Este artigo foi publicado na edição de terça-feira, 10 de Junho, do jornal Público. É aqui transcrito com a expressa autorização do autor e da direcção do jornal. Muito agradecemos a ambos.
Um think tank da extrema-direita económica consegue publicar a sua propaganda em milhares de jornais.
Tal como já aconteceu em anos anteriores, vários órgãos de comunicação publicaram na semana passada artigos e reportagens sobre o Dia da Libertação. Só que este Dia da Libertação, apesar de ter caído também no dia 6 de Junho, não era a comemoração do desembarque na Normandia em 1944, nem o dia da vitória sobre a Alemanha nazi que se comemora em muitos países da Europa invadidos durante a guerra, mas sim o Dia da Libertação de Impostos.
Nessas peças jornalísticas, baseadas todas ou quase num despacho da agência Lusa (ainda que muitos não o assinalassem, seguindo uma lamentável tradição nacional), os seus autores explicavam que, até ao dia 6 de Junho, os portugueses tinham trabalhado apenas para pagar impostos e que era só a partir desse dia que estavam, finalmente, a trabalhar “para si”.
Era difícil ouvir estas reportagens sem ficarmos indignados com a ganância deste Estado que nos rouba o dinheiro arduamente ganho e esse era o tom dos entrevistados de rua que vi na televisão. Todos lamentavam que tivessem de dar tanto dinheiro ao Estado e que ficasse tão pouco para eles próprios, incluindo uma mulher que se identificava como funcionária pública, mas que não tinha parado para pensar que era daqueles impostos que vinha a totalidade do seu salário.
As reportagens que vi e os artigos que li dividiam-se entre um tom técnico e factual ou um tom discretamente escandalizado e todos citavam “um relatório”, “uma organização” ou “os autores do estudo”. Todos, porém, eram peças de pura propaganda.
O subtexto de todos eles era cristalino: o Estado é uma entidade parasita, que rouba aos honestos trabalhadores mais de metade do que produzem para o enterrar num buraco negro sem dar nada em troca e, se não fosse assim, todos estaríamos muito melhor.
Não vi nem li uma peça onde se referisse, mesmo que à margem, que é com esse dinheiro que se pagam escolas e hospitais, estradas e pontes, salários de enfermeiros e médicos, juízes e polícias, autarcas e bibliotecários, cientistas e professores, a protecção civil e a defesa do património, o apoio aos deficientes e o combate à pobreza, os seguros que nos garantem protecção na doença e no desemprego. Não vi nem uma peça que lembrasse que, até dia 6 de Junho, o que o nosso trabalho cobre, o que os nossos impostos de todo o ano pagam são estas necessidades básicas, sem as quais seríamos, simplesmente, um bando de animais.
É tão relevante ou tão disparatado sublinhar que trabalhamos até dia 6 de Junho para pagar impostos, como sublinhar que trabalhamos três meses por ano para o nosso senhorio, mais dois meses para o Pingo Doce e o restante mês para a EDP e para a Nos, sem que sobre um euro que seja “para nós”.
Todas estas “peças jornalísticas” são peças de propaganda porque, insidiosamente, insinuam que os impostos não são para “nós” mas para “eles”, que os impostos servem interesses e grupos que não são os da comunidade. Mas, curiosamente, estes estudos não referem que trabalhamos mais de um mês por ano para pagar apenas juros (e, aí sim, sem termos absolutamente nada em troca), para além do que temos de trabalhar para pagar a dívida em si.
Como não referem que a organização autora do estudo, a New Direction-The Foundation for European Reform, não é um think tank independente e idóneo, mas apenas um lobby da extrema-direita económica instalado em Bruxelas para impor a agenda neoliberal, que tem como santa padroeira Margaret “There Is No Alternative” Thatcher.
É evidente que é importante conhecer e avaliar a evolução ao longo dos anos da colecta fiscal. E é importante fazer estudos comparativos com outros países. Mas não para estabelecer como objectivo reduzir cegamente a “carga fiscal”. Não se pode avaliar a bondade de uma política fiscal sem saber para quê e como são usados os nossos impostos. Não é apenas o custo que conta: é também o benefício que se recebe em troca.
E é por isso que, entre os países que aceitam as maiores “cargas fiscais” da Europa, vemos países com elevados níveis de bem-estar como a Bélgica, a França, a Áustria ou a Alemanha.
A New Direction-The Foundation for European Reform tem uma agenda e uma estratégia a que se costuma dar o nome de “starve the beast” e que foi a agenda e a estratégia de Thatcher e de Reagan. A “beast” é o Estado (Cavaco chama-lhe “o monstro”, mas é a mesma coisa) que é apresentado como um sorvedouro insaciável de dinheiros dos contribuintes. A estratégia é reduzir drasticamente os impostos, convencendo os cidadãos que lhes estão a “meter dinheiro nos bolsos” e, em seguida, reduzir a oferta de serviços públicos com o argumento de que… não há dinheiro. Segue-se a privatização de serviços públicos que são transformados em negócios para os amigos. Os pobres ficam mais pobres e morrem pobres e os ricos ficam mais ricos e vivem felizes para sempre, comemorando o Dia da Libertação dos Impostos e torcendo-se a rir com gosto.
Essencialmente, José Vítor Malheiros tem razão. E é muito provável que a maioria dos artigos ou apreciações publicadas servissem a propaganda contra a existência de um Estado a sério, interventivo, bem estruturado e dotado dos meios humanos e técnicos que lhe permitam regular o funcionamento do País no sentido de melhorar a vida de todos os cidadãos e não apenas de facilitar a dos mais ricos. Mas importa não esquecer que, nos últimos anos, em Portugal, esses impostos (que suponho abarcarem, no referido despacho, todos os descontos absorvidos pelo Estado) têm aumentado substancialmente e boa parte deles são desviados para o pagamento da famosa “dívida” que o povo português NÃO contraiu, nem para ela contribuiu, enquanto os serviços públicos que o Estado deve prestar e melhorar têm sofrido uma deliberada deterioração. Enquanto se aumenta o que se paga por esses serviços ou se passa a pagar o que era gratuito – como as “taxas moderadoras”, meios auxiliares de diagnóstico, etc., no SNS – o que se soma aos impostos, aqueles que já existiam e outros que vêm sendo introduzidos, como “contribuições de solidariedade” (com quem?!) e quejandas cousas… E isto é feito, precisamente, por um Governo – mais os seus empregados que enfeitam a AR, fazendo de conta que representam os cidadãos e não os partidos que os escolhem para esse emprego – que tudo quer privatizar, despojando o Estado de meios fundamentais para cumprir as suas funções em plenitude. Portanto, estamos a pagar cada vez mais para que esta gente destrua o próprio Estado, deixe em farrapos o tecido económico e dê cabo de todos os serviços públicos, para dar lucro a diversas actividades privadas que os “substituem” – pagando, claro! – para reduzir as condições de trabalho às que se praticavam no século XIX e encher os baús de especuladores internacionais sem escrúpulos, traficantes de armas idem ou simples “empreendedores”, que gostariam de reduzir os custos da mão-de-obra ao estritamente necessário à sobrevivência de novas gerações de escravos.
Em suma, estamos a pagar muito mais do que aquilo que, colectivamente, recebemos em troca. Estamos a pagar para destruírem ou venderem ao desbarato o que, sendo “do Estado”, é de todos.
Não devemos esquecê-lo, nem que estão a desviar o que pagamos, para os fins que JVM descreve, para as actividades exponencialmente lucrativas, obscuras e sórdidas de uma “selecta elite” de malfeitores internacionais e apátridas (porque o que lhes interessa – o dinheiro – não tem pátria).
Essencialmente, José Vítor Malheiros tem razão. E é muito provável que a maioria dos artigos ou apreciações publicadas servissem a propaganda contra a existência de um Estado a sério, interventivo, bem estruturado e dotado dos meios humanos e técnicos que lhe permitam regular o funcionamento do País no sentido de melhorar a vida de todos os cidadãos e não apenas de facilitar a dos mais ricos. Mas importa não esquecer que, nos últimos anos, em Portugal, esses impostos (que suponho abarcarem, no referido despacho, todos os descontos absorvidos pelo Estado) têm aumentado substancialmente e boa parte deles são desviados para o pagamento da famosa “dívida” que o povo português NÃO contraiu, nem para ela contribuiu, enquanto os serviços públicos que o Estado deve prestar e melhorar têm sofrido uma deliberada deterioração. Enquanto se aumenta o que se paga por esses serviços ou se passa a pagar o que era gratuito – como as “taxas moderadoras”, meios auxiliares de diagnóstico, etc., no SNS – o que se soma aos impostos, aqueles que já existiam e outros que vêm sendo introduzidos, como “contribuições de solidariedade” (com quem?!) e quejandas cousas… E isto é feito, precisamente, por um Governo – mais os seus empregados que enfeitam a AR, fazendo de conta que representam os cidadãos e não os partidos que os escolhem para esse emprego – que tudo quer privatizar, despojando o Estado de meios fundamentais para cumprir as suas funções em plenitude. Portanto, estamos a pagar cada vez mais para que esta gente destrua o próprio Estado, deixe em farrapos o tecido económico e dê cabo de todos os serviços públicos, para dar lucro a diversas actividades privadas que os “substituem” – pagando, claro! – para reduzir as condições de trabalho às que se praticavam no século XIX e encher os baús de especuladores internacionais sem escrúpulos, traficantes de armas idem ou simples “empreendedores”, que gostariam de reduzir os custos da mão-de-obra ao estritamente necessário à sobrevivência de novas gerações de escravos.
Em suma, estamos a pagar muito mais do que aquilo que, colectivamente, recebemos em troca. Estamos a pagar para destruírem ou venderem ao desbarato o que, sendo “do Estado”, é de todos.
Não devemos esquecê-lo, nem que estão a desviar o que pagamos, para os fins que JVM descreve, para as actividades exponencialmente lucrativas, obscuras e sórdidas de uma “selecta elite” de malfeitores internacionais e apátridas (porque o que lhes interessa – o dinheiro – não tem pátria).