se diluiu. E parece ser essa tensão permanente que atrai ao campo monárquico gente que pela sua formação teria tendência a ser republicana. Os “espanhóis” vêem a República como uma ameaça de desintegração. Não esqueçamos que, quando Franco e os seus bandos fascistas invadiram a península, a República encetara um processo de federalização do Estado.

Como é possível que democratas, sejam do PSOE ou do PCE, aceitem os restos do festim franquista que lhes lega um trono onde se senta um rapaz sem carácter, que traiu tudo e todos para ser fiel ao ditador? Como podem jornalistas inteligentes, como os do El Pais, saudar a continuação da palhaçada bourbónica? É a estabilidade e a garantia de que a corrupção vai continuar de que os privilégios se vão manter. Os povos que nos são vizinhos são assim tão diferentes de nós? Somos nós tão diferentes deles? Claro que não.

Aqui, há 104 anos a monarquia foi abolida. Sabemos que os problemas nacionais não foram resolvidos pela mudança de regime, As doenças endémicas e sistémicas da sociedade portuguesa permaneceram. Ao caos republicano sucedeu a calma imposta pelo terror fascista. Salazar teve o bom senso de não ceder às pressões para restaurar a monarquia – havia salazaristas republicanos e ele não quis acordar os maus espíritos.

Temos um presidente que é como é e que constitui um poderoso argumento pró-monarquia. Mas não ficará quase quatro décadas como o Bourbon daqui do lado que sai, mas deixa um emplastro no seu lugar. Quem pensa pela sua cabeça esquece-se que uma grande parte da Humanidade não tem essa arrogante atitude – os comportamentos são condicionados, induzidos,,, A maioria da facção pensante é de esquerda e republicana. Os que     adoptam como seu o pensamento que a comunicação social serve pronto a usar “pensam” de uma forma “realista”, são por aquilo que estiver – «uma República? OK- Desde 1910? Fogo! Não sei, ainda não tinha nascido…»

Monarquias. Bailes de máscaras. Os Bourbons família que deixou tão más recordações, com uma Carlota Joaquina que, segundo os seus inimigos, deve ter quebrado a cadeia biológica na sucessão dinástica, pondo nos tronos de Portugal e Brasil o filho de algum dos seus amantes. O que até foi democrático, pois, segundo as mesmas fontes, parece que os escolhia entre a criadagem. Goya pintou-a de perfil e meio escondida, como se adivinhasse que não era peça que se mostrasse.

Monarquia, farsa ridícula em que, contrariando a CartaUniversal dos Direitos Humanos aprovada em 1948 pelas Nações Unidas (Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos), um qualquer paspalho herda o direito de simbolizar milhões de pessoas. Expulsar as monarquias da ONU seria um bom serviço prestado á aldeia global.

Uma petição a favor de um referendo? Não tem hipótese. A monarquia espanhola é o garante de que a herança de Franco permanece intocável. O velho facínora bem disse – “Lo dejo todo atado y bien atado!”

E não é que deixou?

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