DOMINGOS LOBO – PRÉMIO DE LITERATURA ALVES REDOL – CATEGORIA DE CONTO – DISCURSO PROFERIDO QUANDO RECEBEU O PRÉMIO

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Domingos Lobo, escritor já com uma importante obra publicada, proferiu, em 23 de Abril de 2014, ao receber o Prémio Literário Alves Redol de 2013, na categoria de conto, uma importante palestra, que julgamos importante pôr à disposição dos nossos leitores, com a autorização do autor. Propomos assim a leitura:

 

Começo por agradecer este Prémio à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira que, mesmo em tempo de crise, não desiste da Cultura. Agradeço, igualmente ao júri que viu nos meus contos sobre distantes e fragmentárias, já evanescentes, memórias de um tempo angolano, valia bastante para lhes atribuir um prémio que traz o nome de um dos maiores prosadores portugueses do século XX e um dos obreiros máximos do nosso neo-realismo. Aquando das comemorações do centenário do nascimento de Alves Redol, tive a grata tarefa de escrever e publicar uma série de textos sobre a obra deste notável escritor e de realizar várias sessões em escolas e bibliotecas do país, relevando a sessão que, a convite da Cooperativa Alves Redol, se realizou no Pinhão. É pois uma honra receber um prémio que tem tão ilustre patrono.

Os prémios literários têm servido, em pátria de tolhimentos culturais diversos, e face ao desnorte que hoje campeia no tecido editorial português, como uma possibilidade de revelação ou de divulgação da obra e de reconhecimento dos seus autores.

A literatura portuguesa atravessa, sabemo-lo, um período difícil, controverso, com a invasão da subliteratura, fenómeno recente, inimaginável ainda há duas décadas, e que António Guerreiro classifica, com propriedade, de “lixo editorial” e Mário Santos, com mordacidade, de desperdício de papel com consequente prejuízo ambiental.

Pátria dita “de poetas”, expressão que vale o que valem os lugares comuns, raras são as edições de poesia que entre nós vão além dos 500 exemplares de tiragem, mesmo para autores reconhecidos e com obra vasta, o mesmo se passando com o conto, ambos olhados, pelos editores, como parentes menores, apesar do Nobel de 2013 ter sido atribuído a uma contista exemplar. Isto porque os autores teimam em mutuamente se ignorar, e alguma crítica afina por idêntico diapasão, em deriva suicidária agravada pela ascensão aos lugares de mando de uma tecnocracia possidónia e delirante, culturalmente boçal, que pretende reduzir-nos a meros consumidores acríticos e disponíveis para todas as tropelias que o capital engendre, condição sistémica que o sociólogo Axel Honneth denunciou, a qual consiste no primado do menor prazer absoluto e este consignado ao atordoar dos sentidos, mandando às urtigas a sensibilidade criadora, o intelecto, a agudeza crítica e proximidades: as televisões, com a sua panóplia de mediocridade delirante, os debates futebolísticos e a contínua arenga do economês subserviente, esse linguajar dos bárbaros hodiernos, estão na vanguarda deste processo de ocultação do real, que é tudo menos inocente.

A Literatura, a que inquire e reflecte as inquietações contemporâneas, em clima assim, que se espalha do alto como as trevas, se formatiza nos misérrimos discursos do poder e frutifica depois nos dias ignaros que nos vêm impondo, como se a vida fosse este lodo, este chão minguado, este cinzento espesso e medíocre das palavras sem lastro, a Literatura, a Cultura, em putrefacto ambiente, sem ar respirável, tem espaço de manobra ínfimo e residual.

Resta-nos, portanto, neste território desolador, a persistência de alguns municípios que se não deixam tolher pela desordem geral e tentam o isolado grito que possa, fugazmente, estremecer este absurdo caos. Alguns prémios literários que a APE vem, igualmente, estimulando e promovendo, servem como contraponto, quiçá de resistência, entreabrindo portas de acesso à possibilidade de edição de livros enxutos e dignos, projecto que entre nós arregimenta cada vez menos adeptos entre os responsáveis editoriais e os poderes instalados. O negócio do livro atende à lógica rapace do mercado e os seus tentáculos de polvo vão definindo, impondo e estruturando, de modo cada vez menos subtil, o deserto.

Num tempo em que a fasquia da qualidade nas artes, nomeadamente na literatura, começa a colocar-se dramaticamente baixa; num tempo de Helen Fielding, de Danielle Steel, de Aroucas, de Filipas e Margaridas, da escrita de comadres das Felícias e quejandas; figuras mediáticas e obreiras de livrinhos farfalhudos; do regresso, com trombetas e marketing apurado a uma escrita de pipocas e coca cola, promovida a acontecimento mundano nas páginas das revistas de coração lorpa; escritinha laroca e sem calorias que vende tanto como a música pimba anglo-saxónica e se pavoneia nos écrans das televisões como se um detergente se tratasse, que se mostra nas fachadas dos prédios degradados ao lado dos cartazes do Tony Carreira; num tempo assim, a tocar o fundo (quanto mais se toca no fundo, mais ele desce), olhamos o céu e o negrume açoita-nos impiedoso.

Vargas Llosa, ao referir-se há uns anos, cáustico, à literatura light, afirmava que o problema deste género de escrita é não fazer pensar, deixar o leitor passivo, podendo levá-lo até ao extremo de lhe “bloquear a sensibilidade”, impedindo-lhe voos cognitivos mais exigentes. Não se trata, e neste particular estou de acordo com Cortázar, dos conteúdos que essa literatura desenvolve (dos quotidianos da média burguesia urbana: míticos, mitológicos ou históricos), mas da forma como são abordados. Montalbán dizia que no teatro, qualquer dia, só existirão zarzuelas e peças de Corin Tellado e a literatura reduzir-se-á, a breve trecho, a pouco mais do que a de cordel, para ler de pé no intervalo das copas e das tapas. Se este era, no início do século XXI, o panorama desolador sentido pelos nossos vizinhos ibéricos – cujo consumo cultural é incomparavelmente superior ao nosso, com uma literatura pujante, influente e de dimensão planetária – o que dizer de um país em que apenas 15% da população lê com alguma regularidade; onde 4 milhões de almas se quedam sonolentas; onde 4 milhões de almas se quedam sonolentas e passivas frente aos écrans de televisão, a olhar a sordidez dos quotidianos enjaulados de um grupo de rapazes e de raparigas que dizem banalidades com a convicção boçal de quem está a rasurar as badanas da história, fingem orgasmos frente ao olhar omnipresente das câmaras e só com muito esforço conseguem articular, ao longo de 24 horas de exibição de bíceps e coxas, mais de 100 vocábulos (socorro-me, nestes dados, de uma afirmação do insuspeito prof. Marcelo Rebelo de Sousa) incluindo, claro, parga de verborreia canhestra e ligeira e os bués da gíria.

No panorama desolador das artes em Portugal, ainda há espaço para a leitura, ou seja, ainda é possível  produzir literatura que exija do leitor tempo e contemplação, como escreveu Maria Gabriela Llansol, ou simplesmente seja a festa da sensibilidade, como a definiu Werner Krauss? Literatura a urdir-se despertando-nos para outras profundezas da vida, prenhe de signos efabulatórios que reconduzam o leitor pelos caminhos do sensível e do sonho, a um tempo arguta, organicamente límpida e envolvente – literatura para o gozo dos sentidos mas a inquietar-nos, a sorver-se devagar como vinho raro; uma ideia nova que nos intranquilize, desperte o humano que nos habita.

Ideologia, dirão alguns. A relação entre ideologia e literatura será sempre de conflito, de interrogação permanente, pela própria condição subjectiva, fragmentária e meta dialéctica da criação literária e dos seus pressupostos teóricos e estéticos, daí nos parecer que a actividade crítica constituirá, se exercida com justeza e lisura, o suporte protector das liberdades criativas face aos mecanismos opressores constituídos para a sua difusão, e aos embustes que invadem este espaço.

Ou seja, o sistema reinventa a ideologia: as ideologias do sacrossanto mercado nascem das contradições do sistema, ajustam-se pragmaticamente às circunstâncias históricas do momento, têm um sentido aglutinador e concentracionário, mesmo que fragmentado, principalmente quando a crise abala o seu território. É nesta conjuntura que alguns teóricos já admitem que a globalização foi um embuste e argumentam com novas alianças estratégicas e de confronto, com a criação de novos blocos, não necessariamente antagónicos.

Gramsci dizia-nos que enquanto historicamente necessárias, as ideologias possuem uma validade que é psicológica, ou seja, organizam as massas, formam o terreno onde os homens se movem, onde adquirem consciência da sua condição. O neoliberalismo serve-se da ideologia para criar o inconsciente cultural, que lhe permite o domínio e controlo dos imaginários que ressumam, criticamente, nos produtos culturais, enquanto vai criando a necessidade psicológica da fuga ao esforço criador e reflexivo: ler autores que façam pensar é chato; o cinema de autor uma seca; a música erudita faz sono; o teatro contemporâneo é para crânios e intelectuais e outros clichés tendentes a condicionar o gosto e a colocar as elites no patamar central de acesso às artes e à cultura mais exigente e criar simultaneamente, como necessidade de consumo de massas, ao serviço do esbulho planetário, a subcultura da evasão, alienante e medíocre – daí a sua sinistra perversidade.

A tarefa do escritor, que será deontológica e ética, neste contexto, reside em resistir às seduções e à banalidade e lutar para que este curso das coisas se inverta e dias mais altos, limpos e justos – os dias levantados, de que nos fala Manuel Gusmão – surjam e o plúmbeo deste baixo céu se dissipe. Um dia.

DOMINGOS LOBO

1 Comment

  1. Estou absolutamente de acordo com a análise do “lixo literário” que ao lado do lixo televisivo e civilizacional nos envolve a cada instante; de tal modo que quase tenho arrepios de morte sempre que tento ligar o meio de comunicação mais em voga, em qualquer dos seus canais… e muitas vezes nem sequer eles são exclusivamente lusos.
    Os editores deveriam, filtrar os projectos de edição e não só interesseiramente promover as “ejaculações precoces” de qualquer candidato a escritor. Há pouco ouvi um que se vangloriava de já ter escrito um ensaio (!) e um romance e que provou não saber sequer o que era uma palavra composta!!!
    Portugal está há uns tempos a praticar um suicídio cultural maior do que em qualquer época da sua História!

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