CONTOS & CRÓNICAS – “Bate Fundo” (1) – por Fernando Correia da Silva

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 DOMESTICAR O FUTURO

O meu nome é Afonso Dias da Costa e tenho quarenta e sete anos. Junto com os meus compinchas costumo abancar num tasco a que demos o nome de Bate Fundo. Fica ali no Largo da Graça, junto à Igreja, pertinho do mirante sobre Lisboa antiga, Mouraria por ali abaixo, à esquerda o Castelo de S. Jorge, também uma nesga do Tejo.

Perto fica ainda a Vila Sousa, um grandioso prédio de apartamentos e escritórios, todo forrado com azulejos verdes, onde eu e os meus camaradas tratámos de rasgar uma arena para domesticar o futuro, bando de malucos que foram dos mais ajuizados em toda a Esquerda. O caso era que, depois do 25de Abril, muitos industriais tinham fugido para Espanha e para o Brasil. Achámos que já era tempo de ajudar os trabalhadores a converter as fábricas abandonadas em cooperativas de produção.

Fomos muito censurados, disseram-nos que primeiro toma-se o Estado e só depois, com as nacionalizações, é que se altera a estrutura económica. Não acreditámos na mediação dos aspirantes a funcionários públicos. Rimos das greves de protesto contra a ausência dos patrões. Recusámos a orfandade e arregaçámos as mangas. Achávamos que a mudança teria de ser de baixo para cima, ou então mudança nunca seria.

Também fomos contra salários iguais para toda a gente, afirmámos que essa era a variante indolente de salário igual para trabalho igual. Não estávamos dispostos a andar ao sol, a segurar na rabiça do arado, enquanto outros ficavam à sombra dos plenários, a beber da água fresca, ou do vinho branco, ou do tinto, ou das cervejas, qualquer coisa que servisse para festejar a Igualdade. Se queriam ter a Liberdade de passar os dias e as semanas e os meses a lançar foguetes e a recolher depois as canas, pois que isso fosse por conta deles, não por nossa…

Antes de tudo haver para todos, agir como se tudo já houvesse, é porque entretanto alguém pagaria a conta. Queimar etapas é promover o duelo fratricida entre a Igualdade e a Liberdade… Tanto bastou para que na Esquerda um senhorito afirmasse já estarmos infiltrados pela CIA e nos movesse luta mais acirrada do que a Direita. A qual, ao tempo, andava muito envergonhada.

A Liberdade e a Igualdade, moenga antiga, caminho armadilhado…

O CAPELA BATE À PORTA

Um dia bateu-nos à porta o Capela, técnico de contas da tecelagem de S. Ramiro, aldeia empoleirada nos altos da Serra da Estrela. Entendo de trapos e fui encarregado de atendê-lo. Espremi o homem. Disse-me que o empresário, o Dr. Miguel, era pimpão da alta, todo situacionista, legionário dos antigos. Depois do 25 de Abril fugira para Salamanca. O Capela fora atrás dele, quisera que lhe passasse uma procuração para a fábrica continuar a laborar. O Dr. Miguel nem o quis receber. O Capela voltou de Espanha muito desanimado, que na aldeia todos viviam da tecelagem. Mal, mas viviam. O resto eram umas courelas entre penhascos, batatas e ovelhas, coisa pouca …

– Então você pensou numa cooperativa de produção.

– Isso mesmo.

O Dr. Miguel tinha duas fiações na Covilhã, uma tecelagem em Coimbra e outra no Porto. S. Ramiro, para ele, não contava. Setenta teares manuais, cartões perfurados, jacquards, eram o equipamento básico.

– Manuais, Capela? Valha-nos Deus…

Mas a produção era toda colocada na Alemanha. Mais produzissem, mais venderiam. Panos com muitos lavores, rústicos, artesanais. Por isso, muito apreciados. A D. Emília desenhava os cartões e ensinava os pontos. Era uma órfã recolhida pela D. Eugénia, a falecida mãe do Dr. Miguel. A qual senhora fora muito dada a obras de caridade. A sua aflição era a miséria do povo. Na hora da morte, diante do Padre Joaquim, da D. Emília, das criadas, do abegão, de afilhados e protegidos, obrigou o filho a jurar que iria reabrir a tecelagem de S. Ramiro, pois ali começara a riqueza da família. E ele teve de cumprir, pois todo o povo já estava a par do prometido à senhora sua mãe. Mandou consertar os setenta teares e até pagou à D. Emília um curso de tecelagem manual, em Lisboa.

– Foi o melhor que fez. Sem a Emília, sem as suas mãozinhas de ouro, aquilo não tinha ido para a frente.

– Ó homem, não me diga que você é casado com a D. Emília…

Baixou a cabeça. Sorriu, murmurou:

– Quisera eu… Mas ela não quer, não quer… Acho que já não consigo dar-lhe o nó.

– E como é que você se aquece nas noites de Inverno? É só débitos e créditos para derreter a neve?

– Amigo Afonso, não se preocupe, cá me amanho…

Rimos e fomos almoçar no Bate Fundo. A nossa ânsia é que deu o nome ao tasco e às voltas e revoltas que há na vida…

S. RAMIRO

Dois copitos e acabei por puxar todo o fio à meada. O Capela nascera e crescera na Covilhã. Trabalhava no escritório de uma das fiações do Dr. Miguel. O patrão convidou-o para S. Ramiro. Ele foi, gostou da terra e ficou. Mas acho que ele gostou mais dos olhos da D. Emília. Fora sempre muito formosa. Aos 15 anos, órfã de pai e mãe, fora recolhida pela D. Eugénia. Tinha agora uns tinta e cinco anos.

– Trinta e cinco? Ó Capela, se você se atrasa ainda perde o comboio

Riu-se, constrangimento. E eu quis saber quem eram os outros influentes na terra. Falou-me do Padre Joaquim. O seboso andava sempre a pregar sermões, “tenham calma, tenham calma que hora a hora Deus melhora...”

E o povo sempre amochado, mansidão. Um bico d’obra! No dia seguinte, de manhã bem cedo, peguei no Renault 4-L e lá fomos os dois para S. Ramiro.

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