Carta do Rio – 4 – por Rachel Gutiérrez

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Quanta coisa acontecendo! É verdade: jogadores de todo o mundo chegando para a Copa; turistas de todo o Brasil e de todo o mundo chegando para a Copa; um certo desânimo geral também chegando com a Copa já tão próxima ; greves, manifestações, toda a insatisfação e a descrença nos políticos emergindo às vésperas da Copa, no país inteiro. Apesar da Copa ou por causa da Copa. E tudo gira em torno da Copa ou contra os usos e abusos da Copa. A Copa parece ofuscar o universo inteiro.

Mas eis que chega um outro tipo de notícia: no dia 10 de junho, houve alguém que soube mais uma vez usar seu prestígio, sua celebridade e o poder de sua visibilidade para conclamar os homens e as mulheres deste triste planeta para uma tomada de consciência e uma ação contra a violência sexual. “Angelina Jolie e o secretário britânico de Relações Exteriores, William Hague, se reuniram nesta terça-feira na primeira conferência mundial contra a violência sexual em conflitos e prometeram ações práticas para punir os responsáveis e ajudar as vítimas.” Que finalmente se aborde esse assunto gravíssimo é, no mínimo, alentador. Pois, como é possível que os seres humanos ditos civilizados ainda não tenham acrescentado à Convenção de Genebra uma severa punição para essa prática hedionda, a de estuprar as mulheres no intuito de desonrar e humilhar o inimigo, tripudiando assim sobre sua derrota, como se os seres humanos mulheres fossem meras coisas ou objetos que se pode emporcalhar, destruir ou usar como troféu de guerra? Até quando a chamada humanidade vai tolerar essa barbárie?

A conferência vem sendo preparada há dois anos e seu objetivo “é propor ações para proteger mulheres, crianças e homens de estupros e ataques sexuais em zonas de guerra.” O recente sequestro das duzentas estudantes nigerianas, depois o de mais nove, e ainda o de mais vinte e “ o apedrejamento que matou uma mulher grávida no Paquistão e o estupro e assassinato de duas adolescentes indianas aumentaram a pressão por ações efetivas”, como diz o jornal O Globo.

O mundo está cada vez mais violento, seu próprio sistema econômico baseado na tão exaltada competitividade é uma forma de guerra da qual fazem parte necessariamente a deslealdade, a espionagem industrial, a ganância, o individualismo e o egoísmo com boa consciência. Os valores da compaixão e da solidariedade não têm mais lugar no mundo em que o único deus é o dinheiro e onde imperam a prepotência, a força bruta e o medo. E na indústria do sexo, a exploração de crianças é tão gritante que o governo brasileiro, sabedor de que o turismo sexual é mais ativo em metrópoles litorâneas e em períodos como o do Carnaval e do Réveillon, se disse preocupado com a previsível explosão da prostituição infantil durante a Copa e prometeu medidas eficazes para combatê-la. Só podemos desejar que essa promessa seja cumprida. Como desejamos que o paradeiro das jovens da Nigéria seja encontrado e que elas possam voltar sãs e salvas para casa.

Por enquanto não é proibido sonhar.

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