Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014) – 3 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (cantados) de Vasco Graça Moura, há que aceder à páginaImagem2

http://nossaradio.blogspot.com/2014/05/em-memoria-de-vasco-graca-moura.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

O Atol dos Amores

Poema: Vasco Graça Moura (in “Os Rostos Comunicantes”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984; “Poesia 1963/1995”, Lisboa: Quetzal Editores, 2007 – pág. 313);  Música: Jorge Salgueiro;  Intérprete: Negros de Luz* (in CD “Canções da Inquietação”, Foco Musical, 1998; CD “10 Anos de Inquietação”, Tradisom, 2005)

O atol dos amores
é uma porção de terra rodeada
de amor por todos os lados?
uma porção de amor rodeada
de terra por todos os lados?
rodeada de água?
rodeada?
ah, todo o amor é árduo a humano trato
e se interroga e ninguém
é uma ilha
onde se caça. Apenas
se conhece asperamente
seu rodeado mapa de coral. Apenas
contra a morte
a ilha, a redondilha.

* Negros de Luz:

Juliana Telmo – voz (soprano);  Dolores de Matos – voz (contralto); Carlos Ançã – voz (tenor); Carlos Cóias – voz (baixo); Óscar Mourão – piano
António Barbosa – violino; Paulo Viana – violino;  Susana Cordeiro – violeta; Carlos Faria – violoncelo;  José Carinhas – percussão
Direcção musical – Jorge Salgueiro;  Produção executiva – Miguel Pernes;  Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores, entre Janeiro e Maio de 1998;  Gravação, misturas e produção – Zé Vasco, António Pinheiro da Silva e Jorge Salgueiro

Poetas de Lisboa

Poema: Vasco Graça Moura (in “Letras do Fado Vulgar”, Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 18; “Poesia 1997/2000”, Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 196);  Música: Casimiro Ramos (Fado Margaridas),  Intérprete: Carlos do Carmo* (in 2CD “Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira”: CD 2, EMI-VC, 1999)

É bom lembrar mais vozes pois Lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso do Cesário
e alguma em ironias do Pessoa

Para cada gaivota há um do O’Neill
para cada paixão um do David
e há Pedro Homem de Mello que divide
entre Alfama e Cabanas seu perfil

E há também o Ary e muitos mais,
entre eles o Camões e o Tolentino,
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

Muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso vem asinha
assim do coração para a garganta

Que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa

* Carlos do Carmo – voz;  Ricardo Rocha – 1.ª guitarra portuguesa (canal esquerdo); Paulo Parreira – 2.ª guitarra portuguesa (canal direito)  José Maria Nóbrega – 1.ª viola (canal esquerdo);  Carlos Manuel Proença – 2.ª viola (canal direito);  José Elmiro Nunes – baixo acústico;  Concepção musical – Carlos do Carmo;  Produção – Alfredo Almeida;  Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1998;  Misturado na unidade móvel BANZAI, por Alfredo Almeida e Miguel Escada;  Editado e masterizado por Alfredo Almeida e Rui Dias, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores

Nasceu Assim, Cresceu Assim

Poema: Vasco Graça Moura (excerto de “Genealogia”) [texto integral >> abaixo]; Música: Fernando Tordo,  Intérprete: Carlos do Carmo* (in CD “Nove Fados e Uma Canção de Amor”, Mercury/Universal, 2002)

Talvez a mãe fosse rameira de bordel
talvez o pai um decadente aristocrata
talvez lhe dessem à nascença amor e fel
talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata

talvez o tenham educado sem maneiras
entre desordens, navalhadas e paixões
talvez ouvisse vendavais e bebedeiras
e as violências que rasgavam corações

talvez ardesse variamente em várias chamas
talvez a história fosse ainda mais bizarra
no desamparo teve sempre duas amas
que se chamavam a Viola e a Guitarra

pois junto delas já talvez o reconheçam
talvez recusem dar-lhe o nome de Enjeitado
e mesmo aqueles que o não cantam não esqueçam
nasceu assim, cresceu assim, chama-se Fado

* Carlos do Carmo – voz;  Ricardo Rocha – guitarra portuguesa;  Carlos Manuel Proença – viola;  Fernando Araújo – viola baixo acústica
Arranjos – Carlos do Carmo, Ricardo Rocha e Carlos Manuel Proença;  Produção – Carlos do Carmo, Ricardo Rocha, Carlos Manuel Proença e Nuno Faria;  Consultadoria de produção – Alfredo Almeida;  Produção executiva – Nuno Faria / Condado Azul, Lda.;  Coordenação de edição – Paula Homem / Universal Music Portugal;  Gravação – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL, Paço d’Arcos, em Setembro e Outubro de 2002
Assistente – Pedro Ferreira;  Misturas – Fernando Abrantes, Nuno Faria e Alfredo Almeida, nos Estúdios MDL;  Masterização e edição digital – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL

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