Os resultados das eleições para o parlamento europeu levam muitos a interrogar-se: o que há de podre no país de Voltaire e Hollande? Um eleitor (que votou) em cada quatro pretende fechar duplamente a França? Nem abertura à Europa nem à imigração? Este “orgulhosamente sós” lembra qualquer coisa aos portugueses… (Por exemplo uma clausura que nos travou o desenvolvimento nas três décadas – os “Trinta Gloriosos” – entre o fim da guerra e a crise do petróleo. Ou os cães de guarda do regime.) Sem pretender explicar aqui todo o problema, queria expor algumas facetas desta realidade.
A França construiu uma sociedade com elevada qualidade de vida. Uma Segurança Social exemplar. Uma função pública eficaz. Um ensino de muita qualidade. Trinta e cinco horas de trabalho semanal. Seis semanas de férias. Uma cultura viva, variada, produtiva – do cinema à ópera passando pela literatura e pelos museus. Muito resta para melhorar, em particular no meio ambiente, o que se come, o que se respira, a água da torneira, o modo de transporte das mercadorias porém, se compararmos com outros países europeus, a Itália, a Espanha, a Grã-Bretanha, por exemplo, a natalidade francesa exprime o seu bem-estar social. Todavia, de há uma década a esta parte, a Europa percorre um caminho pedregoso e, se a encosta é em Portugal vertiginosa, em França, embora mais progressiva, embora menos íngreme, mesmo com capacetes e joelheiras, a descida não deixa de assustar. Muitos se convencem de que a sua vida será pior do que a dos pais e melhor do que a dos filhos.
Ora, neste período de mudança, de muitas dúvidas (mas também de invenção), os franceses desiludiram-se com os partidos que há meio século alternam no hexágono, os quais já lhes prometeram tudo e o seu contrário, desperdiçaram dinheiro quando o havia, continuam a desperdiçar o que agora não há, sem atentarem num eleitorado constituído por cidadãos que trabalham – ou estão desempregados – e têm a casa para pagar, que querem transmitir aos filhos o seu património, criado nas lutas e nos séculos, da língua à escola laica, passando pelos direitos da mulher, que respiram ares muito poluídos e (alguns) não têm água potável, esta também poluída, que da árvore das patacas só veem cair folhas com taxas e impostos, que assistem cada dia à chegada de barcos clandestinos e perguntam se a Europa poderá assimilar todos os africanos pobres…
(Continua)

