AQUELA TRISTE E LEDA MADRUGADA
Aquela triste e leda madrugada,
chea toda de mágoa e de piedade,
emquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d’úa outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
s’acrescentaram em grande e largo rio,
Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio
e dar descanso às almas condenadas.
Fui buscar este soneto às Líricas, de Luís de Camões, editora Textos Literários, de 1955. A selecção, o prefácio e as notas são de Rodrigues Lapa. Mantive a ortografia da edição. E a seguir transcrevo as notas de Rodrigues Lapa para este soneto de Camões. Incluem os números das linhas a que correspondem:
“1, triste e leda. Compreende-se: triste, por tratar-se duma despedida, leda (=alegre) por ser bela, dever inspirar mais alegria do que tristeza. Veja-se no verso 5 amena e marchetada. A extraordinária beleza do soneto está neste contraste entre a Natureza bela, serena e indiferente e aquela grande dor dos namorados. O adjectivo leda ler-se-ia com e tónico aberto (do latim LAETA). 10, dirivadas, na 1ª edição. 11, Entenda-se: «se ajuntaram formando grande e largo rio». Foi mais ou menos assim que os rectificadores da poesia camoniana deformaram o verso – juntando-se, formaram largo rio – como se a lição original não fosse em tudo perfeita. 12, Os deturpadores da Lírica de Camões julgaram fazer melhor, pondo em vez de viu, ouviu. O termo viu é muito mais poético, e desde o tempo de D. Denis que os poetas vêem palavras. Aquele viu está no sentido de assistiu, presenciou, viu proferir, com todo o acompanhamento dos gestos e do jogo fisionómico. 13, puderam=poderiam. 14, Quer dizer: «tortura dessas derradeiras palavras era tão grande que, se os condenados às penas infernais as sentissem, apesar de sofrerem imenso, experimentariam, por comparação, um alívio nas suas dores».”

