AS ELEIÇÕES EUROPEIAS, A POLÍTICA E A DESIGUALDADE, de ZYGMUNT BAUMAN

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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As eleições europeias, a política e a desigualdade

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Zygmunt Bauman, Social Europe Journal

The European Elections, Politics And Inequality, 30 de Maio de 2014

Parte IV

(CONCLUSÃO)

A expropriação da política

Se havia um denominador comum para a infelicidade manifestada pelas muito diferentes categorias sociais, económicas e políticas de europeus, este era – ou tão pelo menos é o que me parece – no plano prático, se não mesmo no plano explícito, este denominador comum era a expropriação da política que foi feita contra os cidadãos para quem, afinal, esta tinha sentido e para quem foi concebida servir. Mas, como Abraham Lincoln propôs e insistiu há muito tempo, nenhum homem é suficientemente bom para governar um qualquer outro homem sem o seu respectivo consentimento. A auto-produção, a auto-afirmação são não somente alguns de entre os muitos inalienáveis direitos humanos mas são igualmente os pilares para “os cidadãos viverem diariamente em democracia” que Lawson tinha em mente.

Mauro Magatti e Chiara Giaccardi, professores do Università Cattolica del Sacro Cuore em Milão, há várias semanas atrás publicaram um estudo fundamental sob um título desafiante Generativi di tutto del modo unitevi! [7]. O subtítulo define esta obra como um “manifesto de uma sociedade da liberdade”. No centro da atenção dos autores estão (para me expressar no meu próprio idioma) as possibilidades e as perspectivas da “re-subjectificação do trabalho”, ou da restauração para os trabalhadores do seu estatuto de sujeitos (de “auctors” – união pessoal de autores e de actores) de que foram expropriados no decurso da história moderna. Foi com a ideia de dar um nome ao produto da reunificação das funções de actor e de autor, que Magatto e Giaccardi inventaram um novo conceito de “indivíduos geradores “. A essência semântica desse conceito será talvez melhor traduzido em inglês ou português como “o indivíduo criativo”.

Magatti e Giaccardi nem sugerem que se puxe para trás o relógio da história, nem procuram que se faça um recuo da moderna individualização que, paralelamente, introduz novas ameaças para o self e abre, com efeito, novos horizontes quanto às contribuições individuais para a riqueza material e espiritual do mundo da vida humana – Lebenswelt. Para agir de forma criativa, escrevem eles, é necessário decidir sobre o valor e, depois, torná-lo realidade, dar-lhe substância. O valor é precisamente o enriquecimento do mundo que partilhamos, não o seu empobrecimento, como na linha e no estilo do caçador, privatizando a utopia. A lógica da “criatividade” assenta em objectivos cruzados com a lógica do consumismo. Esta lógica da criatividade não é guiada pela vontade de “incorporação” (ou seja, de apropriação das coisas e retirando-as pela mesma razão da circulação e do uso partilhado e da sua fruição), mas sim a intenção e a prática de “excorporação”: “A criatividade é um modo de vida, cujo objectivo é ajudar os outros no seu ser e estar na vida, cuidar da sua vida e da massa de recursos da vida”.

A liberdade de auto-afirmação individual combinada com a personalidade geradora leva a que se seja capaz de multiplicar a riqueza material e espiritual do mundo humano e com isso – e graças a isso – aumentar também o significado e a qualidade moral da existência humana e da convivência. Essa combinação, se formos bem sucedidos no esforço para com ela substituirmos o modo actual de auto-criação e de auto-afirmação baseado na rivalidade em vez de o ser na colaboração, tem uma chance de evitar o rebaixamento da humanidade ao nível de um jogo de soma zero. A liberdade de autodefinição individual unida com a prática de “excorporação” é uma garantia de crescente riqueza e de diversidade do potencial humano –, mas também de melhoria do espaço para todos nós e para a auto-definição e auto-constituição de cada um de nós. Solidariedade de destino e de esforços resultantes e apoiados pela criatividade não se irá situar em oposição ao propósito de auto-afirmação individual; muito pelo contrário, tornar-se-á o seu melhor aliado – o mais leal e confiável . Essa solidariedade é, na verdade, uma condição necessária e a melhor garantia do seu sucesso.

This essay is from the forthcoming book “Self-production of Self”, in conversation with Professor Rein Raud of Tallinn University, to be published by Polity Press.

Zygmunt Bauman, Social Europe Journal, The European Elections, Politics And Inequality, 30 de Maio de 2014.

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[7] Feltrinelli 2014.

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Para ler a Parte III deste texto de Zygmunt Baumann, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

AS ELEIÇÕES EUROPEIAS, A POLÍTICA E A DESIGUALDADE, de ZYGMUNT BAUMAN

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Ver:

http://www.social-europe.eu/2014/05/european-elections-2/

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