POESIA AO AMANHECER – 466 – por Manuel Simões

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HELENO DE OLIVEIRA

                                              ( 1942 – 1995 )

            ÁFRICA

            (fragmento)

            Ah se eu pudesse caminhar savanas

            Penetrar florestas subir montanhas

            Sentir o vento dos desertos

            E renascer ainda mais negro

            Negro do negro da negra negríssima

            África

            Na noite da tua história

            A pintar o mundo do fundo das naus

            Quando o mar sabe a gritos

            O céu se esvazia de deuses

            Florença floresce em florins

            Portugal e Espanha em festins

            Que só a kenosis pode apagar.

            Vivo sou tuas postas

            Senzala coroa das cidades

            Da tua diáspora a memória extinta

            Rasgaram do Brasil todas as folhas

            O número das lágrimas a vergonha

            … … … … … … … … … … …

            A dizer a Trinidade sem cor

            Sem nenhuma cor

            Toda negra a desvelar tua saga

            Teu negro destino

            Quase igual ao Verbo

            Que enegrecido ao calor dos Três

            Beija-te com o beijo da sua boca

            Cobre a infelicidade

            Corta o soluço da terra

            Saravá!

            (de “Oropa, França e Bahia”)

Poeta que estabelece a ponte entre o Brasil, a Europa e a África. Nasceu no Nordeste brasileiro, filho de branco europeu e de mãe negra, transferiu-se para Florença (Itália) em 1983 e, mais tarde, para Lisboa, cidade onde faleceu. Escreveu em português e em italiano (“Se fosse vera la notte”, Roma, 2003), país onde também acabou por se publicar a antologia dos poemas em português, “Oropa, França e Bahia” (Florença, 2004).

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